Escândalo de extorsão alimenta briga entre dois tablóides de Nova York

Em Nova York

Na guerra dos tablóides de Nova York, a vingança é um prato que se saboreia melhor em negrito.

Nos últimos anos, o "The Daily News" apanhou do tablóide rival da cidade, o "The New York Post". Nenhuma gafe detectada do concorrente escapou da cobertura do "The New York Post", fosse ela relativa à regularidade com que o proprietário do "The Daily News", Mortimer B. Zuckerman, substituía os seus principais editores, ou um sorteio no ano passado que, devido a um erro tipográfico, deixou milhares de leitores do jornal achando que tinham ganhado, cada um, um prêmio de US$ 100 mil.

Os colunistas do "The New York Post" escrevem regularmente fofocas que são publicadas antes que estas sejam cobertas pelo "Daily Snooze" (literalmente "A Soneca Diária", trocadilho em inglês com o nome do jornal adversário) --conforme eles chamam o seu rival maior, um pouco mais discreto e mais liberal.

Enquanto isso, a enorme vantagem da tiragem do "The Daily News" sobre o "The New York Post" diminuiu gradualmente durante os dias de semana, em parte devido ao fato de o "The Post" ter reduzido o seu preço pela metade em 2000. Em dezembro passado, o "The Post" chegou a contratar o presidente e principal chefe de operações do "The Daily News".

Agora o "The Daily News" resolveu cobrir nos mínimos detalhes as acusações de tentativa de suborno envolvendo um popular colaborador da coluna de fofocas "Page Six" ("Página Seis") do "The New York Post". Isso se seguiu a uma reportagem publicada no "The Daily News", em 31 de março último, que acusava o "The Post" de inflacionar fraudulentamente a sua tiragem, despejando pelo menos 10 mil cópias do jornal em um centro de reciclagem de papel no Brooklyn, alegando que os pacotes se destinavam à China.

Col Alan, editor-chefe do "The Post", disse a respeito da cobertura agressiva das questões relativas ao seu jornal por parte do "The Daily News": "O 'The Daily News' perdeu nos últimos anos para o 'The Post' uma tiragem na casa das dezenas de milhares, e agora o 'The Post' está prestes a superar a circulação do 'The Daily News'. É claro que é isso o que está pautando a agenda deles".

Quanto à forma como o "The Post" cobriu o seu escândalo interno, o jornal, seguindo o seu clássico estilo autocongratulatório, publicou uma pequena matéria na página três, na última sexta-feira, na qual se gabava: "O 'The Post" deu este furo ontem no seu website".

Além de dar o "furo" sobre a sua própria história, o "The Post" suspendeu o colunista de fofocas, Jared Paul Stern, que é acusado pelo bilionário Ronald W. Burkle de tentativa de extorsão. Stern está cooperando com a investigação criminal sobre reuniões gravadas que manteve com Burkle.

O "The Post" se recusou a fazer comentários sobre as acusações do "The Daily News" relativas ao suposto escândalo dos dez mil jornais enviados à unidade de reciclagem de papel.

Martin Dunn, editor-chefe do "The Daily News", negou que o seu jornal esteja tentando explorar a história de Burkle para se vingar do rival. Ele disse que o escândalo --que o "The News" batizou de "Page Sick" (literalmente, "Página Doente", em um trocadilho com o nome da coluna de fofocas do adversário, a "Page Six), e depois de "Page Fix" (outro trocadilho, significando algo como "Conserto de Página")-- teria merecido a cobertura do seu jornal, independentemente do fato de envolver o seu principal rival. Ele acrescentou que a história dos jornais enviados para uma unidade de reciclagem para inflacionar artificialmente a tiragem se constitui em uma manchete legítima para a indústria da informação.

"Honestamente, nós tentamos ficar acima disso tudo", disse Dunn em uma entrevista por telefone. "Se qualquer bilionário fosse chantageado por alguém, isso se constituiria em notícia de jornal".

Mas trata-se do "The Post". E, conforme observa Michael Cooke, o editor-chefe anterior do "The Daily News": "Existe aí uma maravilhosa dose de prazer pelo fato de isso ter acontecido com o maligno 'The New York Post'".

Começando com uma manchete de primeira página na sexta-feira, o "The Daily News" vem dando destaque à história de como Stern teria tentado extorquir US$ 220 mil (cerca de R$ 470 mil) de Burkle em troca de um tratamento mais gentil na coluna "Page Six". Burkle vinha reclamando de que é objeto de uma cobertura inverídica e prejudicial nesta coluna. O "The Daily News" publicou a história na sua primeira página durante três dias seguidos, e foi o primeiro órgão de imprensa a ter acesso ao vídeo e às transcrições da suposta tentativa de extorsão.

William Sherman, o repórter do "The Daily News" que escreveu as histórias sobre Stern e Burkle, disse em uma entrevista no domingo (09 de abril) que ouviu falar pela primeira vez da tentativa de extorsão dois dias antes da reunião registrada em vídeo entre o jornalista e o bilionário em 31 de março, no segundo encontro entre os dois. Sherman, que ganhou o Prêmio Pulitzer por reportagens investigativas locais para o "The Daily News" em 1974, disse que a história chegou a ele por intermédio de mais de uma fonte, e não por meio de um dos seus editores.

Sherman descreveu o clima na redação do "The Daily News" na sexta-feira como normal. Já um outro repórter do jornal disse que Dunn estava "jubiloso".

Tanto Sherman quanto o pessoal do "The New York Post" disseram que houve estupor nas suas redações devido à gravidade das infrações éticas e potencialmente legais supostamente cometidas por Stern. No último final de semana, Stern declarou: "Não sou capaz de defender a minha falta de discernimento neste caso".

Mas as suas ações lançaram um foco sobre uma área na qual os dois jornais concorrem com maior agressividade --a fofoca-- e na qual a coluna "Page Six" vinha sendo o padrão a ser seguido. E tais ações proporcionaram ao "The Daily News" a rara oportunidade de recuperar parte do elemento não quantificável, mas crucial, relativo ao combate entre os tablóides, elemento este que o jornal vinha cedendo ao "The Post": o dinamismo da fofoca.

Na sexta-feira passada, o "The Daily News" enviou dois fotógrafos até o edifício onde funciona o "The Post" e a empresa proprietária do jornal, The News Corporation, para tirar fotos do presidente da companhia, Rupert Murdoch, saindo de sua limusine depois que a história foi revelada.

Afinal de contas, foi Murdoch que nas últimas três décadas considerou como prioridade pessoal derrotar o "The Daily News" em termos de tiragem, apesar do fato de o "The Post" representar um braço muito pequeno do seu império de mídia no valor de US$ 54 bilhões (cerca de 116 bilhões). O "The Post" é também o único jornal do qual ele ainda é proprietário na América do Norte.

Murdoch adquiriu o jornal em 1976, mas o vendeu em 1988 para obedecer às regulamentações que o impediam de ser dono de estações de televisão e de jornais no mesmo setor de mercado. Mais tarde ele obteve uma concessão que lhe permitiu readquirir o jornal em 1993, e salvá-lo da falência.

No mesmo ano, Zuckerman, um milionário corretor de imóveis e publicitário, comprou o "The News", que estava em processo falimentar.

Em meados da década passada, Murdoch criou uma edição dominical do "The Post", uma medida seguida pela diminuição do preço das edições de dias de semana para 25 centavos de dólar, ou a metade do preço do "The Daily News".

A lacuna entre os dois jornais em termos de circulação em dias de semana vem se estreitando intensamente desde o início de 2000, quando o "The Daily News", que possui uma tendência liberal, tinha uma tiragem diária de 730.542, e o "The Post", que é intensamente conservador, de 436.544. Segundo os últimos números disponíveis do Departamento de Análise de Circulação, o "The Post" teve uma tiragem média nos dias de semana de 672.731 nos seis meses que terminaram em 30 de setembro do ano passado, um número muito próximo dos 688.584 registrados pelo "The Daily News" no mesmo período. Nos domingos, o "The Daily News" conta com uma dianteira bem maior sobre o "The Post", com uma tiragem de 781.375 contra 425.279.

O pessoal de Zuckerman argumentou que o "The Daily News" conseguiu manter a lucratividade e, ao mesmo tempo, competir com um rival subsidiado e que perde dinheiro, e que existiria apenas para atender aos interesses do seu dono, Murdoch.

Embora o "The Post" tenha registrado prejuízos anuais de cerca de US$ 40 milhões (cerca de R$ 86 milhões) nos últimos anos, os executivos do jornal argumentaram que o estilo contundente e mais sensacionalista do seu veículo e o preço mais reduzido permitiriam em breve que eles superassem o "The Daily News" em vendas durante os dias de semana, um cenário que possibilitaria ao "The Post" conquistar grandes anunciantes que hoje estão com o "The Daily News".

Nas suas próprias páginas, o "The Post" se autodescreve como "o jornal que mais rapidamente cresce nos Estados Unidos", e chama o "The Daily News" de "um jornal com problemas de circulação".

Ambos os jornais estão se defrontando com os desafios representados pela Internet e pelo lançamento de dois jornais diários gratuitos cujos alvos são os indivíduos que se dirigem ao trabalho.

E no decorrer dos últimos anos, o "The Post" e o "The News" publicaram matérias colocando em dúvida a validade dos números relativos às tiragens mútuas, em meio a escândalos quanto à circulação de jornais em outros locais. Um artigo publicado no "The News" em 31 de março afirmou que um funcionário do Departamento de Análise de Circulação esteve presente, junto com os repórteres, no local em que as dez mil cópias estariam sendo dirigidas para a unidade de reciclagem. Heidi Chen, porta-voz do departamento, disse que a reportagem do "The Daily News" sobre o assunto é verídica, mas não quis fornecer maiores detalhes sobre o assunto.

Cooke, o ex-editor do "The Daily News", disse em uma entrevista: "A batalha dos tablóides é uma preocupação do jornal a cada minuto de cada dia, dos escalões mais altos da redação até os estagiários. E isso não é porque eles estejam com medo do adversário. É porque se trata de uma guerra, e em uma guerra o confronto ocorre 24 horas por dia, sete dias por semana". Ele foi o editor do jornal por cerca de um ano, antes de renunciar, em janeiro, e se tornar o vice-presidente do Sun-Times News Group.

Quando um dos tablóides comete um erro, o adversário não deixa de tomar nota. Por exemplo, a redação do "The Daily News" foi enfeitada com primeiras páginas do "The Post" quando este último noticiou erroneamente a notícia "exclusiva" de que John F. Kerry havia selecionado Richard Gephardt como o seu companheiro de chapa na última eleição presidencial.

Uma indicação das mudanças pelas quais passou o cenário da mídia nas últimas décadas é o fato de as mais cruentas batalhas dos tablóides norte-americanos terem se transformado em uma raridade: "Existem poucos locais onde coisas desse tipo ainda ocorrem, já que existem pouquíssimos lugares que contam com jornais competitivos", opina John Morton, analista da indústria de jornais.

Pete Hamill, um colunista veterano de tablóides e escritor, que por breves períodos foi editor tanto do "The Daily News" quanto do "The Post" no decorrer da sua carreira, disse em uma entrevista que o rancor entre os dois jornais é um fenômeno relativamente recente. Ele explica que isso é uma conseqüência da importação de editores de tablóides de estilo britânico para supervisionar ambos os jornais no decorrer dos anos (Dunn e Cooke são da Inglaterra, e Allan é um veterano dos tablóides australianos de Murdoch).

"A forma de vencer o adversário é publicar as melhores histórias, fazer com que elas sejam escritas pelos melhores talentos do jornal, e se manter fiel à tradição dos tablóides - encontrar o drama que permeia a história", afirmou Hamill. "Ninguém compra um tablóide para se informar sobre uma colheita de sisal na Malásia. A melhor história em qualquer tipo de tablóide é o assassinato ocorrido em um endereço nobre. No setor de tablóides, ninguém supera um jornal concorrente apenas publicando observações sobre fatos". Danilo Fonseca

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