Não consegue dormir? Então leia isto

Por William L. Hamilton

Qualquer hora destas experimente isto.

Fixe cerca de 24 eletrodos na face e na cabeça e mais alguns ao peito e nas pernas. Ligue cada eletrodo a fios com um comprimento de 60 centímetros a um metro e conecte a outra extremidade à parede próxima à cama, de forma que os fios se estiquem quando você se mover.

Certifique-se de que a sua cama seja daquele tipo semelhante a uma caixa de espionagem da era soviética, cheia de artefatos eletrônicos para a coleta de informação, e ainda de que haja uma câmera apontada para a cama, piscando silenciosamente no teto. Depois, apague as luzes e vá dormir.

A cena acima descreve uma típica noite em uma clínica de sono, na qual se coletam dados enquanto você dorme. Foi assim a minha noite no Centro de Medicina do Sono no Centro Médico Monte Sinai, em Manhattan. Acordei na manhã seguinte às 7h com alguém esfregando algo na minha cabeça para amolecer a cola que fixava os eletrodos. No trajeto de metrô de volta para casa, eu tinha a aparência de um fugitivo de um hospício, com círculos de cola espalhados pelo crânio. Apenas mais um caso de abdução por alienígenas.

Eu mergulhei na discussão nacional sobre o sono, passando a ser mais um elemento estatístico naquela que é chamada de uma epidemia de falta de sono, ou a percepção crescente de que na cama, deixando de lado as atividades extracurriculares, não estamos nos saindo muito bem. Essa é uma discussão mantida em consultórios médicos, em mesas de jantar, em websites como o talkaboutsleep.com e sandiegodreamcatchers.org e em salas de bate-papo na Internet.

"A nutrição, a boa forma física e agora o sono", diz o médico William C. Dement, diretor da Clínica e Centro de Pesquisas sobre Desordens do Sono da Universidade Stanford, referindo-se à moderna obsessão norte-americana com o bem-estar.

Dement, que foi basicamente o criador da idéia da medicina do sono, é, aos 77 anos, o Sandman (personagem de conto de fadas, que faz as crianças dormirem). Ele disse que as únicas ocasiões das quais se recorda em que perdeu o sono foi quando se inscreveu para receber verbas para pesquisas.

"Vinte e cinco anos atrás todo mundo começou a correr, preocupado com a forma física", diz ele. "Agora é o sono que está tendo o seu momento. A
idéia é que 90% da sua saúde quando acordado depende do seu sono".

Desde 1970, quando Dement fundou a clínica, a questão do sono se disseminou por departamentos universitários, periódicos, associações, convenções, academias e fundações como a Fundação Nacional do Sono, que criou na semana passada a Semana Nacional da Consciência sobre o Sono, que termina neste domingo (02/04) com o início do horário de verão, quando perdemos uma hora de sono devido ao relógio, não importando se normalmente cochilamos ou não com os deuses.

Assim como vários outros indivíduos, reclamei junto ao meu médico do pouco sono e do cansaço sentido durante o dia. Ele prescreveu uma avaliação em uma clínica do sono.

Com os baby boomers (membros da geração nascida nos Estados Unidos entre 1946 e 1964, período de grande crescimento demográfico no país) novamente liderando a tendência (eu tenho 54 anos), o sono se transformou em uma indústria. Além das pílulas (mais populares do que nunca), máscaras de respiração, nose pillows, podcasts hipnóticos, aromaterapias e, especialmente, camas especiais, há uma proliferação de clínicas do sono como a do Centro Médico Monte Sinai.

Com uma promessa atraente de auto-aperfeiçoamento, como um spa de um dia conjugado a uma aula noturna, as clínicas com certificação oficial nos Estados Unidos triplicaram nos últimos dez anos, chegando a 963.

Os médicos especializados em sono afirmam que uma carência de pessoal treinado e certificado, como os técnicos que controlam o teste noturno, poderá ser a próxima crise no setor.

"Você acha que sofre de uma desordem do sono?", pergunta a Academia
Americana de Medicina do Sono - que fornece certificados de reconhecimento aos centros de distúrbios do sono - no seu website, www.aasmnet.org. "Encontre o centro de distúrbios do sono mais próximo".

A médica Stasia J. Wieber, diretora do Centro Extensivo de Medicina do Sono em Monte Sinai, diz a respeito das avaliações: "Muita gente as faz porque os amigos fizeram. Mas nós só realizamos um estudo do sono durante a noite quando este é o procedimento indicado. É necessário que um médico requisite o estudo".

A avaliação noturna no Centro Monte Sinai custa US$ 1.500. A maioria dos planos de saúde cobre essa despesa.

Eu cheguei às 20h e, vestindo o meu pijama, preenchi um formulário para
determinar a minha "higiene" de sono. Depois, sentei-me, assistindo "Armageddon" em uma televisão sem som enquanto um técnico atrás de mim fixava os eletrodos à minha cabeça.

Na televisão Bruce Willis dizia adeus à Terra, com o dedo na bomba.

A seguir, as luzes foram apagadas. Durante a noite, enquanto me deslocava da vigília para o sono, enviando fluxos de dados como se fosse uma sonda espacial, o técnico aparecia e desaparecia, ajustando os fios e eletrodos como um visitante espectral percebido apenas por uma espécie de sexto sentido. Ele monitorou a minha viagem noturna a partir de uma mesa de trabalho localizada em algum ponto da clínica, tomando notas enquanto eu me movia velozmente pela escuridão do sono.

Na manhã seguinte, ainda muito longe de uma boa xícara de café, a minha
cabeça molhada com líquidos e pontilhada de algo que parecia creme dental, preenchi um outro formulário, que perguntava, entre outras coisas, com o que eu havia sonhado.

"Sonhei que estava conectado a um monte de fios, em uma maranha ameaçadora, que me puxava de volta para uma parede toda vez que eu tentava escapar", escrevi com sinceridade.

"Talvez não tenha sido um sonho", disse o técnico, ao rever as minhas
respostas, com um humor sinistro que era ao mesmo tempo sério. Trabalhar à noite deixa as pessoas assim.

Durante uma visita à clínica de Wieber duas semanas depois, me disseram que eu sofria de apnéia do sono. Eu parei de respirar 16 vezes por hora enquanto dormia, o que ela considera como um quadro moderado.

Quando você deixa de respirar devido a uma passagem inadequada para o ar entre a língua e o fundo da garganta, o corpo envia um sinal ao cérebro informando que há algo de errado, e o cérebro, em uma resposta emergencial, o acorda. Você perde o sono. E, segundo os estudos, você corre um risco maior de sofrer um ataque cardíaco ou um derrame.

Sob o ponto de vista médico, a primeira linha de defesa é uma máquina dotada de uma máscara, chamada de dispositivo CPAP (acrônimo em inglês de pressão de ar positiva contínua). Há ainda um dispositivo dental que parece ter saído do filme "Laranja Mecânica", e que, segundo Wieber, não é efetivo em todos os casos. Além disso, em casos específicos, pode-se recorrer à cirurgia.

De acordo com a médica, a máscara CPAP é o método mais simples, e apresenta elevado índice de sucesso. Mas ela significa bancar o mergulhador nas profundezas do sono, estando mais para mergulho com garrafa de ar comprimido do que para contar carneirinhos. E você fica parecendo Dennis Hopper em "Veludo Azul". Achei estranho.

Em uma conversa por telefone, Wieber me garantiu que eu não estava sozinho. "É difícil usar uma máscara todas as noites", disse ela. "Mas 75% dos pacientes a adotam, e a aceitação é boa".

"Para as pessoas que ficam perambulando cansadas durante o dia, o negócio é usar a máscara sem pensar duas vezes", afirma David Schneiderman, 44, chefe de operação de uma firma de corretagem de ações em Nova York. Schneiderman, que teve um diagnóstico de apnéia em 2002, e que usa uma máscara CPAP todas as noites, rememora a mulher e a filha lhe dizendo que, antes de passar pela avaliação, ele dormia como um homem em um desenho animado.

"Enquanto me preparo para dormir, com a minha CPAP instalada como uma máscara de mergulho, a minha filha vem me dar um beijo de boa-noite", conta Schneiderman. "Atualmente durmo tão bem que não consigo mais cochilar durante o dia".

Em um estudo divulgado na terça-feira passada, a Fundação Nacional do Sono relatou que mais da metade dos adolescentes entrevistados, com idades entre 11 e 17 anos, disse que dormem menos do que acham que deveriam dormir, e um terço deles afirmou suspeitar de que sofrem de uma desordem do sono. Somente 7% dos pais entrevistados disseram acreditar que os filhos têm problemas com o sono, embora 28% dos adolescentes tenham dito que adormecem durante as aulas e que ficam muito cansados para fazer exercícios.

"Em 90% dos casos, as pessoas com problemas de sono acham que não têm problema algum, acreditando que, se sentem sono durante o dia, isto se deve a serem, de alguma forma, naturalmente sonolentas", explica o médico Meir Kryger, diretor da clínica de desordens do sono do Hospital Geral Saint Boniface, em Winnipeg, na província canadense de Manitoba, referindo-se aos seus pacientes adultos.

"Este é um campo de estudos estranho", afirma Kryger.

Não me diga isso. Pelo menos antes de eu apagar as luzes. Danilo Fonseca

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