Derrotados lutam por segunda chance em eleição

Margaret Talev
McClatchy News Service
Em New Hampshire

Enquanto os estrategistas democratas discutem qual novo nome deverão apoiar para tentar retomar a Casa Branca em 2008 --a senadora Hillary Clinton ou talvez um candidato menos controverso, que já tenha experiência como governador--, pelo menos dois democratas que tiveram a sua chance de concorrer à presidência e perderam estão se preparando para uma nova tentativa.

O senador John Kerry e o seu ex-companheiro de chapa John Edwards anunciaram que estão pensando seriamente em disputar novamente a vaga na Casa Branca.

O ex-vice-presidente Al Gore, que perdeu no "tapetão" para o presidente Bush na conturbada disputa de 2000, tem repelido as versões segundo as quais concorreria novamente à presidência. No entanto, ele não tem desprezado a exposição na ribalta política. Gore é o astro de um documentário prestes a ser lançado sobre o aquecimento global, e no início deste ano fez um discurso contundente acusando o programa de interceptação de comunicações do presidente, afirmando que a lei foi violada.

Mas se qualquer destes homens se engajar realmente em uma campanha presidencial, terá a história contra si.

Em apenas três casos desde a era da Guerra Civil, um candidato a presidente ou vice-presidente que fez parte de uma chapa derrotada, democrata ou republicana, foi capaz de chegar à presidência em uma eleição subseqüente: Grover Cleveland, Franklin Delano Roosevelt (democratas) e Richard Nixon (republicano).

A lista daqueles que tentaram mas fracassaram é consideravelmente maior.

William Jennings Bryan, Thomas Dewey, Adlai Stevenson, Walter Mondale e Bob Dale foram novamente indicados para concorrer à presidência após uma derrota anterior, mas nenhum deles foi bem-sucedido na eleição geral. Bryan foi derrotado três vezes. E outros, que disputaram a presidência e perderam, não conseguiram uma nova indicação do partido para disputar novamente: Ed Muskie, Dan Quayle e Joe Lieberman.

Os desafios são diferentes para aqueles candidatos que não obtêm a indicação do partido e disputam novamente. Para os republicanos, especialmente, o fato de o candidato ser vetado para a corrida presidencial costuma gerar uma espécie de "dívida política" a ser quitada na próxima disputa . O presidente Ronald Reagan talvez seja o melhor exemplo moderno disso. O senador pelo Arizona, John McCain, que não obteve a indicação em 2000, e que está pensando em concorrer em 2008, pode acalentar esperanças a partir dessa tradição.

Mas quando um candidato obtém a vaga para disputar a presidência e a seguir perde a eleição, a história sugere que é improvável que ele conquiste a confiança dos eleitores por uma segunda vez.

"A idéia é a de que a pessoa teve a sua chance e perdeu", explica James Pfiffner, professor de políticas públicas da Universidade George Mason, que escreveu e editou vários livros sobre a presidência. "Outras figuras do partido passam a dizer: 'Ei! Esta é a minha vez, e você não teve sucesso da última vez'. E os eleitores têm a impressão de que o candidato mostrou-se incapaz no pleito anterior. Eles podem achar que o candidato estragou tudo, ou simplesmente que ele não conta com os atributos necessários para ganhar".

Kerry e Edwards têm viajado pelo país, arrecadando verbas para os democratas que disputarão cargos eletivos neste ano e fazendo discursos sobre questões que eles acham que terão ressonância na próxima eleição presidencial. Ambos fizeram visitas repetidas a New Hampshire, que é o Estado no qual é realizada a primeira primária para a escolha do candidato à presidência. Kerry retorna a New Hampshire neste domingo (23/04) para arrecadar verbas para os candidatos democratas que disputam uma vaga no Senado pelo Estado.

Edwards esteve em New Hampshire na última quinta-feira pela quinta vez desde a eleição de 2004.

Ele visitou uma loja que doa roupas a mulheres pobres que retornam ao mercado de trabalho, e a seguir se engajou em um esforço de arrecadação de verbas para os candidatos ao legislativo.

Em ambas as ocasiões, o ex-senador pela Carolina do Norte se referiu à pobreza como sendo "a grande questão moral dos nossos dias". Entre os dois eventos, ele reiterou um tema de campanha que utilizou na eleição passada, ao se referir à disparidade entre ricos e pobres nos Estados Unidos.

"A verdade é que o conceito de 'duas Américas' é mais forte hoje do que era três anos atrás", disse ele aos repórteres. Edwards evitou responder às perguntas relativas aos desafios para a montagem de uma estratégia de retorno, afirmando que ainda não decidiu se concorrerá.

Na quinta-feira, Kerry falou em um fórum econômico latino nas Nações Unidas que está pensando seriamente em concorrer novamente à Casa Branca.

"Tomarei essa decisão até o final do ano, mas estou pensando bastante sobre isso", disse Kerry.

Stephen J. Wayne, professor da Universidade Georgetown e especialista em questões presidenciais, disse que um problema persistente para Gore, que também foi criticado como sendo muito rígido, pode ser o fato de ele ter decepcionado muitos democratas ao se distanciar do presidente Clinton devido ao escândalo sexual em que este último se envolveu.

Quanto a Kerry, Wayne afirmou: "Tenho a sensação de que ele já teve a sua chance".

Em relação a Edwards, Wayne acredita que é menos provável que os eleitores atribuam a derrota em 2004 a ele do que a Kerry --mas Edwards também terá que trabalhar arduamente para construir as suas credenciais.

Duas mulheres que encontraram Edwards na loja Dress for Success em Concord concordaram de maneira geral com a avaliação de Wayne. Terri Tedeschi, 46, uma conselheira profissional que apoiou a chapa Kerry-Edwards em 2004, disse que veria com mais entusiasmo uma nova disputa em que o candidato fosse Edwards, e não Kerry, já que a sua intuição lhe diz que Kerry perderia novamente.

"Por algum motivo, ele não é aquilo que este país deseja", afirmou ela.

Já Karen Davies, 60, ex-cliente da Dress for Success, disse que vê em Edwards um sólido companheiro de chapa para o próximo candidato democrata.

"Sou capaz de visualizar uma chapa Hillary-Edwards", disse ela. "Mas neste momento não acredito que ele concordasse com tal opção".

Edwards, que obteve fama e dinheiro como advogado de tribunais, tem aprimorado o seu conhecimento sobre as relações entre Estados Unidos e Rússia, e deverá fazer um discurso importante no final deste mês em uma conferência sobre a globalização em Bruxelas. Ele também está dirigindo um centro para o estudo da pobreza.

Kerry, que se baseia na sua experiência como veterano do Vietnã para falar sobre o Iraque, visitou 20 Estados desde a eleição de 2004, representando outros candidatos, tendo já arrecadado mais de US$ 7 milhões para os democratas. É um esforço que alguns cientistas políticos comparam à estratégia de retorno utilizada por Nixon.

Após perder a corrida presidencial de 1960 e a disputa pelo governo da Califórnia em 1962, Nixon concentrou as suas energias em ajudar outros candidatos republicanos a ganhar eleições, construindo uma estrutura de boa-vontade para com a sua candidatura de 1968, que foi vitoriosa.

Gore não respondeu a um pedido de entrevista. Mas os historiadores observam que nos dois casos em que um candidato à presidência venceu nos votos populares mas perdeu a presidência devido aos votos no colégio eleitoral, os derrotados foram capazes de disputar novamente e vencer. Foi o que ocorreu com Andrew Jackson, que perdeu em 1824, mas venceu em 1828, e com Cleveland, que venceu em 1884, perdeu em 1888, e ganhou novamente em 1892.

Isso poderia injetar otimismo em uma futura campanha de Gore, que em 2000 obteve o maior número de votos populares, sem entretanto ganhar a eleição.

Kerry, por intermédio de um assessor, se recusou a falar a respeito das vulnerabilidades que poderia enfrentar caso decidisse concorrer novamente.

Em uma resposta por e-mail, John Giesser, que dirige o comitê de ação política de Kerry, afirmou: "As eleições dizem respeito ao futuro e cada eleição rompe tradições e convenções do passado... Os fatos transformarão o debate nacional. As pessoas que decidirem mirar 2008 com os olhos fixos no espelho retrovisor estarão cometendo um erro".

Há também que se considerar o cenário político mais vasto de 2008.

Bruce Buchanan, professor de assuntos governamentais na Universidade do Texas em Austin, disse que a modificação do sentimento popular contra o presidente Bush e a guerra no Iraque após a sua reeleição poderia fortalecer positivamente as impressões retrospectivas em relação aos candidatos democratas que, anteriormente, decepcionaram ao enfrentarem Bush.

"A história não é uma camisa-de-força", disse Buchanan. "Ela leva em conta as opções existentes, a magnitude das derrotas e o nível de descrédito do indivíduo ou do partido que venceu. Ela não funciona de forma isolada, baseada em frases simplistas como, 'Você perdeu!'. Uma derrota precisa ser contextualizada entre todos os outros fatores".

Se Hillary Clinton mantiver a sua liderança nas pesquisas democratas iniciais sobre a preferência do eleitorado, isto poderá neutralizar as iniciativas de um candidato do partido que já disputou a presidência anteriormente, dizem os analistas. Mas se os moderados do partido se voltarem contra ela, ou se a senadora decidir não concorrer, o horizonte da disputa entre os democratas poderá se ampliar.

"Esta é a síndrome do 'Esperando Godot'", afirma Tom Rath, membro do Comitê Nacional Republicano e ex-procurador-geral de New Hampshire. "Enquanto esse espaço estiver aberto, eles dirão, 'Talvez eu devesse manter um pé na porta de entrada da campanha, só por garantia'". Candidatos que já concorreram à presidência têm pela frente uma rota difícil rumo à Casa Branca, na busca de uma nova candidatura Danilo Fonseca

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