Uma ameaça crível à segurança nacional?

Susan Aschoff
do St. Petersburg Times
Em Boca Raton, Flórida

Rich Hersh lembra do dia em que descobriu que era uma ameaça à segurança nacional.

Hersh pertence ao Truth Project Inc. (Projeto Verdade), um grupo ativista que visita os colégios do sul da Flórida para pacificamente rebater os argumentos dos recrutadores militares. No ano passado, uma equipe da "NBC News" foi à Flórida e informou o grupo que ele estava na lista do Departamento de Defesa de centenas de indivíduos e grupos que estavam sendo vigiados pelas forças armadas.

A equipe da "NBC" levou algumas páginas que obteve da lista. Ela apontou para uma única entrada:

13/nov/04. Reunião de Planejamento Contra-Recrutamento Militar, Lake Worth. Ameaça crível.

Hersh e seus colegas do Truth Project demoraram para processar o que estavam lendo. 13 de novembro de 2004? Eles se reuniram naquele dia em uma casa quacre para falar sobre a distribuição de panfletos para colegiais. Agora estavam lhes dizendo que estavam sendo espionados pelo governo. E em algum vasto e secreto banco de dados, eles estavam listados como uma ameaça ao seu país.

"Incrível", Hersh lembra de ter dito enquanto o grupo digeria o que estava na página. "Qual é a ameaça?"

Rick Hersh não pensa em si mesmo como um sujeito particularmente ameaçador.

Ele acenou um cartaz Buzine pela Paz em uma esquina de Delray Beach. Ele foi atacado com gás em Miami enquanto servia como monitor de um protesto contra o encontro de comércio. Ele nunca foi preso. Ele recicla suas cascas de legumes em adubo.

Aos 59 anos, ele ainda se parece com o professor de inglês que costumava ser: óculos, barba grisalha, uma casa repleta de estantes de livros. Um escritório lotado está decorado com uma foto emoldurada de Jimmy Buffett e um pôster de Che Guevara.

Ele marchou pelos direitos civis e pelo fim da Guerra do Vietnã quando era estudante, um jovem de 20 e poucos anos imerso em dissonância e literatura renascentista. Uma dissertação de doutorado lhe escapou. Ele pretendia escrever sobre o poeta jesuíta Gerard Manley Hopkins, do século 19.

"I caught this morning morning's minion, kingdom of daylight's dauphin, dapple-dawn-drawn Falcon..."

Hersh ainda ama Hopkins.

"Eu gosto da forma como ele usava as palavras para aumentar o significado, para expandir e expandir", ele diz. "Você não consegue chegar a um ponto onde parece que vai parar."

Enquanto Hersh buscava seu mestrado e doutorado, ele dava aulas de inglês na Universidade da Flórida e na Universidade Atlântica da Flórida. No final ele abandonou a academia e trabalhou por 20 anos na IBM, escrevendo manuais de software para empresas de seguro e fabricantes de filme plástico e papel.

Hersh segura lenços de papel em uma mão e uma caneca de chá na outra, tratando do que restou de uma bronquite. Na caneca está escrito: Deus é bom o tempo todo.

Nesta manhã de fevereiro ele está esperando por um amigo que o levará até o contra-recrutamento no colégio Forest Hill. Ele não pode dirigir e não tem trabalhado desde que foi diagnosticado há quatro anos com neuropatia periférica progressiva, uma desordem dos nervos na qual seus pés, mãos, pernas e braços formigam, gelam, queimam, ficam dormentes e o fazem sentir grande dor. Ele às vezes usa cadeira de rodas.

Ele considera risível seu governo o espionar. Não há nada clandestino nas reuniões do Truth Project na casa quacre.

"Nós convidamos a imprensa para a reunião e ela nem veio", ele diz.

Allan Taylor, o amigo que os levou de carro à escola, está à porta, reclamando do tilintar incessante dos sinos de vento na varanda. Taylor conduz um carrinho de mão com uma engradado plástico cheio de panfletos da sala de estar lotada de Hersh até o carro. Um adesivo em seu Toyota diz Discordar é Patriótico.

"Eu abri mão da privacidade quando pedi seguro médico", disse Taylor, 66 anos.

"O problema atualmente não é privacidade", diz Hersh. "É o sigilo."

A reportagem sobre o Truth Project foi ao ar em 13 de dezembro no "NBC Nightly News". Mais de 1.500 "incidentes suspeitos" por todo o país em um período de 10 meses estavam listados em 400 páginas obtidas pela "NBC". A reunião do Truth Project estava entre os quase de 50 eventos antiguerra ou contra-recrutamento espionados pelas forças armadas americanas, registrada entre uma sobre um protesto em uma estação de processamento militar em Sacramento, Califórnia, e outra manifestação antiguerra em Nova York.

Marie Zwicker, um membro do Truth Project, diz ter ficado "surpresa e não surpresa" com o fato de estar sendo vigiada. Uma quacre e ativista da paz por muitos anos, seu ultraje continua. "Só porque você está exercitando seus direitos constitucionais não significa que deva ser espionada", diz Zwicker.

A comunidade ativista no condado de Palm Beach é pequena. Eles conhecem uns aos outros, diz Hersh. Mas recém-chegados são bem-vindos -eles não interrogariam um estranho em uma reunião para determinar se é amigo ou inimigo. Eles não tem nada a esconder.

"Eu acho que eles nos espionam porque é muito mais fácil do que encontrar um terrorista", diz Hersh.

A revelação sobre a vigilância militar faz parte de uma série de revelações desde 11 de setembro sobre agências do governo espionando americanos em nome da segurança nacional. O governo diz que está aplicando a lição crítica de 11 de setembro: detectar as ameaças antes que os terroristas ataquem.

A lista parcial adquirida pela "NBC News" foi compilada como parte da Talon, ou Notificação de Observação Local e de Ameaça, um programa autorizado em maio de 2003 pelo então vice-secretário de Defesa, Paul Wolfowitz.

Menos de uma semana após a notícia da Talon, o "New York Times" noticiou os grampos sem mandado de telefonemas e e-mails internacionais de americanos pela Agência de Segurança Nacional (NSA). A União das Liberdades Civis Americanas (Aclu) também obteve documentos mostrando que o FBI está monitorando ativistas, incluindo o grupo ambiental Greenpeace e o Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, ou Peta.

A Aclu da Flórida impetrou um pedido baseado na Lei de Liberdade de Informação em nome do Truth Project, seis outras organizações da Flórida e quatro indivíduos. Na esfera federal, a Aclu pediu a liberação de informação sobre a NSA espionando americanos.

Em resposta ao pedido de comentário do "Saint Petersburg Times", o Pentágono enviou uma declaração por e-mail.

"Não há nada mais importante para as forças armadas americanas do que a confiança e boa vontade do povo americano", ele diz. Apesar da Talon visar revelar ameaças ao pessoal e bases militares nos Estados Unidos, "alguns repórteres passaram a ver o sistema como um meio de relatar informação sobre as manifestações".

Em uma carta de 8 de março ao senador democrata Patrick J. Leahy, do Comitê Judiciário, Robert W. Rogalski, o responsável por contra-inteligência do Departamento de Defesa, disse que uma análise revelou 186 relatórios, incluindo os nomes de 43 indivíduos, que não deveriam ser colocados no banco de dados porque não eram ameaças potenciais de terroristas estrangeiros. Outros 1.821 relatórios da Talon ainda estão sendo analisados, disse a carta.

Hersh e Taylor estacionam em uma vaga para deficientes no colégio Forest Hill e penduram a permissão de estacionamento de Hersh no espelho retrovisor. Taylor descarrega o engradado de plástico com os folhetos do porta-malas e os dois seguem para a diretoria da escola.

"Oi", diz Hersh para a mulher atrás do balcão. "Nós somos do Truth Project. Estamos aqui para ocupar uma mesa no refeitório."

A mulher faz expressão de que não está entendendo. Hersh diz que eles são esperados.

Taylor, acompanhado por James Venable, um professor de percussão do colégio e membro do Truth Project, sai para montar a mesa no refeitório. A repórter que acompanha o grupo não é autorizada a entrar -"Nós estamos em meio ao Fcat (o 'Enem' da Flórida), disse uma porta-voz do distrito- e Hersh ficou para trás, sentado em uma jardineira do lado de fora para falar.

Após telefonemas de cortesia para duas dúzias de diretores colegiais no condado de Palm Beach e para o superintendente, o Truth Project, que existe há 18 meses, obteve uma trégua no que ameaçava se transformar em um confronto: se os colégios agendassem visitas de um recrutador militar, então haveria visitas do contra-recrutamento, em um dia diferente.

"Nós não realizamos protestos ou manifestações", diz Hersh. "Nós conscientizamos as pessoas."

Nos corredores e refeitórios de escolas, eles esperam que os estudantes venham até eles. Antes de se alistar, pense bem, diz um dos seus folhetos.

"Nós dizemos: 'Quais são os motivos para vocês irem?' Eles dizem: 'Eu vou ficar estacionado no Havaí por quatro anos então poderei surfar'", diz Hersh. "Eles ainda pensam que receberão US$ 70 mil para a faculdade; que o melhor amigo deles estará malhando nas forças armadas."

"O recrutador diz a eles que poderão ser atiradores, machos como nos filmes, um exército de um homem só", diz Hersh. Alguns deles vêm com barra de exercício, e enquanto os alunos se exercitam, as meninas se aproximam (...) Ooooh. O que os garotos gostam é da camuflagem. Eles trazem um homem e uma mulher atraentes. Eles freqüentaram a escola de marketing e estão fazendo marketing das forças armadas."

Hersh tem 1,67 metro, metade disto quando está sentado na cadeira de rodas. Ele mantém três cadernetas espiral em um bolso da camisa e usa sete pulseiras de borracha em seus pulsos. A amarela de Lance Armstrong. A azul da Trave a Paz. Uma preta enviada por sua irmã que é preciso fazer força para ler -Eu não votei em Bush.

Assim que termina o horário de almoço, Taylor e Venable deixam o prédio. Há mais de 1.600 alunos aqui. Eles falaram com cinco, talvez. Uma garota do programa do Corpo Júnior de Treinamento de Oficiais da Reserva, com expressão de choque no rosto, pergunta: "Eles deixaram vocês entrarem no campus?"

"Nós não somos contra as forcas armadas", diz Venable. "Nós acreditamos que é preciso tomar decisões informadas." Um afro-americano, ele foi voluntário porque há "muitos estudantes carentes que são atraídos para as forças armadas".

A conversa mais longa na hora do almoço foi com um professor que os chamou de antipatriotas.

Hersh tem três irmão e uma cunhada que serviram muitos anos na Marinha e na Guarda Costeira. Eles estão acostumados ao que um chama de tolice de Hersh.

Darcy, sua filha de 20 anos, diz que seu pai é um ex-hippie que "botou o pé no chão" quando conheceu seu noivo, há cerca de cinco anos.

Darcy mora em Orlando e trabalha em uma lanchonete Wendy's e como zeladora em uma concessionária de automóveis para pagar suas despesas e a faculdade comunitária. O pai dela, ela diz, não tem muito dinheiro. Ele teve que pagar US$ 297 pelo acolchoamento de sua cadeira de rodas.

"Eu pensei em me alistar. As forças armadas lhe dão um lugar para morar e dinheiro para viver", diz ela. "Meu pai diz que eles mentem" sobre o que dão.

Após as revelações sobre o programa Talon, Hersh foi para Washington para dizer a uma comissão dos democratas da Câmara que agentes do governo estavam revirando o lixo e espiando os e-mails dos dissidentes no sul da Flórida. Um utilitário esporte preto ficou estacionado por horas em sua rua em Boca Raton, com o motorista ao volante. Quando ele se aproximou, diz Hersh, o veículo partiu.

Hersh teve 15 minutos na audiência de três horas em 20 de janeiro. Ele ficou sentado em sua cadeira de rodas. Ele disse que se sentiu ultrajado.

"Hoje nenhum americano hoje pode se sentir confiante de que não poderia acontecer com ele", disse o deputado Robert Wexler, democrata de Boca Raton, durante a audiência.

Ao voltar do colégio para casa, o corpo de Hersh protesta da atividade do dia. Ele tosse e tosse, segurando o encosto do sofá como apoio. Amanhã seus membros lhe punirão com dor.

Homer, Marge, Lisa, Bart e Maggie.

Uma pesquisa neste mês revelou que quase três em cada cinco americanos sabe dizer o nome de mais de um membro da família de desenho animados dos Simpsons, incluindo o cão e o gato. Apenas um em cinco sabe dizer mais de uma das cinco liberdades garantidas pela Primeira Emenda.

Liberdade de expressão, religião, imprensa, reunião e requisição de reparação de danos.

"Eu não tenho tanto medo de terroristas", diz Hersh.

"Os desespero nos pegará."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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