Atingindo as notas altas: a volta de "Os Sopranos"

Mark McGuire

"Os Sopranos" voltou. Já era hora.

Não, não, não estou reclamando da longa interrupção; isso já faz tempo.

O tempo no sentido do relógio se aproximando de meia noite envolve a série "Os Sopranos", da HBO, que inicia sua sexta e última temporada às 21h do domingo. Os minutos estão acabando para Tony Soprano (James Gandolfini), sua equipe, HBO e o público. A mortalidade permeia os primeiros quatro episódios desta temporada, que é radicalmente diferente: seu mundo vibrante e violento está acabando -para eles e para nós.

Mas enquanto um mundo termina, outra família única da televisão inicia sua peregrinação. "Big Love" (22h no domingo) vem na programação logo após o drama da máfia e assim garante um grande público da televisão a cabo. E os telespectadores voltarão.

"Big Love" é um drama complexo, centrado em Bill Henrickson (Bill Paxton, "Twister"), um empresário trabalhador de Utah, pai dedicado de sete filhos, marido de três mulheres.

Bill é poligâmico (sim, esta é a série que gerou todas aquelas histórias de poligamia nos jornais) e tem que administrar as necessidades de três casas interligadas, sua empresa de reformas e a grande e problemática família.

"Algumas vezes acordo às 4h, pensando em todas as responsabilidades", conta Henrickson a seu melhor amigo, que também é polígamo. "Não é fácil cuidar de tudo, antecipar as necessidades..."

A HBO criou uma classe de dramas sinistros, com redes unidas que brigam entre si e com o mundo -pense em "Os Sopranos", em "Six Feet Under", nos policiais de "The Wire" ou na comunidade unida de "Deadwood". A rede espera que "Big Love" continue a tradição quando "Os Sopranos" saírem com os pés pela frente.

"Os Sopranos" vão ao ar por 12 episódios nesta primavera e depois concluirão com oito episódios bônus no início de 2007. É uma fórmula similar à utilizada na última temporada para "Sex and the City".

Dá para sentir o final chegando, mesmo sem saber como será. O criador David Chase e sua equipe brilhante de autores e diretores encheram "Os Sopranos" com ricas metáforas e deram atenção especial aos detalhes. Ouça cuidadosamente esta temporada: mesmo algo inócuo como a música de fundo no consultório do oculista pode ser "Time Passages", de Al Stewart.

Sua letra nos lembra que "As coisas das quais você depende não duram", como o conselho de Tony ao filho A. J. (Robert Iler), que agora tem cabelo comprido e pouca chance de terminar a faculdade.

"Não ligo se vocês são próximos", diz Tony a ele no café da manhã, "no final, seus amigos o deixarão. Da família sim você pode depender."

O segundo episódio apresenta um empresário chamado Kevin Finnerty. Você não precisa repetir muitas vezes para ouvir "infinity" (infinidade). O tempo acabou novamente.

Desde que visitamos os "Sopranos" pela última vez, a irmã frágil de Tony, Janice (Ainda Turturro) teve um filho com Bobby (Steven R. Schirripa). O chefe de Nova York Johnny Sack (Vincent Curatola) está na prisão, esperando julgamento. O tio Junior (Dominic Chianese) continua entrando na demência. "Ele é Knucklehead Smith", diz Tony.

Tony e Carmela (Edie Falco) estão vivendo uma espécie de reconciliação. "Você é um bom pai, você se preocupa com seus amigos... acho que tivemos uma fase difícil", diz Carmela. "Nossos corações ficaram tão endurecidos, não sei por quê. Mas você não vai para o inferno."

Veremos.

Como os Sopranos, Bill Henrickson e sua família operam fora da lei e, como deixa claro a HBO na abertura, fora da doutrina da Igreja Mórmon.

Barb (Jeanne Tripplehorn, de "A firma") é a primeira mulher e matriarca do clã. Nicki (Chloe Sevigny, "Boys Don't Cry"), esposa número 2, é filha de Roman (Harry Dean Stanton), difícil e viciada em compras. O pai é um "profeta" carismático mas letal, que governa o núcleo poligâmico do deserto onde Bill cresceu.

A esposa número 3, Margene (Ginnifer Goodwin, que fez o papel da primeira mulher de Johnny Cash em "Walk the Line") é jovem, insegura e está longe de ter a sabedoria necessária para lidar com as outras esposas.

Bill muda de casa a cada noite. "Algumas vezes, três dias parecem uma eternidade", lamenta Margene. (Uma pergunta: você preferiria ter três esposas, ou ser uma das três esposas casadas com a mesma pessoa? Discutam entre vocês.)

A empresa de reformas de Henrickson foi inicialmente patrocinada por Roman; não fica claro se o casamento com a mimada reclamona Nicki fazia parte do acordo. Na medida em que os negócios se ampliam, o profeta -que tem muitas conexões e armas- existe sua parte de volta ou...

Parece familiar? A última temporada de "Os Sopranos" e a primeira de "Big Love" lançam a mesma pergunta: será que a vida que essas pessoas escolheram vale seu preço?

Valeu a pena para a família de Tony e sua outra família? Seria essa vida -e todas as mortes- melhor do que um emprego normal de 9h às 17h? É um refrão que se houve todo o tempo nos funerais que pontuam a série: "O que se pode fazer?"

Valeu a pena para Henrickson, que tem que manter sua vida familiar em segredo de seus vizinhos suburbanos e seus funcionários? E as esposas, que por extensão têm três cônjuges?

O segundo e o terceiro episódio da nova temporada de "Os Sopranos" apresentam Tony em crise existencial (acredite ou não, esta temporada tem uma forte dose de filosofia oriental). Tony se vê preso no limbo de um hotel, vítima de identidade trocada, ao ponto de se questionar: "Tenho 46 anos, mas quem sou eu? Para onde vou?"

Os personagens pensam muito no passado, mas este não muda. A única estreita esperança é que o futuro traga alguma mudança.

Em outro detalhe interessante desta série, Tony está lendo um livro sobre dinossauros quando cai em uma conversa com um evangélico cristão. O interlocutor argumenta que os dinossauros viveram com o homem até 6.000 anos atrás -segundo o ensinamento fundamentalista. Tony ri: e a evolução?

"Evolução e salvação são mutuamente exclusivas", diz o evangélico para Tony sorrindo.

Se for verdade, não há esperança para Tony e sua turma. E o tempo está acabando para todos nós. Deborah Weinberg

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