Ex-presidente da Enron diz que acreditava que empresa se recuperaria em 2001

Mary Flood
do Houston Chronicle
em Houston

Ken Lay via um futuro brilhante para a Enron quando retomou as rédeas como executivo-chefe em 2001 e não pôde prever a falência iminente, assim como não tinha idéia do roubo em andamento de Andrew Fastow, depôs o ex-executivo na terça-feira.

"De fato, eu acreditava que a empresa estava fundamentalmente sólida e que o balancete estava forte", disse Lay, defendendo sua alegação de que a Enron era uma empresa vibrante que tombou por uma "corrida ao banco", não por ganância, corrupção e conspiração como os promotores alegam. "Eu acreditava nisto naquele momento. Eu ainda acredito nisto."

Ele disse que tentou colocar em ordem as áreas problemáticas da empresa no terceiro trimestre de 2001 e estava feliz com o progresso.

"Eu me sentia bem com o que estava acontecendo", disse Lay sobre o anúncio, em 16 de outubro de 2001, de ganhos no terceiro trimestre, apesar de incluir uma queda de US$ 1,2 bilhão na participação acionária.

"Nós tivemos uma resposta muito forte em um mercado fraco", disse Lay sobre a época em que o valor das ações da Enron já tinham caído para cerca de US$ 35, em comparação ao valor máxima atingido pelas ações, US$ 90. "Eu pensava que talvez finalmente fôssemos começar a reverter a situação naquele e momento e retornar a um território de preço de ações no qual estaríamos mais à vontade."

Mas Lay não poderia estar mais errado. A Enron basicamente tinha só mais seis semanas de vida.

Na terça-feira, ele conduziu os 12 jurados e quatro suplentes por sua
narração passo a passo dos últimos dias da Enron e do triunvirato que ele considera ter sido responsável pelo colapso da empresa -o roubo de Andrew Fastow, a caça às bruxas do "Wall Street Journal" e o conluio dos "short sellers".

Foi o segundo dia de Lay no banco das testemunhas na 13ª semana de seu
julgamento por conspiração e fraude juntamente com o co-réu Jeff Skilling, cuja renúncia repentina em agosto de 2001 fez com que Lay retomasse o cargo de executivo-chefe.

Foi outro longo dia com Lay e seu advogado, George "Mac" Secrest, se
arrastando por datas e muitos eventos sobre os quais o júri já tinha ouvido anteriormente.

Lay, que declarou veementemente sua inocência em todas as seis acusações apresentadas contra ele, disse que seu otimismo sobre o futuro róseo da Enron foi eliminado na manhã de 17 de outubro de 2001, quando acordou em Nova York, preparado para falar sobre a empresa para analistas e investidores, e viu o artigo prejudicial do "Wall Street Journal" sobre a Enron.

"O mercado não estava negativamente surpreso", disse Lay sobre o relatório do terceiro trimestre. "Mas o 'Wall Street Journal' decidiu transformá-lo em uma manchete negativa."

Foi o início de uma série de artigos concentrados em Fastow e suas parcerias fora dos livros. Apesar de Lay ter dito que ele e seu conselho achavam que as parcerias LJM e os veículos Raptor relacionados tivessem sido "amplamente estudados" pelos auditores e advogados e que salvaguardas tivessem sido implementadas para prevenir conflitos, elas se tornaram o foco da crescente atenção da mídia.

"Nós pensávamos, na verdade, que o 'Wall Street Journal' estava em uma caça às bruxas por Andy Fastow e talvez a Enron", disse Lay.

Lay disse que o conselho já tinha desemaranhado e "write off" (dar baixa como prejuízo) os Raptors no valor de US$ 1 bilhão naquele trimestre encerrado, e que Fastow já estava fora das parcerias LJM, ou ao menos foi o que ele informou aos seus superiores. "Nós pensávamos que tudo aquilo tinha ficado para trás e agora estava virando notícia", disse Lay.

O conselho e Lay apoiaram Fastow naquele momento, o vendo como alguém sendo linchado injustamente.

À medida que as histórias continuavam saindo, disse Lay, sua empresa
continuava lutando. Ele lembrou de uma teleconferência em 23 de outubro com analistas durante a qual um operador de fundo hedge, que ele considerava um "short seller" -alguém que está apostando na queda de uma ação- ficou pressionando por detalhes específicos.

"Ele estava tentando plantar sérias sementes de dúvida", disse Lay,
explicando aos jurados o motivo de ter interrompido o operador.

Lay disse que o conselho achava que Fastow tinha ganho pouco dinheiro,
talvez US$ 1 milhão, em seu trabalho com as parcerias LJM e que sua renda principal vinha da Enron. "Nós achávamos que contávamos com salvaguardas adequadas", disse Lay.

Mas, ele disse, eles começaram a perceber que "talvez Andy Fastow não era o que representou ser nos últimos dois anos. (...) Começou a parecer que nossa confiança nele era infundada".

Quando Fastow disse a dois membros do conselho que tinha ganho US$ 45
milhões nos acordos das empresas paralelas com a Enron, "houve uma forte reação do conselho", disse Lay.

"Eu fiquei chocado com os US$ 45 milhões", disse Lay. Ele disse que se
sentiu traído por Fastow e que o conselho decidiu afastá-lo.

Lay foi ao escritório de Fastow e disse: "Nós gostaríamos que empacotasse seus pertences pessoais o mais rápido possível e deixasse o prédio".

Fastow, que já se declarou culpado de duas acusações criminais e enfrenta 10 anos de prisão, tentou negociar um pagamento rescisório de US$ 5 milhões.

"Eu disse: 'Raios, não, Andy. Recolha suas coisas e deixe o prédio'",
lembrou Lay. "Eu deixei a sala naquele momento."

Ao negar que tivesse mentido sobre a saúde da empresa aos investidores,
analistas e funcionários, Lay contradisse o depoimento de Fastow várias
vezes. Lay disse: "Eu não me lembro dele ter me dito que a situação da
empresa era ruim", como alegou Fastow. "Eu acho que me lembraria disto."

E Lay contestou a versão de Fastow de uma reunião com a Goldman Sachs.
Fastow disse ela visava ajudar a Enron a encontrar uma forma de recuperar a saúde financeira. Lay disse que ocorreu porque a Goldman Sachs propôs proteger a Enron de uma tomada hostil, já que as ações da empresa estavam desvalorizadas, a tornando um alvo.

"Com aqueles preços eles acreditavam que seríamos atraentes para outras
empresas", disse Lay.

"Isto parece estar em conflito com a noção de que a Enron estava em
dificuldades financeiras", disse Secrest.

"Absolutamente", respondeu Lay.

Ele disse aos jurados que "o prego no caixão da Enron" veio quando o
conselho descobriu, em novembro de 2001, que a empresa teria que rever uma relatório em US$ 400 milhões devido a um acordo paralelo chamado "Chewco".

Secrest perguntou a Lay sobre todos os nomes estranhos das transações da Enron, incluindo Condor, Whitewing, Marlin e Truman. O advogado perguntou de onde vieram.

"Não faço idéia", disse Lay.

"Bobcat?" Secrest acrescentou.

"Eu acho que na maioria dos casos os nomes são inventados pelos autores, ou patrocinadores, da transação", disse Lay, notando que nomes em código para projetos são comuns no setor.

Lay teve a chance de negar especificamente várias das acusações no
indiciamento e basicamente disse aos jurados que como tinha sido informado que a empresa estava bem e ele acreditava que ela estava bem- especialmente na divisão de atacado, divisão de dutos e divisão de varejo- que ele não mentiu aos funcionários, agências de crédito e outros.

O ex-executivo-chefe disse quando contou aos funcionários que tinha comprado US$ 4 milhões em ações em outubro de 2001, omitindo que tinha vendido cerca de US$ 24 milhões de volta para a empresa, que ele não estava mentindo.

Lay continuará seu depoimento na quarta-feira, com os promotores iniciando suas perguntas na noite de quarta-feira ou na quinta-feira. Ex-alto executivo alega que não estava ciente do roubo de Fastow George El Khouri Andolfato

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