Aliados republicanos atacam decisões de Bush

David Westphal
McClatchy News Service
Em Washington

Subitamente, o presidente Bush está tendo dificuldade em manter os seus aliados em uma fileira coesa. Republicanos proeminentes estão rompendo com a hierarquia do partido no que se refere a várias questões, criando fissuras nos pactos de solidariedade mantidos por Bush com o seu Partido Republicano durante a maior parte do seu primeiro mandato.

No outono passado, aliados do presidente asseguraram que duas insurreições conservadoras --uma contra Harriet Miers, a indicação fracassada do presidente para a Suprema Corte, e a outra contra os grandes incrementos de gastos promovidos por Bush-- seriam anomalias de curta duração. Mas os antigos aliados do presidente continuam abandonando-o.

A revolta do líder da maioria no Senado, Bill Frist, contra a cessão das operações portuárias dos Estados Unidos a uma companhia do Oriente Médio é apenas o último de uma série de incidentes.

Nas últimas semanas, a Casa Branca tem sido intensamente criticada por lideranças republicanas devido ao seu programa de interceptações de comunicações domésticas, após a polêmica quanto ao seu plano sobre os medicamentos fornecidos pelo Medicare, e até mesmo quanto a uma discreta proposta de Bush no sentido de analisar a situação do Social Security, do Medicare e do Medicaid.

Tudo isso está longe daquele recomeço róseo que os assessores da Casa Branca esperavam para 2006.

"Não estou certo de que os problemas que vimos surgir a partir da indicação de Miers tenham desaparecido", opina Andrew Busch, professor de ciências de governo na Faculdade Claremont McKenna, na Califórnia. "Existem alguns problemas de credibilidade pendentes para o presidente".

Esses problemas, que poderão ter conseqüências para a agenda de Bush e para as eleições do próximo outono, não estão emergindo apenas nas salas do Congresso. Eles encontram um correspondente nas pesquisas de opinião, que sugerem que a presidência atravessa dificuldades.

Segundo uma pesquisa Gallup realizada no início deste mês, o último índice de aprovação de Bush, de 39%, se aproxima do seu índice mais baixo já registrado, que foi de 37%. A mesma pesquisa indicou o pessimismo persistente dos norte-americanos quanto à guerra no Iraque, já que apenas 31% dos entrevistados, o índice mais baixo até então registrado, afirmaram achar que os Estados Unidos estão ganhando a guerra.

E uma pesquisa Zogby realizada no início de fevereiro mostrou que o índice de aprovação do presidente no que se refere à forma como ele lida com a questão do terrorismo, de 43%, contrasta intensamente com a aprovação de 67% com a qual ele contava nesta área pouco antes da sua reeleição, em 2004.

"Creio que uma grande parcela do eleitorado desistiu de George W. Bush", afirma James McCann, professor de ciência política da Universidade Purdue.

Os acontecimentos deste início de 2006 têm sido desalentadores para uma Casa Branca que teve que suportar um inesperadamente difícil ano de 2005, e que esperava que o discurso sobre o estado da União, feito no final de janeiro, criasse as condições para um retorno da popularidade governamental. Em vez disso, Bush tem se deparado com fortes ventos contrários, e a lista de republicanos que dele discordam continua crescendo.

Um punhado de conservadores de peso, incluindo o senador Pat Roberts, do Kansas, presidente do Comitê de Inteligência no Senado, tem questionado a decisão de Bush de interceptar, sem autorização judicial, as comunicações entre cidadãos norte-americanos e estrangeiros.

O deputado John Boehner, de Ohio, o recém-eleito líder da maioria na Câmara, mal tinha acabado de receber os parabéns pelo novo cargo quando foi até à Casa Branca para questionar o plano de Bush para a criação de uma comissão de estudos dos direitos sociais. A posição contestatória de Boehner foi um fato marcante. A própria idéia da comissão já significava para o presidente um retrocesso em relação ao seu fracassado plano do Social Security, defendido por ele no ano passado.

Mas esses foram golpes suaves comparados à grande onda de repúdio por parte de parlamentares do seu partido, enfrentada por Bush na semana passada, no que se refere à planejada direção das operações de portos norte-americanos por uma companhia dos Emirados Árabes Unidos.

Frist, o presidente da Câmara, Dennis Hastert, e o ex-líder da maioria na casa, Tom DeLay, levantaram dúvidas quanto ao acordo, que, caso assinado, fará com que seis portos norte-americanos sejam operados pela companhia do Oriente Médio DP World.

A freqüência com que aliados deixam as fileiras do presidente faz com que surjam dúvidas quanto às metas legislativas de Bush para este ano, que incluem questões polêmicas, como imigração e redução de impostos, que com certeza serão um teste da lealdade ao presidente em um ano eleitoral.

Reconhecendo que Bush viu muito dos seus planos serem frustrados quanto a essas questões, McCann disse ser possível enxergar muita coisa na forma como os republicanos abandonam o presidente.

"Os democratas querem nacionalizar a eleição de 2006, transformando-a em um referendo sobre Bush", afirma ele. "Esta é uma forma de os republicanos dizerem que a questão, no fundo, não diz respeito ao presidente".

Assessores da Casa Branca argumentam que os desentendimentos intrapartidários não refletem uma fissura séria no Partido Republicano, e sugerem que a demanda forte e persistente dos republicanos no sentido de que o presidente compareça a eventos para arrecadação de verbas é um melhor indicador político.

A porta-voz Dana Perino disse que o presidente tem uma pilha de convites de republicanos que querem o seu auxílio no circuito de arrecadação de verbas de campanha.

"Recebemos solicitações diárias para que o presidente participe em eventos de campanha", diz ela.

Busch, o professor da Faculdade Claremon McKenna, diz que é cedo demais para afirmar que o segundo mandato está arruinado a partir das presentes dificuldades enfrentadas por Bush.

"Ele é um cara duro, e os presidentes que têm tal característica geralmente encontram uma forma de contornar as adversidades", disse ele. "Basta olhar para Clinton. Ou para Reagan. Ambos contornaram graves problemas de segundo mandato. Quase todo presidente em segundo mandato enfrenta problemas".

Busch afirma que o ponto fundamental para o destino do presidente continua sendo o Iraque. "É evidente que ele investiu grande parte do seu futuro político no Iraque", afirma Busch. "E, neste momento, ele enfrenta um grande problema de credibilidade quanto àquela guerra".

No final do ano passado, um dos mais leais aliados do presidente, o reformista fiscal Grover Norquist, previu que 2006 seria um ano bom para Bush. Mas ele admitiu que isso dependeria da situação do Iraque.

"Costumo dizer que se o Iraque estiver no espelho retrovisor em novembro de 2006, a situação dos republicanos será boa", explica Norquist. "Mas se o problema estiver ainda grudado no pára-brisa, então eles terão problemas". Problemas infindáveis no Iraque, aumento de gastos do governo, reformas na assistência social e, por último, a cessão de portos a empresa árabe contrariam integrantes do partido do presidente Danilo Fonseca

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