Nação se pergunta se ataques de 11 de setembro são recentes demais para a telona

Adam Graham
do Detroit News

Os ataques terroristas de 11 de setembro chegaram à telona pela primeira vez na sexta-feira (21/4) com "United 93" (Vôo 93), uma dramatização sobriamente intensa do vôo da United Airlines seqüestrado que caiu no interior da Pensilvânia no dia 11 de setembro de 2001.

A pergunta é: as pessoas vão querer assistir? Será cedo demais?

Com os ataques atormentadores ainda frescos em nossa memória coletiva, alguns americanos talvez prefiram manter distância do filme. Outros porém acham que será catártico e terapêutico para os que continuam traumatizados pelos eventos devastadores de 11 de setembro.

Ainda assim, "é uma tremenda aposta comercial e de relações públicas. É como colocar sal em uma ferida que talvez ainda não tenha curado", disse Gary Hoppenstand, professor de estudos de cultura pop da Universidade Estadual de Michigan.

"Não é igual a um filme feito hoje sobre Pearl Harbor, quando já se passou metade de um século para suavizar o golpe. Talvez seja recente demais e doloroso demais lidar com isso em um filme tradicional de Hollywood."

A Universal Pictures -que está lançando o filme nacionalmente em aproximadamente 1.700 telas- espera que não seja o caso, assim como os produtores de outros projetos de 11 de setembro em andamento.

"Vôo 93" será seguido em agosto pelo "World Trade Center" em que Nicolas Cage faz o papel de um policial que fica preso nos destroços das Torres Gêmeas depois de ajudar as pessoas a escaparem dos prédios em queda.

No entanto, "Vôo 93" e "World Trade Center" são inovadores em sua abordagem de um assunto que muitos ainda consideram tabu para Hollywood, mesmo perto de seu quinto aniversário.

Jerry Herron, professor de Estudos americanos da Universidade Estadual de Wayne, disse que ao menos para os padrões hollywoodianos, a hora é certa para um filme como "Vôo 93".

"É recente o suficiente para reter seu poder histórico, mas não distante o suficiente para as pessoas esquecerem os detalhes", disse ele.

Ele diz que, na história americana, os filmes ajudaram a formular nossa visão de mundo e nos permitiram resolver com eventos que nos abalaram até a alma.

"Talvez mais do que qualquer outro povo, usamos os filmes para tentar definir nossa consciência histórica do que está acontecendo e o que significa", disse Herron. "Os filmes são como contamos aos outros o que sentimos em relação às coisas que aconteceram conosco."

E o cinema, como toda boa arte, pode nos ajudar a lidar com as tragédias da vida, disse Pat Santy, psiquiatra na Universidade de Michigan.

Ela disse que as pessoas reagiram tão fortemente até aos trailers de "Vôo 93" porque o sofrimento em torno de 11 de setembro em grande parte ainda não está resolvido.

"Não posso compreender porque Hollywood evitou discutir isso", disse ela. "É o principal trauma desta nação, e devemos enfrentá-lo. Mesmo que (o filme) nos faça chorar, acho que ficaremos melhor depois. Se não pudermos olhar aquilo que nos amedronta, se puxamos a coberta por cima da cabeça, então acreditarei que estamos com um grande problema neste país."

Apesar de imaginar que o filme seja perturbador e triste, Jenn Solan, de Grosse Pointe Park, planeja assisti-lo para compreender melhor o que aconteceu a bordo do vôo United 93.

"É como se você se forçasse a ver", disse Sloan, 25. "É quase como um acidente na estrada. Você passa ao lado, mas não consegue evitar olhar."

Joe Fox, nova-iorquino proprietário da produtora de filmes Fly on the Wall, estava perto das torres quando os aviões as atingiram no dia 11 de setembro.
Ele disse que vai ver o filme, mas entende as pessoas que não querem assisti-lo.

"Isso vai muito fundo no coração das pessoas", disse ele. "Mas acho que filmes como esse são realmente importantes porque temos uma tendência a esquecer, e a tendência a colocar a dor para trás. E acho que esse é um evento desse tipo -com o tempo, precisamos ser lembrados."

Depois de 11 de setembro, as imagens das Torres Gêmeas ficaram tão estigmatizadas que foram apagadas dos filmes, e as pessoas se perguntavam quando os artistas estariam prontos a tratar dos eventos daquele dia.

Mas os temas terroristas logo se tornaram prevalentes em programas como "24", e lentamente o setor de entretenimento começou a inserir tópicos de 11 de setembro em seu material.

Bruce Springsteen gravou um disco inteiro sobre os ataques em "The Rising", de 2002. No mesmo ano, Neil Young compôs "Let's Roll", baseado no que muitos acreditam foi uma frase de um dos passageiros a bordo do vôo 93 da United antes de tentarem assumir o controle do avião da mão dos terroristas.

Em 2002, "The 25th Hour", de Spike Lee, mostrou Nova York lidando com 11 de setembro, assim como "The Guys", de Jim Simpson. O controverso "Fahrenheit 9/11" de Michael Moore -que dissecou a resposta ao presidente Bush aos ataques- foi um arraso surpreendente em 2004.

Os ataques foram abordados também pela televisão. Por exemplo, o "Vôo 93" da A&E estreou em janeiro e foi o programa de maior ibope da rede de todos os tempos. Mas os eventos de 11 de setembro não foram levados à telona até agora.

"Vôo 93" tem um elenco desconhecido e usa um formato acadêmico, estilo documentário. O diretor britânico Paul Greengrass ("Domingo Sangrento", "A Supremacia Bourne") tem uma abordagem decididamente não-hollywoodiana do assunto, nunca tratando das motivações dos personagens ou de histórias paralelas. A maior parte dos passageiros não é citada por nome- e ele recusa-se a tomar lados.

Em vez disso, coloca o público a bordo do avião e apresenta a história de forma direta, usando relatos variados e telefonemas feitos do avião antes de cair em seu caminho para o Capitólio americano.

A Universal esforçou-se para reiterar que o filme foi feito com a aprovação das famílias das pessoas a bordo do vôo fadado. Quando o público em Nova York reclamou no mês passado que o trailer do filme era intenso demais, os cinemas receberam um material alternativo, ressaltado o envolvimento das famílias das vítimas no processo de produção.

A reação crítica ao "Vôo 93" foi positiva, com Richard Roeper de "Ebert & Roeper" chamando-o de melhor filme do ano até agora.

No entanto, como salienta o analista Gitesh Pandya: "Mesmo que seja bom, pode perder muitos espectadores." Ele disse que muitas pessoas em Nova York vão evitar o filme. Mas em outras partes do país fala-se muito do filme e o interesse pode reforçar a bilheteria.

Pandya disse que "Vôo 93" é similar à "Paixão de Cristo" -está se tornando um evento obrigatório, não apenas um filme. Ele também acredita que o poder do filme ajudará a aumentar as vendas.

"Acho que muitas pessoas querem essa intensidade", disse ele. "Muitos filmes atualmente são tão monótonos que não comovem. Há cada vez menos filmes que realmente atingem o espectador, e acho que este é um deles."

Pais que estão considerando levar os filhos para o filme devem ser advertidos de que é extremamente intenso e assustador, ainda mais pelo fato de os eventos serem reais.

"O problema com este filme em particular é que está relacionado com um evento verdadeiro, que aconteceu aqui em casa. As crianças hoje vêem filmes horríveis que são 10 vezes mais intensos do que este, mas a diferença é que são ficção, e este é real", disse Orlando Villegas, psicólogo infantil em Detroit e Livonia.

Villegas disse que os parentes devem estar preparados para ter uma discussão aberta sobre terrorismo, heroísmo e o papel dos EUA no mundo após a sessão.

"A conversa tem que ir até o fim; há que se falar sobre pessoas odiando pessoas, pessoas discordando e lutando por idéias", disse ele. "Tem que ser muito profundo."

Hoppenstand da MSU vê o potencial de cura no filme.

"Como foi um momento tão poderoso, traumático e definidor para os EUA, este filme em certo sentido permite um tipo de catarse para as pessoas que ainda estão profundamente sentidas com o que aconteceu", disse ele. "E há uma dimensão de heroísmo diante do terrorismo e da terrível tragédia. É uma história de uma pessoa comum que se ergue em uma terrível situação e, em certo sentido, isso é tipicamente americano." Deborah Weinberg

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