O sonho "impossível": J.J Abrams revitaliza série de ação de Tom Cruise com toque pessoal

Bob Strauss
do Los Angeles Daily News

Eles não conseguiram segurar um diretor. Passaram por várias atrizes famosas. Houve um sério acidente na pré-produção. E, é claro, o ator principal insistia em fazer as cenas espetaculares.

Ainda assim, independentemente de quão torturante foi a criação de "Missão Impossível III", J.J Abrams, o criador de "Lost" e "Alias", não poderia ter se divertido mais na direção de seu primeiro filme.

Giampiero Sposito/Reuters - 1.mai.2006 
Elenco de 'Missão Impossível 3' se reúne para a estréia do filme na capital italiana

"Parecia o trabalho dos meus sonhos, que eu sempre quis fazer", diz o fenômeno da televisão de 39 anos de idade, que começou a carreira escrevendo roteiros para filmes como "Uma Segunda Chance" e "Eternamente Jovem". "Acho que passei por etapas graduais, então nunca pareceu assustador para mim. Senti-me em terreno sólido o tempo todo."

Esse terreno foi Itália, Berlim e Xangai. O terceiro filme da série de espionagem de Tom Cruise não economizou nas locações e seqüências de ação espetaculares. (Quando informaram J.J. que "M. III" foi o primeiro filme mais caro da história, ele riu: "Fico feliz que ninguém tenha me contado isso quando estávamos gravando; eu não teria saído do meu trailer.") Abrams conseguiu o cargo desejado depois que David Fincher ("Seven") e Joe Carnahan ("Narc"), protegido de Cruise, deixaram o projeto. Ele quis se concentrar em uma parte dos filmes de adrenalina que os outros ignoraram: a vida pessoal do líder da Força de Missões Impossíveis, Ethan Hunt.

"Ouvindo J.J. falar dos personagens, da história, sobre como estruturar o roteiro, ele acertava todas as notas", explicou Paula Wagner, que produziu o filme com Cruise. "Tom disse: 'Ele entende e respeita Missão Impossível, o que as pessoas querem ver e o que torna a série divertida. Mas ao mesmo tempo, ele quer trazer algo de novo, e nós gostamos disso.'"

"Tom perguntou: 'O que você quer fazer?'" lembra-se Abrams. "Eu disse que queria que fosse uma história mais pessoal; que tivesse ação, sim, mas que tivesse mais história e emoção do que eles propunham. Ele disse: 'Está certo, vamos fazer isso!'"

Então Abrams e sua equipe de autores de "Alias", Alex Kurtzman e Roberto Orci, criaram um cenário no qual Hunt fica noivo de Julia (MIchelle Monaghan), que não sabe nada de sua vida secreta. Uma missão que dá errado o coloca em conflito com um mercador de armas impiedoso, Owen Davian (Philip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar por "Capote"), que ataca o ponto mais vulnerável de Hunt: Julia.

Se Abrams sentiu qualquer insegurança em fazer seu primeiro filme com um produtor que também é o maior astro de Hollywood, Cruise rapidamente o deixou à vontade. "Desde o início, Tom disse: 'Quero que este seja o Missão Impossível de J. J.; sou seu ator'" conta Abrams. "Ele me deixou dirigir o filme da minha forma. Mas ele foi quem mais colaborou e me ajudou a melhorar o filme a cada dia, de formas que talvez eu não possa quantificar."

Isso é aproximadamente o que todos que trabalharam com Tom Cruise dizem, apesar da impressão do público de que é controlador e egomaníaco descontrolado.

"A verdade é que este homem me deu uma chance única de fazer este filme", admite Abrams. "Mesmo que houvesse experiências feias ao longo do caminho, eu provavelmente me sentiria tão agradecido que não as revelaria. Mas você pode embebedar qualquer um que trabalhou neste filme e perguntar: 'Qual foi o pior dia?' e não posso imaginar nenhuma história."

Antes de "M. III" entrar em produção, no último verão, Cruise gerou controvérsias com seus ataques de drogas psiquiátricas e o namoro exagerado com Katie Holmes. Ainda há temores de que suas estripulias tenham roubado parte da sua enorme base de fãs. Mas nada disso incomodou Abrams.

"Minha experiência com Tom foi tão concentrada no trabalho que sempre foi bizarro para mim que estivessem ocorrendo esses barulhos do lado de fora", disse o diretor. "O que você entende é que, como qualquer um, Tom tem seus pontos de vista sobre as coisas e deu entrevistas que ficaram famosas, mas uma grande parte do que é falado e escrito sobre ele é fabricação. Não que não haja coisas que, como com qualquer um, você não possa salientar. Mas não existe uma pessoa mais trabalhadora, mais concentrada e de bom coração no mundo. Isso é tudo que importa para mim, e ele acabou sendo um amigo."

Cruise certamente levou Abrams à loucura, porém, insistindo em fazer a maior parte das cenas com risco de vida.

"Houve muitos momentos em que pensei: 'Isso é uma imbecilidade -o que estamos pensando?'" lembra-se o diretor. "Ele fez tantas cenas arriscadas no filme, é uma loucura. Quando aquele caminhão passa por cima dele, aquilo foi realmente desconfortável para mim. Sim, foi tão seguro quanto possível, considerando-se que um caminhão estava passando por cima de Tom. Mas foi tolice! Tínhamos que fazer aquilo?"

Abrams não se alegra, de forma alguma, com o teste que resultou em queimaduras em um substituto. Steven Scott Wheatley agora está processando a Paramount Pictures e Cruise-Wagner Productions por negligência. Abrams não estava presente na hora do acidente.

"Nunca encontrei essa pessoa", diz o diretor. "Acho que estavam fazendo um teste para alguma cena antes de começarmos a gravar, e recebemos uma ligação de que havia ocorrido um acidente. Eu não sei os detalhes, mas obviamente é uma coisa horrível."

Abrams acrescenta que, diferentemente do que se pode imaginar, ele não teve que se dividir durante a produção de "M. III". Outras pessoas são responsáveis pelas operações diárias de "Lost" e "Alias," e ele teve pouco a ver com a nova série de sua empresa "What About Brian?" "Leio os roteiros e recebo as edições preliminares, então estou informado do que está acontecendo", explica. "Mas um filme como este, obviamente, envolve tudo. É realmente difícil se concentrar em coisas de fora quando você está dirigindo."

Abrams começou a aprender os fundamentos da produção quando era criança. Seu pai, Gerald, foi produtor de diversos filmes para a televisão. "Meu pai fazia filmes de dramas familiares", diz o filho, cujo gosto pessoal tendeu mais para os gêneros de ação e suspense, como a série original de "Missão Impossível". "Mas foi um forma de acesso ao cinema. Eu entrava nos sets, fazia perguntas e, tenho certeza, enchia a paciência. Meu pai tinha um escritório na Paramount -eu ia assistir os ensaios das séries cômicas. Esse tipo de acesso é valioso, acredito, porque você absorve o processo."

Agora há boatos de que Abrams foi contatado para revitalizar outra série valiosa da Paramount, que foi da televisão para o cinema: "Star Trek". Consertar essa série demasiadamente explorada vai ser bem complicado. Mas qualquer um que tenha tentado acompanhar "Alias" ou fazer sentido de "Lost" sabe que Abrams é o homem certo para esse tipo de missão.

"Adoro mágica, e esse trabalho é como um truque de mágica", diz Abrams. Ele conta que seu primeiro sucesso na televisão, "Felicity", usou Culver City como se fosse Nova York. "Literalmente é um engodo, aquele prazer estranho que maximiza a surpresa. Seja em 'Lost' ou 'Alias', adorei quando fizemos as pessoas acreditarem que estávamos fazendo algo que não estávamos. Então, 'Missão Impossível' foi um sonho para mim." Deborah Weinberg

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