"Tsotsi" retrata a África do Sul pós-apartheid, afligida pela violência

Cary Darling
do Fort Woth Star-Telegram
em Dallas, Texas

Faltam seis dias para o Oscar e Gavin Hood, sentado em sua suíte no Hotel Adolphus, está sentindo a pressão.

O diretor não está preocupado com presentes ou com encontros com George Clooney ou outras celebridades. Ele também não está pensando se seu filme, "Tsotsi", levará o prêmio de Melhor Filme de Língua Estrangeira, o primeiro Oscar para a África do Sul.

Ele está mais preocupado em fazer jus às expectativas colocadas sobre ele pelo público sul-africano e pela indústria de cinema encantada com a trajetória de "Tsotsi" -a história do despertar da consciência de um adolescente favelado de Johanesburgo. O filme tornou-se um favorito mundial, vencendo prêmios em festivais de Edinburgo a Los Angeles.

"Tentamos não exagerar as coisas porque soa indulgente", diz Hood, 42. "Mas o fato é que, como não fazemos muitos filmes, todos os cineastas sul-africanos sofrem uma pressão pouco realista de que seus filmes digam muito, que digam tudo sobre a África do Sul."

"Tsotsi" foi feito com um orçamento relativamente enxuto, de US$ 3 milhões (em torno de R$ 6 milhões). Talvez não seja sobre toda a África do Sul, mas certamente tem ali seu sentido de lugar e propósito. Baseia-se em um romance do autor sul-africano aclamado Athol Fugard e situa-se no entre os barracos tostados pelo sol das favelas de Johanesburgo. Contado quase exclusivamente no dialeto local tsotsitaal, o filme tem um elenco inteiramente local e trilha de "kwaito", uma interpretação distintivamente sul-africana do hip-hop e house americano.

Presley Chweneyagae, em uma interpretação poderosa, faz o personagem principal ("tsotsi" é uma gíria para "brutamonte"), que seqüestra acidentalmente um menor ao assaltar um carro, e o incidente o faz pensar em sua vida. Apesar do filme e o romance usarem a mesma premissa básica, Hood fez grandes alterações, incluindo uma atualização da ambientação original, do final dos anos 50, para os dias de hoje.

"A resposta pronta é que uma ambientação antiga teria custado quatro vezes mais", diz Hood. "Mas, estudando o livro de perto, você se pergunta o que há ali que atrai os leitores? As idéias de redenção, perdão e crescimento pessoal, e de um indivíduo descobrindo quem é, sem o apoio dos pais ou da sociedade."

Para ajudar a descrever a evolução de Tsotsi, Hood acrescentou dois novos personagens: um casal de classe média a quem Tsotsi aterroriza e cujo filho ele rouba. No livro, o bebê é jogado nos braços de Tsoti por uma mulher que ele está seguindo. Hood sentiu que, com o casal, poderia mostrar melhor a transformação de Tsotsi assim como as conseqüências de suas ações. "No romance, Athol consegue entrar na cabeça de Tsotsi e dizer o que está acontecendo. E quando Tsotsi desmorona, vem o auto-conhecimento", explica. "Em um filme, isso é muito difícil, deixá-lo sentado sozinho tendo um momento de clareza de consciência."

Mas as mudanças também dão a "Tsotsi" a força da realidade urbana contemporânea da África do Sul. Apesar de ninguém no filme mencionar especificamente o alto índice de criminalidade, a rápida disseminação da Aids, o vão crescente entre ricos e pobres ou o legado do apartheid, tudo isso tem um peso no filme, mesmo se estiver em apenas uma cena de um campo poeirento de crianças órfãs, sem casa e sem propósito.

"Minha mãe foi seqüestrada duas vezes. Eu fui roubado. Meu ator principal foi assaltado". "É muito difícil não se embrutecer quando se passa por essas coisas. O que você tenta fazer é procurar o bem."

Hood trabalhou nas favelas no início dos anos 90, o que o ajudou em sua pesquisa. Depois de se graduar em direito na África do Sul e estudar roteiro na Ucla, ele conseguiu um emprego criando dramas educacionais para o departamento de saúde da África do Sul -bem quando a crise da Aids estava começando, dizimando famílias e comunidades no país. Entretanto, muitas autoridades, eufóricas com a transição para uma democracia em 1994, não quiseram lidar com isso.

"Não mergulhamos em uma revolução sangrenta; tínhamos líderes extraordinários", lembra-se. "Ninguém queria ouvir as más notícias sobre a Aids."

Em meio às mudanças no país, algumas crianças foram perdidas para o crime. "Estou procurando o bem neste rapaz, Tsotsi. Depois de encontrar tantos desses jovens -e conheci alguns bem embrutecidos- descobri que, no fundo, a necessidade de amor e afeto das pessoas é muito real. Vejo esse rapaz de 18 anos que tem uma máscara de raiva... na maior parte, a imagem de mal é exatamente isso, uma imagem, não a pessoa de verdade."

Hood, que divide seu tempo entre apartamentos em Johanesburgo e Los Angeles, está considerando o que fará agora. "Tsotsi" é seu segundo longa-metragem -o primeiro foi um filme infantil que se passa na África, "In Desert and Wilderness"- mas talvez faça algo distante de sua terra natal. "Meu herói é o diretor Ang Lee", diz ele. "Simplesmente adoro fazer algo em que as idéias são um desafio. Não ligo se for ambientado na Antártica."

"Tsotsi" foi o terceiro filme sul-africano a ser lançado nos EUA no último ano -os outros foram "Yesterday" (nomeado ao Oscar no ano passado) e "Cape of Good Hope". Portanto, Hood sente que faz parte de uma onda. Isso ficou evidente na noite do Oscar quando "Tsotsi" venceu o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Em seu discurso, Hood gritou "Nkosi sikelela iAfrica!" (Deus abençoe a África!)

"O que é animador em cada pequeno sucesso é que estimula mais investimento nas produções locais", explicou o diretor durante sua entrevista no Adolphus. "Todo mundo me pergunta, 'Como você se sente com a nomeação ao Oscar?' Sinto alívio, colega... Precisamos de nossos contadores de histórias e todo filme sul-africano com algum sucesso ajuda... sentirei muito orgulho se 'Tsotsi' fizer parte dessa onda." No filme, forte e premiado com um Oscar, um jovem bruto encontra redenção -como faz, por um momento (ao menos), seu país Deborah Weinberg

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