French Quarter traz de volta agitação e turismo para Nova Orleans

Greg Haymes
em Nova Orleans, na Louisiana
do Albany Times Union

Nos dias de hoje, Nova Orleans é um conto da vida real sobre duas cidades.

Grande parte da fabulosa Crescent City está reduzida a ruínas, oito meses após a devastação causada pelo furacão Katrina.

Construções desabaram devido ao vento e à enchente.

Bairros inteiros foram varridos do mapa.

E o povo que habitava a cidade está, em grande parte, espalhado pelo país, morando em residências temporárias - e em muitos casos permanentes - em Baton Rouge, Atlanta, Houston, Austin, Nashville e em qualquer outro local onde se sinta seguro, embora não necessariamente em casa.

Durante a recente eleição para prefeito, mais de 60% da população da cidade anterior ao furacão Katrina tiveram que votar à distância, porque ainda não são capazes de retornar às suas casas... ou porque não possuem mais casas para as quais retornar.

Mas o panorama é de fato bem diferente no French Quarter.

Lá, o estrago causado pela tempestade foi relativamente reduzido. A maior parte das lojas, restaurantes e hotéis está funcionando. A desinibida vida noturna na Bourbon Street e no adjacente French Quarter estava bastante viva e vibrante na semana passada por ocasião do French Quarter Festival, uma grande exibição local de orgulho e determinação.

Atraindo grandes multidões de turistas de todo o mundo, o festival gratuito, com a duração de três dias, contou com doze palcos ao ar livre, 120 apresentações e mais de mil músicos locais. Ele também trouxe a esperança de que o rico cenário musical de Nova Orleans seja a centelha que comece a despertar uma nova vida na cidade.

Pode demorar anos até que Nova Orleans se reerga, mas o French Quarter fez o toque de chamada para turistas e ex-moradores: "Venham todos. Que os bons tempos retornem".

"Nós chamamos a área de Sliver by the River (algo como "Pedaço à Beira-Rio") ou Isle of Denial (Ilha da Negação)", afirma o cantor Jesse "The Hoodoo Man" ("O Azarado") Moore, que mudou-se de Woodstock, no Estado de Nova York, para Nova Orleans três anos atrás, a pedido da sua amiga, Bonnie Raitt.

"Aqui no French Quarter tudo está quase normal. Para os turistas, isto aqui é como a velha e maravilhosa Nova Orleans, e 90% das pessoas que visitam Nova Orleans passam 90% do tempo no Quarter. Mas para aqueles que moram aqui, a coisa é diferente. É muito doloroso. Percebemos o contraste. Nova Orleans era um local muito colorido, mas a cidade agora é quase que um cenário em preto e branco. Sabemos que estamos fazendo algo como organizar uma festa em meio a um cemitério", diz Moore.

E há outras indicações de que, embora seja possível que Nova Orleans jamais volte a ser a mesma, a cidade possa simplesmente sobreviver - um feito que não é de se desprezar. Este final de semana marca o início do New Orleans Jazz and Heritage Festival, o maior evento anual da cidade além do Mardi Gras.

Uma série de super-astros, incluindo Dave Matthews, Jimmy Buffett e Bob Dylan se apresentarão, e Bruce Springsteen e Elvis Costello dividiram os holofotes na última sexta-feira. Houve ainda uma representação maior do que a comum de artistas locais. O festival - que vai da sexta-feira ao domingo - é um grande evento econômico. No ano passado ele gerou para a cidade uma renda de US$ 300 milhões.

"O cenário de música ao vivo está retornando à cidade - é claro que permeado do entendimento sobre o que ocorreu. Mas, sim, ele está sem dúvida retornando", declarou John Brunious, trompetista e veterano que participa há 19 anos da Preservation Hall Jazz Band. "A música aqui é muito, muito importante - não só para Nova Orleans, mas para os Estados Unidos, e, na verdade, para todo o mundo".

O lendário Preservation Hall - que abriga Brunious e sua banda - é a fonte de onde flui o jazz tradicional de Nova Orleans, mas o Hall estava fechado desde que o Katrina devastou a cidade. Ele foi reaberto na sexta-feira, 28 de abril, a tempo para a comemoração do seu 45º aniversário.

"O Hall não foi muito danificado", explica Brunious, 65. "A água não entrou no Quarter, de forma que o Preservation Hall não foi afetado pela inundação".

"Mas nós não podíamos de fato reabri-lo, porque não havia muita gente na cidade. Não existia uma platéia de fato. Esperamos que o French Quarter Festival e o Jazz and Heritage Festival tragam de volta essa platéia a Nova Orleans. Mas o Hall ficará aberto todas as noites", insiste ele. "O furacão Katrina pode ter nos desacelerado um pouco, mas ele não nos paralisará".

O turismo é o motor econômico da cidade, a sua indústria número um. Antes do Katrina, o turismo de Nova Orleans empregava 85 mil pessoas e gerava US$ 5,5 bilhões por ano, ou cerca de 40% da renda arrecadada com impostos pela prefeitura da cidade, segundo a New Orleans Tourism Marketing Corporation.

A música é a principal atração no French Quarter - não apenas o jazz, mas todos os tipos de música, do country ao rock and roll. E juntamente com os afamados festivais de música de Nova Orleans, é isso o que está começando a atrair os turistas de volta à cidade.

"A rica herança musical e a diversidade são algumas das principais atrações que Nova Orleans oferece aos turistas", afirma Larry Lovell, porta-voz da New Orleans Tourism Marketing Corporation. "A música se constitui em uma grande parcela da alma desta cidade, e ela desempenha um papel importante no nosso marketing para os potenciais turistas".

Na devastada Nova Orleans, a comunidade sabe que a cultura única - especialmente a rica herança cultural - define a cidade.

E esta apreciação pela arte atrai artistas de todo o mundo para Nova Orleans.

"Existe uma espécie de redemoinho aqui", diz Susan Cowsill, que se mudou de Los Angeles para Nova Orleans há 16 anos. "Nova Orleans é como um Triângulo das Bermudas musical, e eu não poderia estar mais feliz pelo fato de ser uma das pessoas de sorte que foi sugada por este redemoinho".

Cowsill, que teve três músicas na lista das dez mais vendidas na década de 1960 com a banda popular da família, os Cowsills (a inspiração para "The Partridge Family") antes de completar 12 anos de idade, diz simplesmente: "Esta é uma cidade de coração e mente muito abertos. Nova Orleans tem uma alma tão grande que isto me faz chorar".

A cantora e compositora de 46 anos já esgotou a sua reserva de choro nos últimos meses. Ela foi evacuada para Nashville, onde compôs a pungente canção pós-Katrina, "Crescent City Snow".

Cowsill retornou apenas três semanas depois do furacão com uma grande escolta militar (a única forma de obter permissão para retornar àquela
época) para procurar o irmão Barry. O corpo dele só foi encontrado e identificado há três meses. Ela liderou uma cerimônia memorial e uma parada funeral de jazz para o irmão no final de fevereiro, apenas alguns dias antes do Mardi Gras.

"Creio que a situação para todos aqui é diferente, mas parece que tal situação se resume a dois diferentes pontos de vista", explica ela. "Ou você ama tanto a cidade que simplesmente não suporta ver o que aconteceu a ela, e precisa ir embora. Ou você a ama tanto que toda a destruição só o torna mais determinado do que nunca a permanecer aqui".

Cowsill e a sua família estão permanecendo, da mesma forma que "Washboard Chaz" Leary, que se mudou de Boulder, no Colorado, para Nova Orleans seis anos atrás. Durante a fase de evacuação, Leary circulou entre Oklahoma e Baton Rouge, mas retornou para umas duas apresentações em outubro, e voltou definitivamente em novembro. Desde então ele tem trabalhado constantemente com o Washboard Chaz Blues Trio, além de tocar com várias outras bandas, como a Tin Men, a Palmetto Bug Stompers e o New Orleans Jazz Vipers.

"Grande parte das grandes apresentações ao vivo acabou, pelo menos por ora, porque o turismo está em baixa, é claro", explica Leary. "Mas os pequenos shows em clubes pela cidade são abundantes. Não dá para ganhar muito dinheiro com eles, mas se o artista trabalhar duro e conseguir várias apresentações, conseguirá uma fonte de renda decente".

"Não dá para apenas morar em Nova Orleans e amar a cidade. A pessoa ama profundamente à cidade", diz Moore, cuja música, "It's Gonna Be OK" se transformou em um hino de determinação, conforto e recuperação. "Este era o último centro da boemia. Havia uma grande concentração de músicos realmente maravilhosos, residências a preços acessíveis e um ambiente de tolerância - era perfeito. Mas o Katrina acabou com tudo isso".

"Todos os dias pensei em ir embora, mas não vou a lugar algum. O que vemos aqui é de cortar o coração, mas não sairei da cidade. Eu gosto muito de Nova Orleans. E a vida é muito curta para ser vivida em qualquer outro lugar". Região que não foi muito afetada pelo furacão Katrina atrai multidões de turistas de todo o mundo Danilo Fonseca

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