'V' de violentamente caótico

Bob Strauss

Muitas pessoas terão problemas com "V de Vingança". O gênio dos quadrinhos que escreveu as histórias glorificadas nas quais se baseiam o filme, Alan Moore, já teve. Ele não quer que seu nome seja associado ao filme, mas Moore reagiu assim a quase todas adaptações de suas obras.

Os fãs de Natalie Portman provavelmente discutirão a consistência de seu sotaque britânico durante os próximos anos (eu achei bastante bom). No entanto, talvez fiquem mais chateados em ver sua deusa delicada de cabelo totalmente raspado -de verdade.

Depois, algumas pessoas simplesmente não vão aceitar um herói terrorista, que deseja tanto a liberação quanto a vingança. Além disso, ele transporta grandes quantidades de explosivos, imagine, pelos túneis do metrô londrino recentemente atingido por explosões suicidas.

Realmente não tenho argumentos. Mas digo que, se essas idéias não fizerem seu sangue ferver, "V" tem muito brilho subversivo.

Não tenho certeza se sua política faria sentido mesmo que fosse divorciada da atual guerra ao terror (as primeiras tiras de Moore e do ilustrador David Lloyd de "V" foram publicadas em 1981). No entanto, sua irada reação contra os que abusam do poder, exploram o medo e disseminam a opressão sob o disfarce de proteção e moralidade é eminentemente adorável. Especialmente para uma pessoa que vê evidências de que um fascismo religioso está se infiltrando em tudo hoje em dia.

Gostaria de poder vibrar por "V de Vingança" com todo o coração.

O caos parece ser a única alternativa à tirania -que, para um filme de história em quadrinho, está bem. Mas a confusão também domina o roteiro no ato final, e isso não é bom.

Complexo e envolvente nos dois primeiros terços, o filme faz o espectador coçar a cabeça muito antes do final.

Dois bons atos em três pelo menos é uma média melhor do que conseguiu a trilogia "Matrix". Larry e Andy Wachowski fizeram os roteiros dos dois e produziram "V", mas deixaram a direção para seu antigo assistente de direção, James McTeigue.

Ele é bom com os atores, com a violência estilizada e a vitalidade visual, mas um pouco desajeitado no ritmo. Quanto a manter a lógica da história, não acho que McTeigue seja o culpado.

Momentos excitantes e idéias radicais abundam, porém. Depois de aparentes ataques biológicos, o chanceler ditatorial Sutler assume o poder. Meio Hitler, meio Pat Robertson, em geral é visto em monitores de vídeo estilo Big Brother (no elenco divertido, ele é interpretado por John Hurt, que foi Winston Smith no último filme "1984"). Sutler basicamente proibiu a arte e o pensamento livre, perseguiu todos os grupos de pessoas que os nazistas em geral não gostam e assumiu o controle da mídia, com a ajuda de muitos sujeitos que provavelmente começaram em programas de rádio.

Mas o povo assustado e oprimido tem um defensor, V (Hugo Weaving), que sai queimando locais históricos, assassinando cúmplices de Sutler e, na vasta caverna subterrânea que ele chama de Shadow Gallery, salvando as melhores coisas da cultura Ocidental. Ah, e como aquele outro esteta/assassino subterrâneo do Fantasma da Ópera, o desfigurado V sempre usa capa e máscara. Ele cobre o rosto totalmente e parece Guy Fawkes, o rebelde católico que tentou dinamitar o Parlamento em 1605.

Apesar de a imprensa dizer que as luzes e os ângulos das câmeras ajudaram muito, para mim pareceu que Weaving (Agente Smith de "Matrix") fez tudo com sua voz e linguagem corporal subliminarmente evocativa. É impressionante como transmite efetivamente o rancor impiedoso de V, sua grande erudição e o jogo mortífero que move sua luta pela justiça. Há também aquele atributo de todo bom Fantasma, a dor do amor não correspondido.

Esse amor é por Evey (Portman), uma funcionária da televisão que está tentando superar um passado marcado pelas maquinações brutais de Sutler. Ela é alternativamente salva, capturada, educada, atormentada, encantada e alarmada por V. Talvez ele não consiga tudo o que quer de Evey, mas poderia torná-la melhor revolucionária que ele conseguirá ser, limitado por seu ódio fatal.

Mas ela não é super, como V. Talvez ele seja mais que isso; alguns dizem que realmente representa o espírito da liberdade ou outras coisas paranormais sem sentido que não ajudam a lógica do roteiro. De qualquer forma, a capacidade de V de executar os planos mais elaborados desabona o inspetor Finch (o maravilhoso Stephen Rea de "Traídos pelo Desejo"), detetive encarregado de prendê-lo. Um homem genuinamente bom, Finch descobre mais coisas ruins sobre as pessoas para quem trabalha do que sobre o fanático que está caçando.

Um jogo mental gigantesco, composto de inúmeros menores, "V de Vingança" é aquele tipo raro de filme de diversão que também faz pensar -como o primeiro "Matrix" e o "Exterminador do Futuro 2"- realmente capaz de fazer você questionar suas noções complacentes de certo e errado, de inimigo e defensor; reflete com tanta sagacidade as preocupações deste momento na história que se torna quase um filme importante. Poderia de fato ter sido, se o público não saísse do filme se perguntando o que foi que acabou de assistir.

Ficha Técnica

Título: "V de Vingança"

Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry.
Diretor: James McTeigue.

Duração: 2h12

Resumo: Um anarquista super-eficiente -ou algo mais- tenta derrubar um governo fascista no Reino Unido em um futuro próximo. Muitas idéias ousadas sucumbem à anarquia da narrativa no terceiro ato, mas ainda assim é um filme de ação e fantasia que estimula a mente. Deborah Weinberg

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