No Oscar, 'Brokeback Mountain' e 'Capote' dão visibilidade popular aos temas gays

Bob Strauss
Los Angeles Daily News

Desde o início da temporada de premiações cinematográficas, há quase três meses, o faroeste gay "O Segredo de Brokeback Mountain" tem sido o principal candidato ao Oscar de melhor filme. A interpretação de Philip Seymour Hoffman do escritor efeminado na cinebiografia "Capote" tem sido a favorita para o prêmio de melhor ator. E, se há alguém capaz de derrotar Reese Witherspoon no prêmio de melhor atriz, é Felicity Huffman, que interpreta um transexual que está prestes a ser operado para se transformar em mulher em "Transamerica".

Divulgação 
Philip Seymour Hoffman interpreta Truman Capote; clique na imagem para ver mais fotos e tudo sobre o filme
Tudo isto tem levado tanto defensores dos direitos gays quanto críticos culturais conservadores a declarar a 78ª premiação anual do Oscar como a mais gay de todas.

E eles estão certos.

Mas será que a ascensão de filmes e papéis gays na maior cerimônia pública do establishment de Hollywood indica que -após levar décadas para reconhecer que afro-americanos, judeus e outras minorias eram dignas de um tratamento honesto nas telas quanto qualquer outro grupo de pessoas- a indústria cinematográfica popular está pronta para dar o mesmo respeito aos gays?

"Estamos desfrutando de uma visibilidade que nunca tivemos antes", disse Damon Romine, diretor de mídia e entretenimento da Aliança de Gays & Lésbicas Contra Difamação (Glaad). "O sucesso de 'O Segredo de Brokeback Mountain' -tanto de crítica quanto de público- cria um clima de aceitação para filmes contendo personagens gays, lésbicas, bissexuais e transexuais."

"Em essência, todos estes são filmes de baixo orçamento, produzidos independentemente", continua Romine, que acrescenta que outros filmes indicados ao Oscar, como "Sra. Henderson Apresenta" e "O Jardineiro Fiel" incluem representações positivas de personagens homossexuais. "E acho que estes filmes em particular mostraram ao establishment de Hollywood que filmes que são inclusivos são comercialmente viáveis."

É verdade, mas quão viáveis? Com mais de US$ 75 milhões (R$ 158,4 milhões) de bilheteria na América do Norte até agora, "Brokeback" é de longe o mais rentável dos indicados gays ao Oscar deste ano. Parte disto foi conseguido, segundo os observadores, pela produção e comercialização do filme para o público heterossexual.

"Não é que tenha sido escrito por alguém com algum senso do que ocorre na vida gay, seja ela rural ou urbana", disse David Ehrenstein, autor do livro "Open Secret: Gay Hollywood, 1928-2000", sobre o conto escrito por E. Annie Proulx que serviu como base para "Brokeback". "Eu não acredito nele. Mas o que surpreende algumas pessoas é a idéia de este ser um relacionamento sério e que é levado a sério no filme."

Ehrenstein considerou filmes como "Mysterious Skin - Mistérios da Carne" e "The Dying Gaul" mais autênticos no passado, mas reconheceu que seu conteúdo homossexual mais forte limitou seu público -e seu apelo junto aos eleitores do Oscar.

Por outro lado, o que há de errado em uma história de amor gay voltada para atrair espectadores heterossexuais nervosos, como "O Segredo de Brokeback Mountain"?

"Para um público heterossexual que provavelmente nunca ou raramente pensou sobre o que significa ser gay em uma sociedade heterossexual, o filme descreve isto muito bem", diz Harry Benshoff, um professor de mídia da Universidade do Norte do Texas e editor e escritor de vários livros de estudos sobre filmes gays. "Mas o principal motivo para receber tamanha aclamação é o fato de ser realmente um grande filme. Há certamente outros filmes gays que podem não ter astros tão grandes ou terem sido dirigidos e escritos tão bem quanto este, mas isto é em parte o que o está promovendo."

Antigos vencedores

Apesar de nos últimos 20 anos a idéia de homossexualidade ter se tornado mais aceitável para os membros da Academia, nenhum grande vencedor ou indicado ao Oscar durante o período de fato retratou homens gays fazendo sexo, como é o caso de "Brokeback". Isso está implícito em "O Beijo da Mulher-Aranha", do diretor brasileiro Hector Babenco, um filme de 1985 pelo qual William Hurt conquistou o primeiro Oscar de melhor ator por um papel gay. Quando Tom Hanks venceu por interpretar uma vítima de Aids em "Filadélfia", oito anos depois, o companheiro de longa data do personagem, interpretado por Antonio Banderas, não teve nem permissão para beijá-lo.

Dando uma espécie de prova de que quanto mais as coisas mudam, mais Hollywood continua um baluarte dos dois pesos e duas medidas, cenas de sexo homossexual não impediram que atrizes como Charlize Theron, em "Monster - Desejo Assassino", e Hilary Swank, em "Meninos Não Choram", fossem para casa com o pequeno homem pelado dourado segurando uma espada.

Tal descrição do Oscar, a propósito, foi cunhada por Dustin Hoffman, que aparece no único filme vencedor do Oscar de melhor filme a descrever sexo gay masculino até agora, o proibido para menores de 18 anos "Perdidos Na Noite", de 1969, apesar do relacionamento central do filme, entre Ratso Rizzo (interpretado por Hoffman) e Joe Buck (de Jon Voight) ser platônico. Dois anos depois, o diretor gay de "Perdidos", John Schlesinger, fez "Domingo Maldito", que lhe valeu outra indicação de direção e uma para seu ator principal, Peter Finch, pela interpretação de um personagem abertamente bissexual.

"Você realmente não é desafiado até 'Domingo Maldito', que ainda está à frente de seu tempo", notou Ehrenstein. "Você não vê filmes sérios sobre adultos maduros como este, que amaram e perderam e amarão e perderão de novo. Ele vai a lugares aos quais nenhum outro vai."

Desde o início dos anos 70, filmes com elementos gays como "Cabaret", "A Cor Púrpura", "Silkwood -O Retrato de uma Coragem", "O Fiel Camareiro", "Meu Querido Companheiro", "Traídos pelo Desejo" e "Cidade dos Sonhos" figuraram em importantes disputas pelo Oscar.

Mas, antes disto - e exceto pelo setor dos filmes independentes - os gays eram retratados em filmes como alívio cômico ou psicopatas. O ator Franklin Pangborn fez carreira ao usar maneiros efeminados durante a era de ouro dos estúdios, e Mel Brooks ainda obtinha risadas fáceis com o estereótipo no original "Primavera para Hitler", de 1968. Quanto aos doentes, Alfred Hitchcock fez "Psicose" e "Festim Diabólico", este com um elenco predominantemente gay em um filme baseado nos assassinos gays reais Leopold e Loeb. E também há as várias peças de Lillian Hellman e Tennessee Williams que foram adaptadas para o cinema.

Até hoje, Gore Vidal, que foi forçado a extrair as referências gays explícitas de seu roteiro para "De Repente, No Último Verão", de Williams, insiste que inseriu referências românticas ao relacionamento de Judah-Messala no grande campeão do Oscar de todos os tempos, "Ben-Hur", de 1959.

Por sua vez, Charlton Heston argumentou enquanto pôde que, não, ele definitivamente não foi o primeiro ator a conquistar o Oscar pela interpretação de um homossexual.

Durante este período, é claro, vários atores que rumores nos círculos de Hollywood diziam ser gays ou bissexuais foram indicados por interpretarem papéis heterossexuais. Alguns, como Charles Laughton e Laurence Olivier, até mesmo venceram. Ainda assim, a maioria dos filmes da época deles negava a própria existência da homossexualidade (o olhar de Olivier para Tony Curtis em "Spartacus", de 1960, só foi visto no relançamento do filme, em 1991) e gerações de atores gays, de status e talento variado, de Montgomery Clift e Rock Hudson a Troy Donahue, não mediam esforços para esconder sua orientação sexual do público.

Para os atores, ao menos, "O Segredo de Brokeback Mountain" provavelmente não vai mudar isto.

Hollywood gay

"É muito, muito difícil para um ator americano que deseja uma carreira cinematográfica ser sincero sobre sua sexualidade", disse Ian McKellen, um dos poucos gays que foram indicados por interpretar um personagem gay (o diretor de "Frankenstein", James Whale, em "Deuses e Monstros", de 1999), recentemente no Festival de Cinema de Berlim. Apesar das franquias "X-Men" e "O Senhor dos Anéis" terem tornado McKellen um astro mais famoso do que antes de ter reconhecido publicamente sua sexualidade em 1988, ele reconhece que sua idade, 66 anos, torna isto menos relevante.

"Minha própria carreira em filmes populares só decolou depois que assumi que era gay", notou McKellen. "E é assim que deve ser, porque Heath Ledger não é gay e eu não sou heterossexual, mas posso interpretar papéis heterossexuais e ele pode interpretar com sucesso homens gays. Isto desaparecerá com o tempo."

Isto certamente aconteceu atrás das câmeras, onde vários diretores gays como Whale (e seu contemporâneo vencedor do Oscar de direção, George Cukor) prosperaram apesar de levarem estilos de vida relativamente abertos. Nos últimos tempos, nós temos visto cineastas gays como Todd Haynes ("Longe do Paraíso") e Gus Van Sant ("Gênio Indomável") progrediram com sucesso das fileiras independentes para a proeminência do Oscar, e o diretor de teatro gay Rob Marshall conquistou o Oscar de melhor filme por "Chicago".

Mesmo se "O Segredo de Brokeback Mountain" de alguma forma fracassar em conquistar o grande prêmio deste ano, espere um avanço da aceitação e inclusão em Hollywood -mesmo que não no ritmo tão rápido que alguns gostariam e outros temeriam- como as indicações deste ano podem indicar.

"Nós não chegamos ao ponto -eu não acho que isto acontecerá em nosso tempo de vida- dos filmes de Hollywood apresentarem histórias de amor gay de forma rotineira", disse Benshoff, o acadêmico. "Ainda há dificuldade com relacionamentos inter-raciais. 'Brokeback' é um passo na direção certa. Mas nenhum filme promoverá a igualdade de forma instantânea."

"Todo nosso progresso é incremental", concluiu Romine da Glaad. "A visibilidade que estamos experimentando agora com estes filmes ajudará de forma geral, seja ajudando atores a se sentirem à vontade para assumir (sua sexualidade) ou ajudando o americano médio no trabalho a assumir."

"Há uma crescente aceitação que está espelhada na receptividade a estes filmes. A sensação é de que está melhorando, mas eu sei que ainda há um longo caminho pela frente."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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