Programa para transformar plutônio de bombas em combustível enfrenta problemas

Lisa Zagaroli, em Washington
McClatchy News Service/The New York Times News Service

Enquanto o presidente dos EUA, George W. Bush, procura garantir que outros países que desejam utilizar a energia nuclear o façam sem criarem material radioativo com um grau de pureza que possibilite a fabricação de bombas, o plano norte-americano para reduzir seu próprio estoque de plutônio que pode ser usado para fazer armamentos atômicos estourou os prazos previstos e está custando o triplo do que se pensava.

O programa, conhecido como MOX (sigla de "mixed oxide blend", ou mistura de óxidos mistos que seria convertida em energia), está sendo protelado por uma série de razões, incluindo a falta de disposição da Rússia, parceira no projeto, em assumir os termos de responsabilidade norte-americanos, assim como atrasos e estouros de orçamento na fase de projeto de uma usina em Savannah River, no condado de Aiken, na Carolina do Sul.

É provável que haja uma lacuna de vários anos entre o final do primeiro teste já feito com o MOX, na usina nuclear Duke Energy Catawba, em Lake Wylie, Carolina do Sul, e a ocasião na qual a instalação terá condições de utilizar a mistura para a produção de 40% da eletricidade gerada, já que os Estados Unidos não estarão produzindo MOX por quase uma década.

"O meu otimismo está em um estado de declínio constante", desabafou William Hoehn, diretor do escritório em Washington da Ransac, uma organização independente que promove uma agenda para a redução de riscos entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética.

Os Estados Unidos e a Rússia estabeleceram o programa de não proliferação em 2000, concordando em reduzir, cada um, simultaneamente, a quantidade de plutônio que foi retirado de bombas desativadas em 34 toneladas.

Eles fariam isso por meio da mistura de plutônio com urânio usado pelos reatores nucleares comerciais para a geração de eletricidade. As misturas MOX vêm sendo usadas por décadas em países como a França, mas nunca antes foram feitas com plutônio dotado do grau de pureza adequado a bombas nucleares.

A fim de assegurarem que a mistura funcionaria de forma segura e efetiva, os Estados Unidos solicitaram a uma companhia da França que criasse uma mistura com plutônio extraído de bombas norte-americanas. A usina nuclear Catawba deu início aos testes em junho do ano passado, e o material está funcionando conforme o previsto, afirmou Rita Sipe, porta-voz da Duke Energy, em Charlotte, Carolina do Norte.

Dos 193 "dispositivos de chumbo" do reator de Catawba, somente quatro estão usando a MOX. O teste está programado para efetuar um ciclo normal de combustível de três a quatro anos. Depois disso, a Duke espera acrescentar gradualmente mais MOX até que cerca de 40% das suas instalações contenham a mistura de urânio e plutônio que deverá ser fabricada em Savannah River.

Mas o secretário de Energia, Samuel Bodman, disse aos legisladores no mês passado que é improvável que a planejada instalação para fabricação de combustível nuclear no condado de Aiken, uma área de cerca de 800 quilômetros quadrados, próxima à divisa com a Geórgia, comece a produzir MOX antes de 2015.

Em uma correspondência enviada ao senador John Warner, republicano pela Virgínia, e presidente do Comitê do Senado para as Forças Armadas, Bodman afirmou: "A minha secretaria continuará pesquisando maneiras de acelerar o seu cronograma para esta missão importante".

A construção na usina de Savannah deveria começar em maio próximo, mas a Administração Nacional de Segurança Nuclear não confirmou esta data na semana passada, tendo dito apenas que os trabalhos começariam "em 2006".

As autoridades norte-americanas atribuem o atraso principalmente à relutância dos russos em assumir qualquer responsabilidade associada à sua usina de MOX, que os norte-americanos planejam ajudá-los a construir e a financiar.

"Tivemos um atraso de dois anos nesta área, enquanto discutíamos os termos de responsabilidade, e finalmente resolvemos esta questão no verão passado", disse Bodman a um comitê senatorial em fevereiro. "Não conto com nenhum documento assinado que garanta que os russos aprovaram a proposta, mas estou esperançoso."

"Até que contemos com tal assinatura, tenho um pouco de dúvida quanto a isso", acrescentou Bodman. "Neste ínterim, nós continuaremos a trabalhar em conjunto com eles."

O ex-secretário de Energia, Spencer Abraham, disse acreditar que o programa MOX continuará progredindo por meio da "diplomacia" com os russos.

"É sem dúvida uma prioridade muito importante para os objetivos de não proliferação tanto dos Estados Unidos quanto da república russa", disse Abraham em uma entrevista por telefone. "A idéia de acumular grandes quantidades de plutônio com nível de pureza adequado à fabricação de armas atômicos não é, obviamente, desejável para nenhuma das partes", opinou Abraham, que na semana passada assumiu a direção da Areva Incorporation, que fabricou na França a MOX que está sendo usada em Catawba.

O atraso russo é apenas uma parte do problema com o programa MOX, segundo uma auditoria de natureza bastante crítica feito pela inspetoria geral do Departamento de Energia, e divulgada em dezembro passado. O relatório indica que o programa MOX tem padecido de grandes estouros de orçamento, má administração e falta de previsão.

O orçamento original estimado em 2002 era de US$ 1 bilhão (R$ 2,11 bilhões). Menos de quatro anos depois, este custo aumentou para US$ 3,5 bilhões (R$ 7,39 bilhões), e a usina não estará produzindo MOX até 2015, seis anos após a data inicialmente prevista.

"Até julho de 2005, a Administração Nacional de Segurança Nuclear havia gastado US$ 453 milhões (R$ 956,74 milhões) - quase a metade do orçamento de US$ 1 bilhão para projetos e construção, aplicada apenas em atividades de design, tendo completado somente 70% dessas atividades", acusou a auditoria. "Descobrimos que deficiências na gerência do projeto e uma administração limitada do contrato contribuíram para o aumento dos custos."

Bodman disse aos parlamentares que o aumento dos custos se deveu em parte a "uma grande elevação dos preços do aço e do concreto".

"Isso não corresponde à totalidade do projeto, mas contribuiu significativamente para o aumento dos gastos. Cada vez que adiamos um desses grandes projetos, tal decisão custa um bilhão de dólares", explicou Bodman.

Bodman informou que, até o final do ano, apresentará ao Congresso uma revisão da previsão dos custos e do cronograma.

Enquanto isso, a instalação de Savannah River, que já é um dos maiores depósitos de resíduos nucleares do país, vem coletando mais reservas de plutônio dos Estados Unidos.

Uma das maiores preocupações da comunidade é com a possibilidade de que o plutônio seja remetido à Carolina do Sul, mas que jamais seja estocado conforme o critério planejado.

O condado de Aiken entrou com um processo na Justiça a fim de impedir que o Departamento de Energia envie mais plutônio para o depósito, que foi construído na década de 1950 para criar materiais necessários à fabricação de bombas nucleares.

Como membro do Congresso, o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, foi co-autor de uma medida que obrigaria o governo federal a pagar multas ao Estado por ter estocado plutônio na região por um período mais longo do que o esperado. Mas quando o atraso dos russos em assinar os termos de responsabilidade foi divulgado, ele concordou em conceder ao departamento três anos adicionais para processar o combustível antes que a instituição passasse a ser obrigada a pagar US$ 1 milhão por dia ao Estado até a remoção do plutônio transferido para Savannah.

O novo prazo estabelecido para o início da aplicação de multa é 1º de janeiro de 2014, pelo menos um ano antes da data a partir da qual, segundo Bodman, a usina planejada produzirá combustível.

Hoehn, da Ransac, disse ter ficado surpreso com o fato de o prazo ter sido alterado, porque esta era o trunfo que o Estado possuía para enfrentar o governo federal.

"É importante que se conte com o mecanismo de responsabilidades", disse Hoehn.

O atraso também significará um início vagaroso do uso de combustível MOX em Catawba, que precisará retornar à utilização de 100% de urânio após a finalização do teste, enquanto aguardar a produção de MOX de Savannah, informou Juliane Smith, porta-voz da administração de segurança nuclear.

Esses acontecimentos surgem no momento em que a energia nuclear começa a emergir com uma opção energética mais viável, tanto em Washington quanto no exterior, devido ao temor de que o mundo esteja excessivamente dependente do petróleo de nações instáveis, e também por causa da crescente preocupação com os efeitos ambientais nefastos das emissões da queima de carvão e derivados do petróleo.

Na semana passada o presidente Bush esteve na Índia firmando um acordo que permitirá que aquele país, que conta com tecnologia para a produção de armas nucleares, adquira combustível e tecnologia comercial nuclear em troca de inspeções dos seus reatores de uso civil.

Bush também anunciou recentemente a Parceria Global de Energia Nuclear, que ele vê como um plano dos Estados Unidos para, basicamente, alugar energia nuclear aos países que dela necessitem para geração de energia elétrica. O material nuclear usado nos reatores desses países seria, a seguir, coletado, de forma que haveria um risco menor de que fosse utilizado para a fabricação de armamentos.

Embora o combustível nuclear não emita poluentes, existem sérias dúvidas quanto ao seu armazenamento em longo prazo nas Montanha Yucca, em Nevada, ou em qualquer depósito de resíduos nucleares.

Tradução: Danilo Fonseca

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