Quem quer ser roteirista? Aparentemente, todo mundo

William Arnold
do Seattle Post-Intelligencer

Até meados dos anos 90, o sonho impossível que ainda alimentava as fantasias de alunos de graduação em inglês e pretensos autores em torno do país era a busca tradicional de escrever o Grande Romance Americano: entrar para as fileiras de Hemingway, Fitzgerald e Faulkner.

Mas, como muitos outros símbolos do século 20, essa ambição parece ter saído de moda. O que agora motiva nossas aspirações literárias coletivas é escrever o Grande Roteiro Americano.

No ano passado, foram registrados 40.000 roteiros pela Writers Guild of America. Como relativamente poucos roteiristas se dão o trabalho de buscar essa proteção para os direitos autorais nos estágios iniciais, as autoridades acreditam que esse número representa "apenas a minúscula ponta do iceberg".

Como disse em Seattle no ano passado o roteirista vencedor de Oscar Charlie Kaufman: "É uma epidemia. Todo mundo que conheço está escrevendo um roteiro -garçons, motoristas de táxi, advogados, contadores, qualquer um -e todos parecem muito dedicados."

"O cinema é nossa forma de arte mais democrática", diz o historiador de cinema Leonard Maltin. "Todo mundo vai ao cinema ou assiste DVD. Assim, as pessoas entendem que podem ser críticas de cinema ou autoras de filmes."

"A forma de roteiro é relativamente simples", disse o guru de filmes independentes Jeff Dowd. "Com um bom programa de computador, qualquer um pode fazer um roteiro que pareça razoavelmente profissional. Então as pessoas que nem sonhariam em tentar escrever um roteiro não têm medo de tentar."

E não só os amadores estão tentando a sorte. Autores teatrais famosos como David Rabe e David Mamet, romancistas respeitados como Larry McMurtry e Sherman Alexie e até críticos famosos de cinema como Roger Ebert costumam escrever roteiros.

De fato, o paradigma parece ter mudado. Quando um autor faz sucesso com um romance ou peça, a progressão natural agora é escrever um roteiro -isso não é mais considerado rebaixamento literário. Antigamente, os autores sérios queriam escapar de Hollywood.

Essa mania pode parecer muito estranha quando você considera que um roteiro é, no melhor dos casos, apenas um projeto e lido por apenas meia dúzia de pessoas. Além disso, como Hollywood faz somente algumas centenas de filme por ano, as chances de jamais chegarem à tela são pequenas.

Mas o fator motivador é claro: mais do que nunca, o cinema é o ápice do glamour e poder nos EUA; escrever um roteiro se provou a forma mais rápida e certa de entrar bem para o ramo, freqüentemente com apenas uma única boa idéia.

Também dá dinheiro. Com um roteiro, um autor pode conseguir uma bolada com relativamente pouco esforço. Mesmo se nunca chegar às telas, o inferno do desenvolvimento do filme pode ser financeiramente compensador e uma venda pode levar a contratos lucrativos para reescrever outros roteiros.

Então todo mundo está entrando no ramo, e a Corrida do Ouro do Grande Roteiro -que atingiu marcha rápida depois da onda frenética de compras de Hollywood de roteiros free-lance no final dos anos 90- gerou uma indústria de apoio logístico e uma cultura na qual Seattle encontrou um lugar especial.

De acordo com "The Big Deal: Hollywood's Million-Dollar Spec Script Market" (o grande negócio: o mercado de milhões de dólares de roteiros freelance de Hollywood), a criação de roteiros tornou-se surpreendentemente descentralizada nos últimos anos ("Hoje em dia, menos autores escolhem morar em Los Angeles"), e Seattle se tornou um dos principais pólos de talentos roteiristas do país.

Quentin Tarantino descreveu de modo mais extravagante: "Seattle desenvolveu uma enorme reputação no ramo como a Meca de cinema no Norte. As pessoas têm uma imagem de que a cidade é para os roteiristas o que Paris dos anos 20 foi para romancistas -um ambiente romântico de inspiração e apoio."

Isso pode ser um exagero, mas é verdade que a subcultura do roteiro que se desenvolveu na cidade nos últimos anos é impressionante. O volume de serviços hoje oferecidos pela prefeitura, Estado, instituições acadêmicas, além do Festival Internacional de Cinema, o Fórum de Filme do Noroeste e outras instituições faz a cidade parecer extraordinariamente aberta ao setor.

Seattle também se tornou o refúgio de um número crescente de autores estabelecidos, atraídos menos pela cultura de cinema do que por um desejo de escapar da pressão do estilo de vida de Hollywood, pessoas como Christopher McQuarrie ("Os Suspeitos"), Cameron Crowe ("Quase Famosos") e Stewart Stern ("Juventude Transviada").

Em 2004, três desses expatriados de Hollywood (Stern, o ator Tom Skerritt e o diretor John Jacobsen) reuniram-se com o produtor local Rick Stevenson e o promotor Warren Ehteredge para fundar uma academia de roteiro - a Film School- que rapidamente se tornou uma das características mais notáveis do ramo em Seattle.

Duas vezes por ano a escola reúne uma pequena classe de alunos em uma mansão em Capitol Hill e conduz um programa de imersão intenso, de três semanas de seis dias e 12 horas de trabalho por dia- na arte de escrever um roteiro.

A filosofia da escola é que os filmes invariavelmente falham em um nível básico de história. Assim, quer dar aos alunos os elementos que garantem uma boa forma de contar uma história. ("Nessa escola de cinema, não há câmeras", proclama seu site. "É tudo sobre a história -como escrevê-la e como dirigi-la").

Misturando idealismo literário com praticidade, a escola também oferece um programa tutorial, oferecendo conferências privadas com membros do corpo docente, uma semana ainda mais intensa chamada "Acampamento do Prodígio" e uma série de palestras que trouxe à cidade roteiristas como Ed Zwick ("O Último Samurai") e Mike Rich ("Desafio do Destino").

Até hoje, 90 alunos passaram pelo curso. A maior parte aprovou a experiência; muitos ganharam competições de roteiro e fecharam negócios promissores. A escola e sua abordagem única rapidamente ganharam fama na indústria como algo diferente e especial.

Mesmo assim, em geral esses seminários e professores de celebridades, como Syd Field e Robert McFee, freqüentemente são criticados por seu alto preço (o curso básico da Film School custa US$ 3.000, ou cerca de R$ 6.000), por ensinarem princípios estritos que levam a produção de fórmulas e pelas falsas esperanças que geram.

Até Stern, da Film School, se pergunta se a arte de escrever pode ser ensinada. "Talvez não. Um programa pode dar muito. Pode ensinar atalhos e compartilhar sabedoria e experiência valiosas -certamente pode dar um início. Mas no fim, é ficar sozinho em um quarto esperando ter uma boa idéia."

Outros questionam o valor de aprender a escrever um roteiro perfeito quando a triste verdade é que Hollywood não quer um roteiro perfeito: quer uma boa idéia, que invariavelmente vai entregar a uma sucessão de outros autores para reformularem-na e tornarem-na algo que o autor original nem reconhecerá.

Outros críticos sentem que a vasta rede de serviços de apoio, manuais e sites da Web não enfatizam como ser roteirista pode ser um exercício de futilidade interminável. John Sayles diz: "É escrever para agradar outro, e isso pode ser maçante. Se você quiser se expressar, escreva um romance."

Essas advertências, entretanto, não parecem desanimadoras diante da realidade que o roteiro é a melhor entrada para o centro criativo do processo de produção de um filme: é um passo inicial para a direção e até para o estrelato, como provou Sylvester Stallone com "Rocky" e Matt Damon com "Gênio Indomável".

O pagamento também não é ruim. Não é incomum hoje em dia autores iniciantes fecharem contratos de US$ 1 milhão (em torno de R$ 2 milhões) e roteiros de autores mais estabelecidos serem vendidos por US$ 2 ou US$ 3 milhões e chegaram até a US$ 4 e US$ 5 milhões (cerca de R$ 10 milhões). Em 1998, dois autores nunca produzidos fizeram uma venda de dois roteiros por US$ 8,5 milhões (aproximadamente R$ 17 milhões).

E o prognóstico de todos com quem conversei no ramo é que os preços vão continuar a subir com o resto do orçamento dos filmes de Hollywood. "Se você está investindo US$ 100 milhões ou até US$ 200 milhões em um filme", disse um produtor, "US$ 5 milhões ou até mais para um roteiro razoável é uma barganha."

Outros defensores da fé acham que já se foram os tempos em que a posição do roteirista em Hollywood era de cidadão de segunda classe. Eles apontam para o surgimento de uma nova classe de "autores poderosos" como Charlie Kaufman, Ron Bass (que lança roteiros com uma fábrica de sub-autores) e Joe Eszterhas (cujos nove últimos roteiros lhe deram mais de US$ 20 milhões, ou cerca de R$ 40 milhões).

Shane Black, cuja taxa de US$ 4,5 milhões (em torno de R$ 9 milhões) para "The Long Kiss Goodbye" iniciou a alta do roteiro em 1996, continua otimista com a profissão, apesar de muitas desilusões nos últimos anos. "Acho que escrever roteiros pode ser um trabalho muito satisfatório -não só financeiramente, mas também espiritualmente. Os filmes são um esforço coletivo, e uma certa quantia de cessões é necessária. Mas apenas um tolo comprometerá seriamente o elemento que inspirou todos a fazerem o filme -que usualmente é o roteiro. Então as histórias horríveis são mais exceção do que regra."

"E sejamos honestos: um roteiro tem um poder atualmente que não se compara com nenhuma outra forma literária. Os filmes de Hollywood são um denominador comum da cultura global. Ver suas idéias e personagens terem um impacto nesse nível é um raro privilégio. O que poderia ser melhor que isso?" Deborah Weinberg

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