Apesar da carência de profissionais, EUA podem deportar médicos estrangeiros

Marsha Austin
em Cheyenne Wells, Colorado
Do Denver Post

Joe Klement sobreviveu a dois ataques cardíacos para continuar arando a terra na qual trabalhava desde 1931. Mas, três anos atrás, a cardiopatia finalmente ganhou a batalha, obrigando o fazendeiro de 90 anos de idade, e sua mulher, Marian, 83, a se mudarem para a cidade - a fim de ficarem mais próximos do hospital e do médico Saeid Ahmadpour.

"Ele nos está mantendo vivos", diz Klement.

Agora, o casal Klement e outros quase 2.100 fazendeiros e moradores das pequenas cidades do condado de Cheyenne, nas planícies do leste do Colorado, poderão perder Ahmadpour devido a um problema referente às leis de imigração que poderá terminar com a sua deportação.

"Este médico é fantástico", garante Marian Klement. "Eu detestaria vê-lo partir".

Cheyenne é um dos nove condados rurais do Colorado que possuem o equivalente a um médico de tempo integral, segundo dados fornecidos pela firma de consultoria Peregrine Management Corporation, com sede em Denver.

Em breve, Cheyenne poderá entrar para o grupo de três condados rurais do Estado que não possuem nenhum médico.

A comunidade rural próxima à divisa com o Kansas não é a única a enfrentar este dilema.

Embora um quarto dos norte-americanos more em zonas rurais, somente 10% dos médicos trabalham nestas regiões, segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

O governo federal calcula que sejam necessários 4.400 médicos para amenizar a carência destes profissionais nas áreas rurais.

Em uma tentativa de preencher essa lacuna, agências do governo têm procurado canalizar os profissionais recém-formados e os médicos estrangeiros para o interior dos Estados Unidos.

O Corpo Nacional de Serviços de Saúde foi criado em 1972 para atrair médicos recém-formados para as zonas rurais e as áreas urbanas pobres, oferecendo bolsas e descontos nos empréstimos estudantis.

Os médicos estrangeiros que vieram para os Estados Unidos com vistos de estudante podem evitar um retorno obrigatório para os seus países em um prazo de dois anos ao trabalharem em áreas "medicamente carentes".

Desde 1997, 60 médicos estrangeiros - tais como Ahmadpour - atuaram no Colorado sob o programa de concessão de visto J-1 Conrad 30, segundo o Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente do Colorado.

Eles vieram de 15 países diferentes, liderados por Filipinas, Índia e Paquistão.

Mesmo assim, os baixos salários, o isolamento dos colegas de profissão e a falta de oportunidades educacionais e recreativas fazem com que a tarefa de atrair os médicos para as zonas rurais e mantê-los nestas áreas seja um grande desafio.

"Temos muita dificuldade para conseguir médicos aqui", diz Ted Billinger, o farmacêutico de Cheyenne Wells, a sede do condado. "Eles ficam no condado por uns três ou quatro anos, e depois vão embora".

Ahmadpour, filho de um importador de tapetes iranianos, e que foi criado em Estocolmo, na Suécia, é o sétimo médico da cidade em 17 anos.

Enfrentando discriminação étnica na Suécia, Ahmadpour veio para Phoenix com a mulher e os filhos em 1994, com uma bolsa de especialização em endocrinologia, seguida por três anos de residência médica em Chicago.

A seguir, surgiram dois empregos em dois anos. Por volta do outono de 2000, ele estava desesperado para obter um emprego que o mantivesse nos Estados Unidos.

"Eu já tinha quase desistido de procurar", conta Ahmadpour. "Estávamos prestes a fazer as malas e retornar à Suécia".

Cheyenne Wells - um conjunto de casas, silos e vagões ferroviários que pontilham um horizonte plano - também estava engajada em uma busca.

A cidade procurava um médico havia um ano, quando Ahmadpour viu o anúncio da prefeitura em uma revista.

"Para que uma comunidade esteja qualificada para o programa de concessão de vistos J-1, ela precisa demonstrar ter tentado recrutar um médico dos Estados Unidos por um período de pelo menos seis meses", explica Kitty Stevens, diretora do Escritório de Clínica Geral do Departamento de Saúde Pública do Colorado.

Cheyenne Wells atendia de longe tal exigência. E, assim, em 2000, Ahmadpour, a sua mulher, Margot, e os seus três filhos chegaram em uma cidade onde costuma haver mais arbustos secos do que pedestres na rua principal.

"Este é o país real: pessoas que trabalham duro e que estão gratas por aquilo que têm", diz Ahmadpour.

A população de Cheyenne Wells trabalha - o índice de desemprego é cerca de um terço menor do que a média nacional - mas os salários são modestos. O rendimento anual da residência típica é de US$ 36.563, um quarto menor do que a média estadual, segundo o censo de 2000.

E a cidade está encolhendo. Desde 1990, Cheyenne perdeu cerca de 110 moradores - ou 10% da sua população.

Os Ahmadpour se adaptaram ao local. Os garotos tocam em uma banda, e Ahmadpour escreve uma coluna de saúde no jornal local.

"Eles têm casa própria, e pagam os seus impostos", afirma Shirley Pedersen, paciente que mora desde que nasceu na cidade. "Ele e a sua família são melhores cidadãos do que alguns dos nossos estudantes de medicina nascidos nos Estados Unidos".

Mas as autoridades federais da imigração discordam.

Em 2001, foi negado a Ahmadpour um visto H1-B, uma concessão de trabalho que permite que profissionais estrangeiros que tenham um contrato empregatício permaneçam nos Estados Unidos.

O Hospital Memorial Keefe, o centro de saúde da cidade, que possui 25 leitos, o ajudou a obter uma permissão de trabalho alternativa. Um advogado também o auxiliou a obter o status especial como profissional com "habilidades excepcionais". Isso o colocou na fila para a obtenção do status residente legal permanente e do green card.

Um Ahmadpour aliviado se estabeleceu nesta cidadezinha calma.

Foi então que a mãe de Margo, que eles não viam desde que deixaram a Suécia, sofreu um grave derrame. A família tinha duas opções: arriscar todos os anos de sacrifício e trabalho árduo deixando o país, ou ficar, sabendo que não poderiam dar um adeus à mãe de Margo.

Em outubro de 2002, os Ahmadpour - após receberem a garantia de um funcionário do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos de que uma emergência familiar se constituía em uma razão aceitável para deixar o país - partiram para Estocolmo.

Dez dias depois, Ahmadpour retornou e se ajoelhou no Aeroporto Nacional de Denver para beijar o chão de granito após ter passado pela alfândega. O restante da família chegou depois.

Ahmadpour acreditou que estava seguro, mas a viagem ao exterior neutralizou a sua luta de 12 anos pela obtenção da cidadania norte-americana, apesar do que lhe haviam dito.

Aos olhos das autoridades federais, o fato de deixar o país fez dele um imigrante ilegal sujeito a ser deportado. Legalmente, ele ficou encalhado em uma espécie de fronteira legal.

A cada seis meses, Ahmadpour e a família acordam antes do sol nascer, entram no carro e fazem o percurso de 280 quilômetros até Denver, a fim de serem os primeiro na fila para tirarem as impressões digitais no escritório da imigração - uma exigência para os imigrantes com vistos pendentes.

"Eu vim legalmente para este país e trabalho no Colorado há sete anos", queixa-se Ahmadpour. "Nunca fiz nada a não ser cuidar das pessoas".

Para Cheyenne Wells, os problemas enfrentados por Ahmadpour são mais um capítulo na luta da cidade para substituir o médico Jerome Keefe, que se aposentou em 2001, após 52 anos de prática da medicina.

"Ele foi o nosso último médico que trabalhou aqui por uma vida inteira", diz Curtis Hawkinson, diretor-executivo do Keefe Memorial, batizado com este nome em homenagem ao querido médico da cidade.

Desde que Keefe se aposentou, a Clínica Prairie View viu médicos chegando e partindo sem parar.

Quatro médicos estrangeiros do programa de concessão de vistos e três do Corpo Nacional de Serviços de Saúde vieram e partiram.

Nenhum deles, exceto Ahmadpour, ficou mais do que os dois ou três anos exigidos.

"Não existe muita coisa por aqui para atrair as pessoas", diz a sobrinha de Keefe, Diane Smith.

Enquanto isso, o hospital contrata médicos em regime temporário, a fim de preencher as lacunas e aliviar os profissionais da equipe permanente, como Ahmadpour, que são solicitados constantemente, diz Hawkinson.

Isso, no entanto, não resolve o problema para Cheyenne Wells e outras comunidades rurais similares, afirma Keith Mueller, diretora do Centro da Análise de Políticas de Saúde Rural do Centro Médico da Universidade de Nebraska.

"Se alguém precisa confiar no Corpo Nacional de Serviços de Saúde ou nos médicos estrangeiros inscritos no programa de vistos - quando apenas 40% deles permanecem -, a situação é claramente problemática", opina Mueller.

Quando o governo aumentou as concessões de vistos deste tipo para cada Estado, em 2002, de 20 para 30, o número de colocações no Colorado caiu pela metade, afirma Stevens, do departamento estadual de saúde.

O Estado atualmente está recebendo apenas de quatro a seis médicos estrangeiros por ano. O Colorado parece estar perdendo espaço para Estados maiores, com Texas e Califórnia, diz Stevens.

As escolas de medicina estão começando a responder. A Escola de Medicina da Universidade do Colorado, por exemplo, deu início neste ano a uma especialização em medicina rural.

"Precisamos criar os nossos próprios graduados", afirma Erin Woods, porta-voz da Associação Médica Americana.

Cheyenne Wells realmente necessita de dois médicos, segundo Hawkinson, do Keefe Memorial. O hospital deixou de fazer partos, cirurgias em internos e qualquer outro procedimento que exija um médico reserva ou a aplicação de anestesia geral.

A carência de médicos é ainda mais aguda devido à elevada incidência de artrite, doenças cardíacas e pulmonares e hipertensão arterial nas zonas rurais, segundo o Centro para uma Sociedade em Envelhecimento da Universidade Georgetown.

Os pacientes de Ahmadpour não se constituem em uma exceção.

Recentemente, durante um dia na clínica, Ahmadpour tratou de 12 pacientes.
Cinco deles sofriam de doenças múltiplas e crônicas, como insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doenças pulmonares e diabetes.

Os outros o procuraram para o tratamento de uma série de enfermidades, como gota, alergias e depressão.

"Estou realmente feliz por ter recebido aquela injeção para pneumonia, porque, se não tivesse sido medicado, não estaria sentado aqui", afirma Jack Saint Clair, 73, que sofre de uma doença pulmonar, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal crônica e diabetes incontrolável, tudo isso efeitos da idade e de uma vida inteira fumando.

"Fumei durante 56 anos", conta Sinclair. "Simplesmente não parei a tempo".

As autoridades da imigração se recusaram repetidamente a comentar o caso de Ahmadpour. A agência não discute casos específicos, segundo a porta-voz dos Serviços de Cidadania e Imigração, Sharon Rummery.

Ahmadpour informou que está aguardando uma audiência em Denver para que se chegue a uma decisão quanto à sua eventual deportação. Danilo Fonseca

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