Três anos após invasão, reconstrução do Iraque não avança

Lisa Zagaroli
Em Washington
do McClatchy News Service

Ao se aproximar o terceiro aniversário da guerra do Iraque, os US$ 21 bilhões que os EUA destinaram à reconstrução do país ainda não ergueram o país destroçado das ruínas. A falta de eletricidade é rotineira; na verdade, existe menos energia disponível do que antes do início da guerra. Um número menor de pessoas tem água potável e sistemas de esgoto. E a produção de combustível também não alcançou os níveis anteriores à guerra.

O lento progresso é, em grande parte, resultado dos constantes ataques à infra-estrutura por rebeldes e da necessidade de desviar dólares da construção para a proteção. Também houve evidências de má administração, fraude e incompetência nos esforços de reconstrução. Os fracassos, bem documentados, levam alguns a questionar qual deve ser a responsabilidade dos EUA no futuro.

"Neste inverno, pela primeira vez, fico desanimado em geral sobre as tendências econômicas do Iraque", disse Michael O'Hanlon, um professor sênior de estudos de política externa no Instituto Brookings, que acompanha o progresso da reconstrução no Iraque.

O'Hanlon disse que os sinais de avanços positivos nos últimos anos -- melhor serviço telefônico e mais carros nas ruas iraquianas, por exemplo -- estagnaram. "Embora haja algumas boas notícias, pela primeira vez as más notícias superam as boas", ele disse.

A visão de dentro do país não é muito melhor. "A maioria da população iraquiana diz que a reconstrução do Iraque ainda não começou", afirma Haitham Hadi, professor de mídia de massa na Universidade de Bagdá e consultor da Câmara de Comércio Iraquiano-Americana que realizou pesquisas de opinião pública.

Quando os EUA invadiram o Iraque, em 20 de março de 2003, atacaram intencionalmente as pontes, os sistemas de telecomunicações e as usinas de energia para imobilizar as forças iraquianas. Em maio, o governo iraquiano havia caído e o presidente Bush declarou o fim das grandes operações de combate. Os EUA prometeram ajudar a reconstruir o Iraque, e o Congresso destinou cerca de US$ 21 bilhões em verbas não-militares para tanto.

Uma das primeiras e mais fortes críticas à guerra, além de que não se encontraram as armas de destruição em massa, foi que os EUA não tinham uma estratégia para a reconstrução. O vice-almirante aposentado David J. Nash disse que pode ter havido um plano para reconstruir o Iraque, mas nesse caso nunca chegou até ele. Pouco após o fim da guerra, Nash chefiou o escritório que gerenciou os contratos de reconstrução para o governo de transição conhecido como Autoridade Provisória da Coalizão. "Começamos basicamente com uma folha de papel em branco", disse Nash.

Quando ele se tornou diretor do Projeto e Escritório de Contratação do Iraque, em Bagdá, fez uma lista de 5 mil projetos de infra-estrutura que precisavam ser abordados, desde o reaparelhamento de escolas que foram negligenciadas sob o regime de Saddam Hussein à reconstrução de usinas de energia destruídas na guerra. Essa lista foi peneirada para cerca de 3 mil projetos que Nash achava que poderiam ser cobertos pela verbas americanas e as contribuições de outros doadores. Destes, 2.750 foram iniciados e mais de 2 mil concluídos, disse Nash, que hoje preside o grupo de obras do governo em uma grande construtora, a BE&K.

"Esse rumor constante de que nada aconteceu não é verdadeiro", ele disse, indicando a atualização semanal da reconstrução, que mostra a conclusão de 825 escolas, 302 instalações policiais e 13 hospitais, entre outros êxitos. Mas reconhece: "Não tenho certeza de quanto foi feito do que havia sido originalmente previsto".

Os fracassos ocorreram em áreas cruciais. Politicamente, apesar de terem realizado eleições democráticas, os iraquianos ainda não estão se autogovernando. Os insucessos em infra-estrutura foram detalhados em um recente relatório de Stuart Bowen Jr., o inspetor-geral especial para a reconstrução do Iraque.

Dos 136 projetos no setor de água, somente 49 serão terminados e a maioria dos que envolvem esgotos, irrigação, drenagem e barragens foram cancelados. De 425 projetos de eletricidade, somente 300 serão concluídos e apenas 2.200 megawatts de energia adicional serão fornecidos, em vez dos 3.400 MW planejados, Bowen disse a senadores americanos no mês passado.

Os dólares para a construção tiveram de ser desviados para proteger as pessoas que tentavam trabalhar e garantir a segurança da infra-estrutura existente. "Foi enorme o impacto da violência sobre o programa de reconstrução", disse Bowen.

A capacidade elétrica superou os níveis anteriores à guerra em meados de 2004 e atingiu um pico em julho de 2005, mas os rebeldes sabotaram as linhas de alta tensão que levam energia das estações geradoras a Bagdá, ele disse. "A crescente demanda de eletricidade, fornecida gratuitamente aos consumidores, o influxo de novos aparelhos elétricos e novos clientes e a criação de novas indústrias, empresas, fábricas e empregos também contribuem para a insuficiência em todo o país", ele disse.

"O ambiente letal no Iraque continua apresentando desafios extraordinários para as empresas contratadas para a reconstrução", acrescentou Bowen. Segundo estatísticas do Departamento do Trabalho dos EUA, 467 funcionários de empreiteiras de vários países foram declarados mortos no Iraque. "É mais fácil construir quando você não precisa se preocupar com sua vida", disse Nash. "Ou quando você não tem tantas dificuldades para se locomover. Acho que os atrasos se devem a isso e a problemas básicos de construção, como falta de materiais."

Talvez o maior empecilho para colocar o Iraque novamente no rumo da independência econômica tenha sido o fracasso em aumentar sua produção de petróleo. "Haviam dito: 'Não se preocupem com a reconstrução; eles têm muito petróleo, vão vender petróleo e pagar por ela'", disse o senador republicano George Voinovich, de Ohio, para autoridades encarregadas da reconstrução. Em vez disso, ele indicou, o Iraque teve de importar US$ 5 bilhões em petróleo.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, atribuiu parte do problema aos baixos investimentos feitos por Saddam em "uma infra-estrutura muito deficiente". "Eles estão produzindo atualmente abaixo do nível anterior à guerra, de 2 a 2,5 [milhões de barris] por dia, principalmente por causa da ineficiência administrativa na indústria do petróleo, e trabalhamos muito com os iraquianos nesse sentido, mas também da interrupção pelos rebeldes do oleoduto no norte, que são 400 mil barris por dia que foram praticamente eliminados", disse Rice.

A situação do petróleo é um desastre porque impede o progresso em outras áreas, disse John Pike, diretor da Globalsecurity.org, organização sem fins lucrativos de especialistas em questões de defesa. "Como é possível que todos os outros membros da Opep estejam enriquecendo rapidamente com os atuais preços do petróleo, e o Iraque não esteja em condições de lucrar?", disse Pike. "Isso vai além da compreensão. Simplesmente não faz o menor sentido."

Enquanto as baixas condições de segurança prejudicaram o ritmo da reconstrução e aumentaram os custos, "diversos desafios administrativos" também impediram o avanço, segundo um recente relatório do Gabinete de Prestação de Contas do Governo (GAO na sigla em inglês), o ramo investigativo do Congresso.

"As dificuldades incluem o desentendimento entre as agências e empreiteiras americanas e as autoridades iraquianas, a alta rotatividade dos funcionários e um ambiente inflacionário que torna difícil apresentar preços exatos", disse o GAO.

Embora a corrupção não seja generalizada, disse Bowen, houve alguns casos de fraudes em contratos, especialmente no início da guerra. Na quinta-feira, um júri considerou uma empresa de defesa responsável por cobranças fraudulentas ao governo, no primeiro caso de contratação do Iraque julgado sob o Ato de Falsas Alegações. O inspetor-geral também concluiu que práticas de contratação indiscriminadas e a falta de trabalhadores capacitados contribuíram para o atraso.

Até as medições para se avaliar o progresso parecem inconfiáveis ou não contam a história toda, dizem alguns críticos. "A água é constantemente registrada como quantas casas podemos servir com a capacidade adicional que geramos na usina de tratamento", disse Joseph A. Christoff, diretor de assuntos internacionais e comércio na GAO, aos congressistas. "O problema no Iraque é que 65% da água vazam ao longo do sistema de distribuição. E os canos de água ficam ao lado de canos de esgoto, por isso ela acaba contaminada. Assim, realmente não sabemos quantas casas recebem água potável. Sabemos quanto água geramos, mas em conseqüência do vazamento e da contaminação não sabemos quantas pessoas estão bebendo água limpa."

Esses problemas levaram algumas pessoas a indagar qual deve ser o envolvimento dos EUA em longo prazo. "Você precisa se perguntar, com o tempo, qual será o apetite do Congresso para cada item", disse Pike.

Três anos depois, ainda não há um plano estratégico eficaz, ele disse. "Para conquistar os corações e as mentes da população iraquiana, é preciso haver uma melhora tangível em sua qualidade de vida", disse Pike. "Uma maneira essencial de fazer isso é aumentar a produção de petróleo e usar parte desse dinheiro para fornecer eletricidade. Em ambos os casos, eles parecem estar fazendo apenas o suficiente para impedir que as coisas piorem. Não parecem ter um plano para a vitória nessa frente. Parecem ter um plano para o empate."

O'Hanlon disse que os EUA precisam se empenhar mais para reconstruir o Iraque, mas não porque não tenham sido suficientemente generosos. "Não acho que devamos mais alguma coisa à população iraquiana, para ser franco", disse O'Hanlon. "Devemos isso às nossas tropas e aos nossos interesses estratégicos."

O AVANÇO DA RECONSTRUÇÃO

A infra-estrutura do Iraque continua abaixo dos níveis anteriores à guerra com os EUA, iniciada em 20 de março de 2003.

Antes da guerra
31 de dezembro de 2005

4.500 megawatts de eletricidade
3.995 megawatts

2,58 milhões de barris de petróleo/dia
2 milhões de barris/dia

12,9 milhões de iraquianos com água potável
8,25 milhões

6,2 milhões de iraquianos com acesso a esgoto
5 milhões


Fonte: Inspetor-Geral Especial para a Reconstrução do Iraque

(http://www.sigir.mil/reports/pdf/testimony/SIGIR_Testimony_06-001Ta.pdf)

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