Cinco anos depois, as pessoas próximas de Chandra Levy ainda sentem sua perda

Michael Doyle
Em Washington
do McClatchy News

Susan Levy experimentou o tango.

Ela cavalga. Faz exercícios, furiosamente. Ela canta a plenos pulmões; ainda assim, ao amanhecer, todas as distrações se afastam e ela volta a se lembrar.

"Eu acordo toda manhã", disse Susan, "e a primeira coisa em que penso é: 'minha filha não está aqui'".

Há cinco anos, em 30 de abril de 2001, Chandra Levy foi vista pela última vez na capital do país. Seu restos mortais foram no final encontrados no Parque Rock Creek, em Washington. Os investigadores disseram que identificaram uma "pessoa de interesse" enquanto buscam por suspeitos e continuam colhendo depoimentos, mas o assassinato ainda não tem solução.

O que vem espontaneamente agora são imagens que não descansam.

Como quando Susan Levy acorda, ou quando James Lau está patinando sob o sol do Sul da Califórnia. Então elas aparecem. Lau repentinamente se lembra de sua colega de escola que era surpreendentemente hábil nos patins.

"Eu me vejo fazendo algo que me faz recordar dela", disse Lau, "e começo a pensar e isto me deixa triste".

Lau, atualmente com 31 anos, trabalha para uma entidade que atende crianças sem fins lucrativos em Santa Mônica. Ele e outros do círculo de Chandra na Universidade do Sul da Califórnia ainda se encontram, apesar de Lau ter notado que "não falamos mais sobre ela". Tanta coisa ocorreu desde que Levy foi vista pela última vez: 11 de setembro, a guerra no Iraque, o fim da carreira política do suposto amante dela, Gary Condit, e, para seus antigos colegas de escola, a chegada da idade adulta plena que nem todos alcançam.

E cada um lida à sua própria maneira. Bob, o pai de Chandra, um oncologista de Modesto, encontra salvação no trabalho. Susan Levy busca caminhos diferentes. Após alguns anos turbulentos que incluíram uma depressão aguda e uma séria cirurgia na vesícula biliar, ela parece estar se recuperando e pronta para algo bom.

"Cinco anos de espera parece uma eternidade para uma família amorosa que sofreu uma perda tão trágica", disse Fran Iseman, a madrinha de Chandra.

Em Washington, os investigadores enfrentam isto não desistindo. O capitão C.V. Morris, comandante da divisão de crimes violentos do Departamento da Polícia Metropolitana de Washington, disse em uma entrevista na sexta-feira que "nós temos uma pessoa de interesse", que ele definiu como "alguém na qual o departamento está de olho, alguém que estamos vigiando", mas ele notou que isto fica aquém de ter um suspeito de fato.

"Será necessário que alguém confesse o crime", disse o agente especial do FBI, Brad Garrett, em uma entrevista na sexta-feira, quando perguntado o que será necessário para solucionar o crime.

E nos no extremo norte de Phoenix, em uma casa em meio ao deserto situada entre as comunidades Carefree e Wrangler's Roost, o ex-deputado Condit joga com as cartas que, de certa forma, deu a si mesmo.

"Ele está bem", insistiu a mãe de Condit, Jean, enquanto estava na entrada da casa de seu filho.

É claro, é mais complicado que isto. Um detentor de cargo público por toda a vida, que ascendeu de prefeito de Ceres há 14 anos servindo como deputado, Condit agora está publicamente e politicamente acabado. Isto representa o inferno para um legislador de 56 anos, naturalmente hábil, que impulsionou a nova Universidade da Califórnia no campus de Merced, promoveu a construção de estradas locais e conquistou lealdades locais consideráveis por seus esforços.

"A imprensa o crucificou", disse Adrian, o pai de Condit, às lágrimas, "e lhe tirou aquilo em que passou toda sua vida trabalhando".

Condit, que atualmente está trabalhando em vários negócios no Arizona, não respondeu aos múltiplos pedidos de entrevista.

Para os investigadores a vida também prossegue de formas complicadas. O
assassinato de Chandra Levy é apenas um dos 150 homicídios não solucionados em Washington, D.C., registrados entre 1º de janeiro de 2001 e 24 de março de 2006, segundo o site na Internet do Departamento da Polícia Metropolitana de Washington.

"Eu não acredito que estamos mais perto de solucioná-lo", disse Terrance W. Gainer, ex-vice-chefe de polícia de Washington, D.C., e "as chances são de ficar ainda mais difícil à medida que o tempo passar".

Mas Garrett, um perceptivo investigador de 57 anos que já lidou com alguns casos de destaque do FBI, contesta a noção de que crimes antigos são mais difíceis de solucionar. Há pelo menos uma coisa a favor: com o término de grande parte da agitação da mídia, há menos distrações.

"Às vezes", disse Garrett, "quando você volta a procurar as pessoas, é
diferente. Elas podem ter mudado".

Na esperança de descobrir algo novo, a família Levy montou recentemente um novo site na Internet que pede pistas às pessoas. O site,
www.whokilledchandra.com, busca "postagens de fontes não procuradas
anteriormente", disse Steve Mandell, o advogado de Levy em Washington.

Periodicamente, novas teorias surgem e desaparecem. Um guatemalteco
atualmente na prisão sob acusação de ter atacado duas mulheres no Parque Rock Creek, Ingmar Guandique, já foi visado para o teste do polígrafo pelo assassinato de Levy. Guandique atualmente está cumprindo pena de 10 anos em uma prisão de segurança máxima em Marion, Illinois, que freqüentemente recebe presos problemáticos.

Chamado de "predador" pelos promotores federais, que conseguiram que o réu guatemalteco se declarasse culpado de duas acusações de ataque com a intenção de roubo em 2001, Guandique teria se recusado por meio de seus defensores públicos a se submeter a um segundo teste do polígrafo.

Nem Morris e nem Garrett identificaram Guandique como uma "pessoa de interesse" específica, mas ele claramente os interessa.

"Ele é certamente uma pessoa que tinha uma história em Rock Creek Park", disse Garrett, "e é o tipo de indivíduo que claramente temos que olhar".

Nenhuma das duas mulheres atacadas por Guandique, nem qualquer outra das 149 vítimas de homicídios não solucionados no Distrito de Colúmbia nos últimos cinco anos, atingiu a fama desagradável de Chandra Levy.

Criada em Modesto, Levy veio para Washington em 2000 como parte do estágio em assuntos públicos de seu curso de doutorado. Ela estagiou no Birô de Presídios. Em outubro daquele ano, aos 23 anos, ela conheceu Condit. Assim que ela desapareceu, a exata natureza do relacionamento dela com o político 30 anos mais velho provocou intensa especulação.

"Nós éramos amigos", disse Condit ao promotor Paul LiCalsi, durante um
depoimento em setembro de 2004.

"O relacionamento entre vocês se tornou romântico?", perguntou LiCalsi.

"Não", respondeu Condit.

"O relacionamento entre vocês seria o que as pessoas consideram um caso?" perguntou LiCalsi, provocando algumas contestações legais.

"Não era um relacionamento romântico", disse Condit, explicando que ele
considera um relacionamento romântico "um de afeto incomum, onde você dá atenção à pessoa e assim por diante".

Mas Condit nunca contestou os relatos públicos de que no final reconheceu para a polícia que manteve relacionamento sexual com Levy. O terceiro e crucial depoimento de Condit para as autoridades ocorreu em 2001, cerca de 67 dias após o desaparecimento de Levy. Gainer ressaltou que "teria sido de maior ajuda se dispuséssemos de toda a informação necessária antes" na investigação.

Há muitos tortuosos "e se". E se Condit tivesse sido mais franco com a
polícia desde o início? E se Condit tivesse se encontrado antes com a
família Levy e tivesse sido franco, em vez de seguir a orientação do
advogado para ter cuidado com suas palavras; será que teria impedido o
rompimento que ajudou a acabar com sua carreira política? E se a polícia de Washington tivesse evitado alguns de seus aparentes erros, como a não obtenção do vídeo de segurança do apartamento?

Sobrecarregado pela publicidade negativa que se seguiu ao desaparecimento de Chandra, Condit perdeu sua cadeira na Câmara em 2002 para seu ex-assessor, o democrata Dennis Cardoza de Merced. Um amargurado Condit não fala com Cardoza desde então. Condit também se afastou da maioria de seus ex-assessores.

"Minha única comunicação com Gary desde que deixou seu cargo foi um
telefonema e o vi em um enterro em Ceres; nós apertamos as mãos", disse Mike Lynch, que trabalhou para Condit por 17 anos e agora é chefe de gabinete do Great Valley Center, com sede em Modesto.

Apesar de Condit ainda ser dono da casa do casal em Ceres, o ex-deputado e sua esposa, Carolyn, compraram em 2003 uma nova casa nos arredores distantes de Phoenix. A casa de 210 metros quadrados, pela qual pagaram US$ 238 mil, está cercada por um baixo muro de barro e vegetação local. Para chegar até ela, é preciso passar por currais e algumas estradas de pedrisco; a casa em si dá fundo para um canal seco e cactos arborescentes.

"Eles parecem ser uma família de pessoas agradáveis", disse Norren Lynn, que fazia uma pausa no banho no cavalo da filha, Bailey, em um curral próximo. "Eles têm sido bons vizinhos."

Chad, o filho de Condit, seu último diretor de campanha, também vive no
Arizona. No ano passado, como mostram os registros públicos do Arizona, a família estabeleceu a GC Farms and Excavation Inc. A empresa declara estar no ramo de "treinamento de cavalos e touros para rodeio e desenvolvimento de terras". Os Condits também operam uma sorveteria Baskin-Robbins em Glendale, um subúrbio de Phoenix. Eles evitam a imprensa e assumidamente odeiam repórteres.

"Os jornais nunca lhe deram crédito por tudo o que ele fez", disse Jean
Condit.

A Comissão de Práticas Políticas Justas da Califórnia considerou Chad, e sua irmã Cadee, culpados em um processo de US$ 2,4 milhões. As autoridades estaduais disseram que os filhos de Condit usaram indevidamente os fundos de campanha do pai para fins particulares. O advogado de Cadee Condit disse que o Estado está indo longe demais ao exigir US$ 2,4 milhões em um caso envolvendo US$ 226 mil em fundos de campanha.

"Isto me recorda pessoas que impetram processos pedindo por US$ 50 milhões", disse Mark Geragos, um advogado baseado em Los Angeles que também representou Scott Peterson, um assassino condenado.

Geragos caracterizou Cadee como sendo "uma recebedora inocente" dos fundos do comitê de ação política. Geragos acrescentou que ele não sabe quem representa Chad Condit, apesar de ainda conversar periodicamente com Gary.

"Ele é um sujeito cuja carreira foi destruída sem motivo algum", disse
Geragos.

Geragos foi um de pelo menos quatro advogados que representaram Condit,
sendo que nem todos apreciaram a experiência. O primeiro advogado de Condit, Joe Cotchett, ficou frustrado quando seu cliente não seguiu sua orientação.

O advogado seguinte de Condit, Abbe Lowell, defendeu agressivamente seu
cliente em público, mas igualmente parecia mais do que disposto a seguir em frente. Mas os aliados da família Levy também tiveram seus problemas com advogados. Billy Martin, que representou a família Levy, alienou algumas pessoas próximas de Chandra ao parecer inacessível.

Mas, de qualquer forma, há um limite ao que os advogados podem fazer; nem toda dor pode ser compartilhada ou processada na Justiça.

Incomodamente, mensagens excêntricas de estranhos periodicamente perturbam os Levys. Susan fica louca com isto e se pergunta o que significam -mas o que ela pode fazer?

Ainda assim, ela resiste. Ela encontra novos caminhos, como promover as
fitas púrpuras para serem usadas por pessoas que perderam entes queridos por assassinato. E aqui, talvez, sejam resumidos os dois lados do pesar. Há uma solidão absoluta -"você fica perambulando por aí", disse Susan, "você está praticamente sozinha"- mas então pode surgir uma comunidade de consolo.

"Eu realmente sinto que as pessoas precisam saber", disse Susan, "quantos de nós existem por aí". George El Khouri Andolfato

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