Schiavos falam sobre vida pós-Terri

Anita Kumar
do St.Petersburg Times
em Clearwater

A casa térrea de tijolos fica em meio a um quintal bem cuidado em um beco sem saída, há uma minivan Honda estacionada na entrada da garagem sob as sombras das árvores. "Asilo", diz a placa do carro, "Todo dia é um presente".

Lá dentro, ele lê para sua filha dormir e troca as fraudas do filho. Ele caminha sobre brinquedos espalhados e livros sobre animais e busca fuga assistindo "Família Soprano" e "Extreme Home Makeover", se entretendo alegremente com o drama de outra pessoa. Ele trabalha 12 horas por dia para pagar as contas e boceja enquanto se senta no sofá. Ela o lembra de botar o lixo para fora e ele o faz.

Esta é a nova vida de Michael Schiavo. A vida pós-Terri.

Todo dia é um presente.

No ano que se passou desde que Terri Schiavo teve uma das mortes mais públicas, Michael ainda vive duas vidas diferentes.

Ele protege sua privacidade mas escreveu um livro sobre os anos de luta política e ética que travou para remover o tubo de alimentação de sua esposa. Ele não acompanha o que está acontecendo em Tallahassee e Washington, mas formou seu próprio comitê de ação política. Ele removeu todos os sinais de sua primeira esposa da casa mas aprecia o reconhecimento e os comentários de estranhos sobre o que fez por ela.

O livro, "Terri: The Truth" (a verdade), que foi lançado nas livrarias na segunda-feira, pede pelo ensino sobre os desejos expressos em vida, fala sobre desordens alimentares e do combate a políticos, ativistas, qualquer um que interfira em decisões de colocar fim à vida.

Em sua primeira entrevista para jornal desde a morte de Terri, Mike -conhecido pelo mundo como Michael mas chamado de Mike por parentes e amigos- diz ao "Saint Petersburg Times" que muito aconteceu a ele no ano passado, mas que pouca coisa mudou.

Ele enterrou sua esposa. Mudou de emprego. Se casou.

Foi promovido.

Mas grande parte da amargura persiste, dividindo a família, dividindo os americanos.

Atualmente, há apenas vislumbres do esquivo e arrogante Michael Schiavo que o mundo conheceu. Ele é mais pensativo agora, mas ainda precisa se controlar para não ficar irado.

"Este foi o maior caso de direito de morrer na história. Isto nunca vai acabar. Então todos têm que aprender a viver com isto e seguir em frente", ele disse em uma entrevista longa e abrangente na semana passada. "Eu não consigo fazer com que desapareça.
Isto sempre estará presente. Mas você pode ensinar a si mesmo como seguir em frente."

E ele já conseguiu ensinar a si mesmo como seguir em frente? Ainda não, ele disse, mas está trabalhando nisso.

Após a morte de sua esposa em 31 de março de 2005, Mike deixou a cidade por dois meses. Ele e sua namorada de longa data, Jodi Centonze, levaram seus dois filhos pequenos para a casa de praia de um amigo.

Mike, um enfermeiro registrado, aproveitou a licença prolongada do trabalho no presídio de Pinellas depois que seus colegas doaram dias de férias para ele. Eles contribuíram com tantos dias que ele devolveu parte deles.

A família voltou para sua casa em Countryside, onde viveu tranqüilamente por anos, antes do caso ter chegado aos tribunais.

A casa de quatro quartos com gramado aparado e piscina é vizinha de cinco outras casas. Foi lá que equipes de televisão acamparam na calçada e ativistas atiraram rosas por Terri no gramado da frente.

Mike ajuda a supervisionar os 150 enfermeiros que cuidam dos 3.600 detentos do presídio. O horário dele nunca é o mesmo duas semanas seguidas. Atualmente ele chega em casa às 19 horas. Costumava ser à meia-noite.

Jodi, a quem Mike chama de Jo, começou no trabalho como arquivista e progrediu a vice-presidente de uma agência de seguros que deixou em 2000, após a empresa ter sido vendida. Atualmente ela fica em casa com as crianças e a família vive do salário anual de Mike, de US$ 68.500.

Olivia, três anos, adora todas as princesas, de Cinderela a Bela. Ela saltita pela casa em seu maiô, esperando pela hora de brincar na piscina. Ela freqüenta uma pré-escola católica três dias por semana.

Nicholas, 2 anos, gosta de Thomas o Trenzinho, de subir e bater na irmã. Ele nunca se cansa de encher sua boca com grandes pedaços de banana.

"Miau, miau", diz Nicky. Ninguém sabe de onde ele tirou isto. A família tem uma cadela, uma perdigueira dourada chamada Samantha.

O casal nunca considerou se mudar do condado de Pinellas, onde seus antigos sogros, os Schindlers, ainda vivem e onde Schiavo é um nome conhecido há anos.

"Por que deveria?" perguntou Mike, 42 anos, vestindo camiseta e bermuda enquanto comia salada de frango em seu restaurante italiano favorito em uma recente noite de domingo.

Mike nota estranhos cutucando uns aos outros quando o vêem em um restaurante ou loja. Em intervalos de dias alguém o aborda.

"Eles falam. Eles sussurram. Quando dizem algo para mim, é sempre lisonjeiro", ele disse. "Um cavalheiro me disse outro dia que eu sou seu herói."

Jodi, 41 anos, nunca é reconhecida. Nos doze anos desde que conheceu Mike, ela nunca foi a uma audiência em tribunal ou falou publicamente. Até agora.

Quase no último minuto, Jodi decidiu se juntar a Mike enquanto ele embarca em uma semana de turnê nacional para divulgar o livro. Ela aparecerá em pelo menos três programas de TV de exibição nacional.

"Como você se prepara para isto? Eu não sei. Você nunca sabe o que as pessoas dirão ou farão com você", ela disse, sentada no sofá vestindo jeans e com o cabelo castanho encaracolado puxado para trás. "Eu não estou embaraçada nem envergonhada de quem sou."

Dentro da casa, não há sinal de Terri. As fotos dela estão guardadas debaixo da cama da suíte do casal, onde Jodi trabalhou com um decorador profissional para desenvolver o motivo de animais e madeira escura.

Mike guardou anos de recortes de jornal, artigos de revista, documentos e cartas sobre Terri em duas enormes pastas de plástico. Elas estão na garagem, juntamente com a antiga mesa de jantar e brinquedos antigos.

Ele disse que pegará as caixas algum dia, quando seus filhos tiverem idade suficiente para saber sobre Terri. Ele espera que fiquem orgulhosos.

Mike e Jodi se conheceram em julho de 1993. Mike estava visitando um amigo, que é ortodentista. Jodi estava sentada na sala de espera.

Fazia três anos desde que o coração de Terri tinha parado misteriosamente de bater em 1990, privando o cérebro dela de oxigênio e a deixando no que os médicos dela chamaram de estado vegetativo persistente.

Mike e Jodi se tornaram amigos e ele disse que aos poucos percebeu que estava se apaixonando por ela. Ele disse que rompeu com ela três ou quatro vezes enquanto lutava com a culpa de amar duas mulheres ao mesmo tempo. Ele temia arrastar Jodi para sua vida complicada.

"Eu sabia o que esperar quando o conheci", disse ela.
"Eu não esperava que Mike fosse dar as costas a Terri, apenas para seguir em frente e desfrutar de uma vida mais fácil comigo."

Ele finalmente a pediu em casamento em outubro de 1994. Ela disse sim, apesar de ter se sentido inicialmente incomodada em usar o anel. Eles compraram uma casa juntos em 1995 e anos depois decidiram ter filhos mesmo sem saber quando se casariam.

Mike e Jodi enfrentaram juntos quase todas as decisões legais envolvendo Terri, toda a batalha com os Schindlers, toda a luta política. Atualmente é Jodi, até mais do que Mike, que parece não conseguir deixar de falar sobre o caso, constantemente desviando a conversa de volta aos Schindlers, a raiva ainda aparente após todos estes anos.

Jodi disse que sentia como se conhecesse Terri por intermédio de Mike e sua grande família. No início eles freqüentemente se atrapalhavam e a chamavam de Terri.

Depois que a mãe de Mike morreu, Jodi assumiu as tarefas ligadas a Terri. Com a ajuda de enfermeiros e ajudantes, Jodi lavava a roupa de Terri toda a semana e comprava as roupas, maquiagem e perfume que Mike insistia que ela continuasse usando na cama.

Jodi visitou Terri uma vez, em 2000. O juiz George Greer ordenou que o tubo de alimentação fosse removido. Aquele supostamente seria o fim e Jodi queria se despedir.

Em março de 2005, Terri Schiavo ainda estava viva e o caso dela tinha se transformado em uma causa nacional.
Mike ainda estava lutando para que o tubo de alimentação dela fosse removido; os pais dela ainda estavam lutando contra isto, dizendo que ela se recuperaria. As apelações judiciais tinham se esgotado. O governador Jeb Bush e o Legislativo tentaram intervir a favor dos pais de Terri. O Congresso e o presidente Bush quase fizeram o mesmo.

Quando manifestantes e câmeras de TV acamparam do lado de fora da casa deles, Jodi passou a se preocupar com os filhos do casal. Ela pediu a Mike algo que nunca tinha pedido antes: desistir da luta.

Eles discutiram por horas até que ele concordou. Então ele telefonou para seu advogado, George Felos.

Felos o lembrou que o caso agora era maior do que apenas Terri Schiavo. Ele disse que se tratava de todos que queriam ter o direito de recusar tratamento médico, todos que não queriam a intervenção do governo em suas vidas.

Mike disse a Jodi que ele o fez mudar de idéia, de que não desistiria. Jodi desistiu. Ela fez as malas e partiu com as crianças.

"Eu estava cheia", ela disse. "Não se tratava mais de Mike e os Schindlers. Era Mike e o governador, depois Mike e o presidente. Esqueça disto. Isto é loucura. Você é apenas um peixe pequeno na Flórida. Basta."

Ela voltou na manhã seguinte.

Mike e Jodi planejavam esperar até abril de 2006 -um ano inteiro após a morte de Terri- para se casarem. Os amigos persuadiram Jodi a deixar de se importar com o que as pessoas pensariam e antecipar a data.

Os convites foram postados no correio no início de dezembro. A notícia não vazou até um dia antes da cerimônia, em 21 de janeiro. O planejador de casamento de Jodi usou o sobrenome dela na maioria dos preparativos. Jodi comprou seu vestido com o nome de solteira da mãe. Mesmo o fotógrafo foi obrigado a assinar um acordo de confidencialidade. O primeiro se recusou.

Cerca de 90 pessoas estiveram presentes no casamento em uma igreja católica em Safety Harbor e na recepção no East Lake Country Club, onde tudo, dos vestidos das damas-de-honra aos M&Ms, os favoritos do casal, seguiam o tema preto e branco.

Em todo lugar havia uma nota anunciando que um donativo seria feito ao Asilo Florida Suncoast, em memória dos pais de Mike e Jodi. E em memória de Terri.

No casamento, Mike usava seu novo anel de casamento, um círculo de diamantes com quase 3 quilates de peso.
Ele perguntou a Jodi Schiavo se ela se incomodaria se ele usasse outro anel, um que ele fez há muitos anos a partir dos diamantes do anel de casamento de Terri.
Ela concordou.

"Sempre foi Mike, Terri e eu", ela disse calmamente.

Mike não lê o jornal que é entregue diariamente em sua porta. Ele também não acompanha o que acontece no Legislativo da Flórida ou no Congresso.

Mas ele sabe que precisa começar. Ele formou um comitê de ação política, TerriPAC, para levantar dinheiro e desafiar os políticos que tentaram intervir em seu esforço para remover o tubo de alimentação de Terri. Ele já levantou US$ 10 mil até o momento.

"As pessoas que se envolveram na minha vida nunca deveriam ter se envolvido", ele disse. "Se foram capazes de fazer comigo, elas podem fazer com você.Elas foram eleitas para dirigir o país, não minha vida. Nem a de ninguém."

Mike disse que espera que seu livro ajude a aumentar o interesse em sua causa e que está passando esta semana em Nova York tentando estimular as vendas, com aparições no programa "Today Show", da rede NBC, e no "The View", da rede ABC, entre outros.

Ele disse que não planeja se candidatar, apesar de ter dito que "algumas pessoas me pediram" para concorrer ao Senado.

Mike disse que não ganhará nenhum dinheiro com o comitê de ação política ou com o que espera que serão convites regulares para discursar. Ele não disse quanto recebeu para escrever o livro.

Mike e Jodi Schiavo mudaram de republicanos registrados para democratas registrados depois da morte de Terri. Mike disse que não se trata de política partidária e disse que apoiará republicanos ou democratas, apesar de ter sido a maioria republicana no Legislativo e no Congresso que tentou prolongar a vida de Terri.

Ele planeja apoiar candidatos em várias disputas neste ano, incluindo a do governo da Flórida. Ambos os candidatos democratas, o senador estadual Rod Smith quanto o deputado federal Jim Davis, se opuseram publicamente aos esforços para reinserir o tubo.

Terri foi cremada e suas cinzas enterradas em um cemitério em Clearwater. Uma placa de bronze marca sua sepultura e tem gravada as palavras "Eu mantive a promessa"; há um banco simples de mármore com vista para um lago com uma fonte no centro.

Jodi Schiavo ajudou a procurar pelo local. A decisão final coube a Mike. "Eu acho que Terri teria ficado muito orgulhosa e muito feliz", disse Mike. "Eu fiz o que ela queria. Ela está livre."

Mike voltará de Nova York para casa na sexta-feira, o aniversário da morte de Terri. Ele deseja algum tempo sozinho, um tempo para fazer algo privado apenas para ela.

Mas primeiro um carro estará esperando para levá-lo para gravar uma entrevista com Wolf Blitzer, da CNN. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos