Uma viagem relâmpago aos mercados do México

Judy Wiley
Em Morelia, Michoacán, México
do Fort Worth Star-Telegram

Os homens são curvados, sem rosto. Muitas mulheres vestindo "rebozo" se ajoelham em súplica, às vezes diante de um vaso de flores, mas também para o puro espaço branco, seu Deus deixado para a imaginação.

Rubén Morales vende suas obras na Plaza de los Mártires (Praça dos Mártires) há anos. O ardente artista quinquagenário usa óculos presos por um cordão em volta de seu pescoço e caminha rapidamente de uma pintura a outra, tirando mais de uma caixa.

"Alguém que pode pensar está alimentando a si mesmo", diz Morales em espanhol sobre suas figuras contemplativas -em essência, o pensamento alimenta a alma. Após uma longa conversa com ele sobre as dificuldades da arte (ele disse que freqüentemente chega a um ponto na pintura ou desenho em que sabe que não funcionará e não tem escolha a não ser rasgá-los) eu fico embaraçada em perguntar quando custa uma. Parece um insulto a sua dignidade, pedir a Morales que estipule um preço por obras que são de tal forma parte dele que não consegue apontar uma favorita.

Atrás de suas pinturas, no centro da praça, se ergue a enorme Catedral de Morelia de pedra rosada, um local de adoração cuja construção teve início em 1660 e foi concluída 80 anos depois. Dentro, homens com chapéus de palha pendurados nas costas, adolescentes vestindo jeans, senhoras usando "rebozos", ou xales, se ajoelham e rezam por suas almas ou para quaisquer mistérios que vise a oração.

Este é o coração do México.

Eu vim aqui com planos para permanecer em três pequenos hotéis de luxo em três cidades, provar a comida em seus restaurantes finos, sentir o ambiente e voltar para casa para contar a história. Como a viagem seria breve, explorar as cidades era secundário. Os planos foram descartados assim que cheguei.

Eu encontrei na Cidade do México, Pátzcuaro e Morelia um mundo poderoso que entrelaça simplicidade inocente com monumentos elaborados a lutas ancestrais, um local vivo com criatividade que vem da alma, a qual também alimenta.

O coração da Cidade do México

O motorista de táxi dobra uma esquina na Cidade do México, em uma noite de quinta-feira, e de repente a rua está repleta de carros de mariachis. O número deles cresce até que o táxi chega à Praça Garibaldi, onde provavelmente várias centenas deles estão tocando em grupos. É como se tivéssemos chegado a um planeta diferente, onde a principal espécie veste traje de mariachi e carrega violões. O motorista, David, diz que outros músicos com harpas não são mariachis, mas sim "jaraneros" de Veracruz. A música deles é mais doce, mais suave, do que a música áspera, trombeteada dos mariachis.

Tenampa, um bar na praça, é decorado com murais de mariachis famosos e, é claro, uma banda deles está tocando no canto. Duas mulheres discutem na pista de dança e começam a empurrar uma à outra. Um homem passa carregando uma caixa contendo dois cabos com pontas de metal. David explica que o sujeito perambula pelo local há anos e que a caixa gera corrente elétrica. Algumas pessoas acreditam, diz David, que a corrente faz bem ao coração. Um homem na mesa vizinha segura as pontas e fica sinalizando ao dono da caixa para aumentar a corrente, até finalmente não agüentar mais.

Para sua saúde? Talvez. Uma exibição de machismo? Certamente.

O centro da Cidade do México, o Zocalo, não fica longe daqui. A praça e os monumentos no caminho dizem mais que palavras sobre o que é importante na capital mexicana. Diana, a Caçadora, arma seu arco no topo de uma fonte gigante que despeja água ao nível da rua. O Anjo da Independência no Paseo de Reforma é um enorme tributo à guerra da independência da Espanha.

Como é tarde, o Zocalo está quase vazio. Poucas pessoas estão próximas da Catedral Metropolitana -sua construção teve início em 1573 e foram necessários 240 anos para que fosse concluída. Ele se encontro no local onde se situava o principal templo asteca, que foi demolido pelo conquistador Hernán Cortés.

A cerca de 15 minutos de distância, no exclusivo bairro Polanco (pense em uma concessionária da Ferrari), o hotel Habita é totalmente moderno, sua estrutura de vidro e interiores brancos um mundo diferente da Praça Garibaldi e do antigo Zocalo -mas ainda assim parte deles.

No Area, o bar de cobertura ao ar livre no sexto andar, os ricos bebem drinques em sofás brancos em meio a música que varia enormemente de ópera a techno. Um filme passa em silêncio, projetado em uma enorme tela no prédio ao lado, provavelmente com 10 andares de altura e tão larga quanto o próprio prédio.

No meu quarto, eu o vejo novamente: o espaço branco, puro, alimenta a imaginação. Mesmo um casaco jogado descuidadamente na cama se torna parte do design.

Correndo a Pátzcuaro

Ignacio T. Maximo é um terapeuta de massagem/"brujo" impiedoso da La Mansión de los Sueños, em Pátzcuaro. Quando protestei sobre a dor, ele me disse para parar de choramingar e começar a respirar.

Ele tem suas teorias: primeiro, minhas meias são apartadas demais. Ele exibe suas próprias meias brancas, descidas abaixo do tornozelo. Segundo, sutiã apertado causa câncer de mama ao restringir os nódulos linfáticos. Mas a melhor teoria de Ignacio é sobre si mesmo: "As pessoas não me dizem que sou bom, então eu digo a mim mesmo. Isto me deixa feliz".

Após sete horas em um ônibus saído da Cidade do México, na sexta-feira, eu estava certa que ficaria paralisada quando ele terminasse de passar seus dedos em antigas lesões nas costas e no pescoço durante a "massagem" de cortesia no hotel. Eu geralmente não gosto de massagens; não é meu tipo de coisa, de forma que sou cética. E ele se recusava a me liberar até que eu dissesse não estar sentindo mais nenhuma dor, até que finalmente menti a respeito. Eu saí mancando e fui dormir.

Pela manhã, um galo está cantando lá fora. Eu tenho apenas mais seis horas em Pátzcuaro, uma cidade colonial espanhola de cerca de 70 mil habitantes onde a biblioteca pública local é um antigo mosteiro agostiniano, construído por volta de 1576. Eles também fazem aquele que deve ser o melhor sorvete do mundo.

Tanto esta cidade quanto Morelia são tão limpas que me sinto embaraçada a fumar um cigarro nas praças, de forma que guardo as bitucas no bolso em seguida.

As duas praças de Pátzcuaro e um impressionante mercado exigem ser explorados a pé. Geralmente, uma pequena dor nas costas me força a parar e sentar após duas horas de caminhada séria. Hoje, após cinco horas, eu ainda estou cheia de energia e livre da dor.

Obrigada, Ignacio. Você é bom.

Em um local onde as pessoas colocam o coração no que fazem, todo tipo de extremo prospera, como um cabelo vermelho brilhante -a primeira coisa que você nota em Priscilla Madsen, a dona do La Mansión. A estola de mink também é difícil de não notar. Madsen comprou esta hacienda de barro de dois irmãos e uma irmã septuagenários ou octogenários que nasceram lá.

Ela a tornou sua.

Ao mesmo tempo, Madsen cuidou para que as belezas locais de Pátzcuaro fizessem parte de seu estabelecimento de luxo. Os móveis entalhados em madeira, por exemplo, são feitos localmente. Encontrar artesanato local é fácil. Pátzcuaro e Morelia são centrais para várias vilas conhecidas por tipos diferentes de artesãos. Móveis entalhados em madeira em Cuanajo. Trabalhos e utensílios em cobre batido em Santa Clara de Cobre. Violões em Paracho. Outras cidades produzem sandálias, cestas, selas. Elas não são armadilhas para turistas. De fato, ninguém me pediu para comprar nada enquanto estava em Pátzcuaro, exceto um americano amistoso transplantado de Montana, que estava ajudando um jovem músico talentoso do Peru mascateando os CDs da família peruana.

As aldeias foram criadas para salvar as pessoas após a opressão espanhola no século 16. O conquistador Nuño Beltrán de Guzmán era tão cruel para com os índios tarascanos nativos que foi ordenado a voltar à Espanha, e o rei enviou Don Vasco de Quiroga, um bispo, para compensar as atrocidades. A principal praça de Pátzcuaro leva o nome de Quiroga, que ajudou os tarascanos a fundar vilas segundo o artesanato que as pessoas já conheciam, para ajudá-las a ganhar a vida durante a transição para o governo colonial espanhol.

Segundo um antigo código de zoneamento, o esquema de cor dos prédios ao redor dos "zocalos", na maioria destas cidades, é o mesmo: vermelho escuro no fundo, com as placas dos negócios pintadas em paredes em branco puro.

Uma visão de Morelia

Santiago Canchola Ortiz é o gerente de operações da Villa Montana, um hotel no alto da colina em Morelia, mas ele está carregando minha bagagem para cima e para baixo até o Quarto 124, em uma noite de sábado. O carregador está ocupado atendendo outra pessoa, ele explica. Quando pego a gorjeta, ele diz: "É o meu trabalho, não quero gorjeta. Em vez disso, me faça uma pergunta para que eu possa ajudá-la".

Santiago não sabia no que estava se metendo. Nos dois dias seguintes, eu lhe perguntaria: por que há telefones nos banheiros de hotel mexicanos (após ele terminar de rir, Santiago disse que é porque os mexicanos precisam manter contato, de qualquer maneira); como levar para casa uma pintura a óleo maior que minha mala (ele a envolveu em camadas de espuma e plástico, então telefonou para a companhia aérea para se certificar de que poderia embarcar com ela); e como pegar um táxi às 4h30 da manhã (ele reservou um de antemão e o hotel tinha café quente e um pacote de cookies me aguardando quando fiz o checkout àquela hora.)

Villa Montana se espalha por 16 mil metros quadrados nas colinas de Santa Maria. Ela dá vista para a Catedral no centro e para as colinas além.

A tela em branco

Lá embaixo, no meio da tarde, as pessoas se reúnem em uma entrada do outro lado da rua da Catedral. A atração é o sorvete, neste caso o gelato da il Piacere del Gelato, por 16 pesos, ou cerca de US$ 1,60 o cone. Uma das atrações da região é seu excelente sorvete.

Os morelianos também dominaram a arte dos doces. Um imenso mercado no centro conta com mais de 100 barracas de confeitos irreconhecíveis mas deliciosos de um lado dos muitos corredores, souvenires para turistas e sandálias "huarache" do outro. O local está lotado, mas novamente ninguém está importunando os fregueses a comprarem. O preço, não negociável e fixo, é tudo o que todos os vendedores têm a dizer.

Do outro lado da catedral, ruas estreitas de pedra arredondada cruzam amplos bulevares, todos lembrando Paris. Morelia é sofisticada, cosmopolita. Lojas de calçados e butiques de luxo se encontram em uma rua, a outra está cheia de lojas de fábrica.

Aqui, como em grande parte desta região, o estilo -tanto do tipo chique, caro, quanto do tipo real, honesto- é algo natural.

Assim como a afeição. Ao redor do "zocalo", os namorados andam de mãos dadas e amigos se abraçam. Foi o mesmo em Pátzcuaro, onde um grupo de jovens músicos tocavam e cantavam juntos (15 vozes, sete violões) na Praça Don Vasco de Quiroga e então se abraçavam uns aos outros e discutiam passionalmente o que tocariam a seguir.

Dentro da Catedral de Morelia, os devotos expressavam outra forma de amor perante um crucifixo feito de massa de milho pelos antigos tarascanos. Os tarascanos fizeram a cruz de caules de milho cobertos de massa de milho e então o esculpiram. A técnica foi usada porque outras cruzes eram pesadas demais para se carregar nas procissões.

Do lado de fora, Morales está pegando mais pinturas e desenhos para mostrar a um cliente. Suas pinturas de homens, ele concorda, são todas de aspecto triste. Ele não sabe o motivo. Suas mulheres orando, ele disse, são mais abertas mas ainda assim misteriosas de alguma forma. Ele sorri e continua falando sobre sua arte, vestindo -eu percebi apenas quando voltava para casa -uma camisa branca pura, perfeitamente passada.

Uma tela em branco, adequada a um artista -aberta à possibilidade, à imaginação. A região central do México enche o espaço vazio de um novo destino com pinceladas largas, brilhantes, de história, criatividade e, acima de tudo, com coração. George El Khouri Andolfato

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