Eleição presidencial do Peru: Multidões tratam como astro do rock candidato neófito na liderança, que poderá se tornar o mais recente líder não ortodoxo sul-americano

John Otis
do Houston Chronicle
em Pucallpa, Peru

Na maioria das profissões, chegar ao topo exige um histórico estelar de experiência e realização. Mas na política latino-americana, um currículo desprovido também pode servir como ingresso ao palácio presidencial.

O mais recente exemplo pode ser o de Ollanta Humala, o candidato que lidera as pesquisas para a eleição presidencial de 9 de abril e que está realizando sua primeira campanha política.

Um ex-tenente-coronel, Humala liderou um levante militar fracassado em 2000, mas era desconhecido da maioria dos peruanos até poucos meses atrás. Mas Humala pinta sua inexperiência como uma virtude.

Ele argumenta que por nunca ter posto os pés na política, ele continua não maculado pelo fracasso e pelos escândalos de corrupção que cercam várias autoridades peruanas, incluindo o presidente de saída Alejandro Toledo.

Pouco antes de realizar um imenso comício, que terminou com seus simpatizantes carregando Humala, 43 anos, em seus ombros pelas ruas de desta cidade ribeirinha na selva, o candidato tentou explicar em uma entrevista o motivo das multidões repentinamente começarem a tratá-lo como o quinto Beatle.

"As pessoas querem uma nova mensagem e um novo mensageiro. Elas querem renovação política", disse o insinuante Humala, que apresenta um corte de cabelo rente e um corpo atlético que ainda cabe em seu uniforme militar.

Humala, que se transforma em um partidário furioso nos palanques, pretende percorrer a mesma trilha que vários candidatos não ortodoxos antes dele.

Ao se apresentarem como reformistas de altos princípios que pretendem
sacudir o establishment de seus países, estas pessoas de fora do meio
político têm vencido várias eleições presidenciais. Suas qualificações e ideologias variam, mas geralmente tendem para a esquerda e têm colocado fim a anos de governo de líderes conservadores, pró-Estados Unidos.

Na Bolívia, Evo Morales, um índio aymara e um plantador de coca, a
matéria-prima da cocaína, conquistou a presidência com um vitória esmagadora em dezembro. No Brasil, o ativista sindical Luiz Inácio Lula da Silva, que cresceu em meio à pobreza abjeta, foi eleito presidente em 2002. Os venezuelanos e equatorianos optaram por ex-oficiais militares que lançaram suas carreiras políticas após liderarem tentativas de golpe -Hugo Chávez e Lucio Gutiérrez.

Parte do apelo deles deriva da frustração com os políticos tradicionais, muitos dos quais oriundos da classe alta, com estudo nos Estados Unidos e defensores de políticas de livre mercado para cura dos males da região. Mas sob sua liderança, o crescimento econômico na região desacelerou até quase parar e quase 43% dos latino-americanos agora vivem na pobreza.

Como resultado, os eleitores não mais parecem impressionados com os
políticos veteranos que conhecem as pessoas certas e que ostentam seus
diplomas de universidades de elite.

"Não importa se você estudou em Harvard. O que realmente precisamos é de alguém em contato com o povo", disse Fredy Vilca, 48 anos, um professor em La Paz, a capital da Bolívia.

Um simpatizante do presidente Morales, Vilca acrescentou: "Este é o motivo de estarmos felizes em ter um camponês como presidente. Ele governará para a maioria".

O risco é que as expectativas podem ser exageradas. Muitos eleitores
acreditam que candidatos como Morales, que chegam ao governo com retrospecto limpo, realizarão milagres.

"Mas soluções são baseadas em políticas e idéias", disse Diego Garcia Sayán, um ativista de direitos humanos que atuou brevemente como ministro das Relações Exteriores de Toledo. "No governo, você tenta assentar um ou dois tijolos. E então o governo seguinte vem e tenta assentar o próximo tijolo."

Em vez de construir coisas, muitos recém-chegados passaram anos criticando o governo e enfrentam um difícil aprendizado quando assumem o poder.

O cenário às vezes parece uma refilmagem ao sul da fronteira de "O Candidato", o filme clássico de 1972 no qual Robert Redford interpreta um candidato idealista ao Senado americano. Após a vitória, o atônito senador eleito pergunta aos seus assessores: "O que fazemos agora?"

Em outros lugares, os líderes novatos parecem ter perdido o rumo.

No Equador, por exemplo, Gutiérrez abandonou seus aliados de esquerda e foi forçado a renunciar no ano passado em meio a imensos protestos de rua. Lula, um candidato a reeleição neste ano no Brasil, tem sido distraído por escândalos de corrupção dentro de seu partido e seus alardeados programas antipobreza estagnaram.

Apesar da economia baseada no petróleo da Venezuela estar passando por um boom e Chávez ser o favorito para conquistar outro mandato de seis anos em dezembro, o país se tornou tão polarizado que ele enfrentou uma tentativa de golpe, greves gerais e um boicote às eleições desde que ele assumiu o governo em 1999.

"As pessoas estão desiludidas, mas pessoas de fora da política não podem resolver os problemas delas, disse Carlos Ivan Degregori, um analista político de Lima. "É como dizer: 'Eu não sou médico e nunca fui, mas me permita operar seu filho."

Humala é tão neófito que faz Morales da Bolívia, que serviu dois mandatos no Congresso antes de conquistar a presidência em janeiro, parecer um veterano experiente. Mas os eleitores peruanos freqüentemente buscam o rosto mais novo.

Nos anos 90, Alberto Fujimori, um filho de imigrantes japoneses e na época um reitor pouco conhecido de uma universidade agrícola em Lima, chocou o establishment ao conquistar a presidência em sua primeira campanha. Onze anos depois, Toledo, um ex-menino engraxate que se tornou consultor do Banco Mundial, foi eleito ao cargo máximo sem nenhuma experiência de governo.

Tanto Fujimori quanto Toledo eram aliados de Washington, adotaram políticas de livre mercado que caíram em desgraça junto a muitos peruanos e foram atingidos por escândalos de corrupção. Toledo, cujo índice de aprovação a certa altura despencou para um único dígito nas pesquisas, foi proibido por lei a concorrer à reeleição.

Nos comícios, Humala gosta de contar uma piada sobre um candidato sem
vergonha que promete aos eleitores pobres uma escola, um hospital e uma
ponte. Quando lhe dizem que nenhum rio passa pela região, o político promete construir um.

"A maioria dos candidatos oferece tudo mas então esquece de você assim que chega ao poder", disse Luis Chinchay, um pai de cinco que vende pão e doces em uma minúscula aldeia indígena perto de Pucallpa, uma das paradas de campanha de Humala. "Mas Ollanta foi um comandante do exército. Ele trará ordem ao Peru."

As pesquisas dão para Humala uma vantagem de cinco pontos sobre Lourdes
Flores, uma ex-legisladora de centro-direita, com o ex-presidente Alan
García em terceiro. Se nenhum dos 21 candidatos receber mais de 50% dos
votos, os dois mais votados se enfrentarão em um segundo turno em maio.

Apesar de Humala já ter comandado legiões de soldados, ele exibe uma postura humilde na campanha. Ele carrega sua própria bagagem nos aeroportos, veste jeans e botas de trabalho e inicia seus comícios cantando o hino nacional e prestando homenagem aos que tombaram pelo Peru.

"Os soldados são os filhos dos pobres e trabalhei com eles por 24 anos. Este é o motivo de ter um laço com o povo", disse Humala. "Eu vivi em aldeias pobres sem água ou eletricidade. Eu não acho que outros políticos tenham tal experiência."

As forças armadas, ele disse, lhe ensinaram não apenas a dar ordens, mas a liderar pelo exemplo.

Mas daí em diante Humala parece seguir a trilha de Morales na vizinha
Bolívia.

Como Morales, Humala promete reprimir o tráfico de drogas mas fala em
legalização do cultivo da coca e do uso da planta para produção de produtos legais como chá. Ele quer convocar uma assembléia especial para reescrever a Constituição do Peru, semelhante a outra proposta de Morales. E como o líder boliviano, Humala insiste em um maior controle do Estado sobre a economia, incluindo a renegociação dos contratos das empresas estrangeiras de petróleo como meio de obter royalties maiores.

Apesar da economia do Peru ter crescido quase 5% ao ano sob Toledo, grande parte do crescimento veio dos setores de mineração e energia e tem gerado poucos empregos. Dois terços dos trabalhadores peruanos atuam na economia informal e metade vive com menos de US$ 2 por dia.

"A realidade me diz que há desespero no Peru", disse Humala. "Nós tivemos crescimento econômico, mas não desenvolvimento."

Ainda assim, Humala continua sendo um enigma para muitos.

Parte da confusão deriva do fato de muitos membros da família de Humala, cujos pontos de vista são mais radicais que o dele, terem entrado na política.

Mesmo a carreira militar de Humala é envolta em mistério, carreira que teve início na escola de oficiais em 1982.

Assim que sua campanha decolou neste ano, Humala passou a ser acusado por pessoas na cidade de Madre Mia, na selva -onde comandou uma base do exército durante a rebelião do Sendero Luminoso- de ordenar o desaparecimento de seus parentes.

Humala negou as alegações, que continuam sob investigação.

Muitos falam de outro episódio.

Juntamente com cerca de 60 soldados, incluindo seu irmão Antauro, Humala promoveu uma rebelião em outubro de 2000 em protesto ao apoio do comando militar ao então presidente Fujimori, que tinha conquistado um terceiro mandato em uma eleição manchada por fraudes. O levante foi rapidamente debelado e Humala se escondeu.

A revolta deu início à carreira política de Humala. Mas se ele vencer a
eleição presidencial, não se sabe como será sua liderança.

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