Memórias de Gay Talese contam suas dificuldades no trabalho

Por John Marshall
Do Seattle Post-Intelligencer

Atualmente, viajar nos EUA envolve muitas irritações, distrações, desapontamentos. Nem mesmo um autor famoso fica imune, como descobriu Gay Talese. Ele precisou dar três telefonemas para conseguir serviço de quarto em uma tarde no Hotel Alexis, de Seattle, e só o que ele queria eram "frutas frescas e um cappuccino grande, seria possível?"

O mestre nova-iorquino de não-ficção de 74 anos estava no hotel para dar a primeira entrevista da turnê nacional de seu novo livro. Ele tinha motivos para ficar um pouco revoltado com o problema de serviço de quarto, assim como com o vôo noturno de Los Angeles. "A Writer's Life" (a vida de um autor, Alfred A. Knopf, 430 páginas, US$ 26) é o primeiro livro de Talese em 14 anos, uma eternidade para este mundo de megabytes. Talese está ansioso para ver a recepção do livro, especialmente depois que o "New York Times", jornal em que trabalhou por nove anos, fez uma crítica cáustica em sua edição de domingo.

O serviço de quarto batendo na porta foi mais uma distração, enquanto o autor dizia que queria que seu livro mais pessoal refletisse "toda a busca do autor de não ficção por histórias". Talese parou para abrir a porta.

Um jovem garçom entrou no quarto, e Talese o recebeu com uma saudação
calorosa: "Como você está, amigo?" O garçom respondeu: "Bem, obrigado", mas ficou surpreso. Ele esperava entrar e sair, mas este senhor bem vestido continuava puxando assunto.

O encontro poderia ser parte de uma das histórias memoráveis de Talese nas revistas, colecionadas no "The Gay Talese Reader" de 2003 (Walker & Co., 265 páginas, US$ 14.95). Este inclui sua história de 1966 na Esquire sobre Frank Sinatra, com sua frase imortal: "Frank Sinatra estava gripado." A Esquire escolheu esta como a "melhor história jamais publicada" em seus 70 anos de existência, uma distinção ainda mais notável pelo fato de Talese tê-la escrito depois de passar semanas perto de Sinatra, mas sem entrevistar o homem.

Este encontro com o garçom também poderia fazer parte de um dos mais bem vendidos livros de Talese, "O Reino e o Poder" (sobre o "New York Times"), "Honor Thy Father" (honre seu pai, sobre a máfia), "A Mulher do Próximo" (sobre o sexo nos EUA) ou "Unto the Sons" (sobre os ancestrais italianos). Este encontro com o rapaz do serviço, tão casual, tão espontâneo, revela o personagem -neste caso, o próprio Talese.

Em três minutos, Talese demonstrou seus modos impecáveis, sua intensa curiosidade, sua total genuinidade e respeito ao lidar com pessoas de todas as classes, especialmente aquelas geralmente ignoradas pelos ricos e poderosos.

As obras de Talese dependem dessas pessoas, que fornecem dados e diferentes perspectivas por trás das cenas, como fizeram os vários assistentes de Sinatra, seu assessor de imprensa, seu amigo, seu protetor e até a senhora que carregava a mala com as 60 perucas de Sinatra. Talese conquistou sua confiança gastando grande parte de seu sapato italiano andando atrás dela.

A mesma técnica de "caminhadas incansáveis" é empregada em "A Writer's Life", talvez surpreendentemente. Nesta era em que livros de memórias contam tudo, Talese tomou uma abordagem decididamente diferente, até surpreendente.

Há poucas revelações sobre sua vida pessoal e muito mais páginas dedicadas a sua dificuldade para escrever a seqüência do livro de 1992 "Unto the Sons".

Era o segundo de três livros que a Knopf tinha encomendado e pago um adiantamento de US$ 7 milhões (em torno de R$ 14 milhões), aparentemente. Mas o autor, famoso por sua lentidão, que admite ter "uma vida ridícula de autor prolífico de manuscritos inacabados", encontrava obstáculos sempre que tentava iniciar o novo livro.

Ele tinha procurado desenvolver a história de John e Lorena Bobbitt, com aquela famosa cena de faca de cozinha da Ikea, para a "New Yorker". Mas depois a editora Tina Brown decidiu que não queria publicar a "saga peniana". Ele tinha também escrito sobre uma construção em Manhattan, uma tumba de 12 restaurantes, somente para ouvir da Knopf que não estava interessada porque o assunto não tinha o "potencial de grandes vendas" esperado de um título de Talese.

Ele também tinha feito muito trabalho contando suas próprias experiências como jovem repórter cobrindo as lutas por direitos civis em Selma, Alabama, inclusive a famosa marcha de 1965 conhecida como "domingo sangrento". O evento ocorreu perto de onde Talese freqüentou a Universidade de Alabama, a única que o aceitou. Ele guardou as notas por décadas e tinha certeza que o material merecia ser incluído em um livro, assim como as sagas de Bobbitt e da construção.
"Posso fazer três livros pequenos", pensou. "Mas por que não escrever sobre ser um autor, o que um autor pensa, o que um autor faz, o que o autor faz quando escreve assim como sobre as pessoas que ele escreve?"
"Sou muito mais interessado nas outras pessoas. Eu não ia querer que as pessoas pensassem que Gay Talese se acha tão importante. Nem eu ia querer ler tanto sobre Gay Talese."

Três histórias, mas como costurá-las em um livro? Esse era o dilema deste filho de alfaiate italiano em Jersey. Certa tarde de sábado, mudando de canais na televisão encontrou uma nova possibilidade.

Talese, que sempre fugiu do futebol, assistiu fascinado enquanto os times femininos dos EUA e China travavam sua épica batalha de 1999 pela Copa do Mundo em Los Angeles. Depois de um empate sem gols, veio a prorrogação e, por fim, a decisão pelos pênaltis.

Quando uma jogadora chinesa chamada Liu Ying perdeu o pênalti que custou à China o jogo, Talese encontrou mais um tema. "Nunca na história da China uma única pessoa tinha tão subitamente sido envergonhada na frente de tantas pessoas -inclusive 100 milhões em seu país natal."

Havia mais problemas. Primeiro, Talese não tinha acesso ao assunto. E, depois, nenhum editor estava interessado em publicar a história. E havia o fato de que Talese não conhecia ninguém na China. Mas depois de celebrar seu 40º aniversário de casamento na Europa com sua mulher (Nan Talese, famosa editora da Doubleday), o autor impulsivamente alterou seu itinerário e partiu para a China onde passou cinco frustrantes meses.

Essa experiência é recontada em "A Writer's Life" e dá sua linha comum tão buscada, apesar da costura ficar aparente. O livro começa com Talese contando a história da jogadora de futebol chinesa, depois abruptamente muda para 300 páginas de memórias. A ordem desafia a cronologia normal de um livro de memórias, mas faz perfeito sentido para o autor, que acredita fervorosamente nas coincidências, e tinha a intenção de criar "uma não-ficção que não se encaixasse em categorias".
Talese compara "A Writer's Life" com sua história sobre Sinatra, pois nos dois casos o texto dança em torno do personagem. Tanto o livro quanto o artigo são como o próprio escritor -seguro, complexo e polido, transbordando de ricas histórias.

As diferentes tramas suscitam interesses diferentes. O caso de tablóide de Bobbitt tem o cheiro distinto de notícia antiga, mas o novo volume de Talese ainda assim é um relato memorável dos desafios e desapontamentos do ramo da palavra.

Esqueça as noções de Hemingway que, para escrever, basta sentar em um café em Paris e fazer algumas notas entre goles de cappuccino. "Escrever é freqüentemente como dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco", escreve Talese.

Isso é inevitável, mesmo quando o escritor tem uma reputação de ouro. Talese fez uma pausa no trabalho em seu livro atrasado para contar uma visita de Muhammad Ali a Cuba em 1996. Como freqüentemente acontece em suas reportagens, "a história cresceu", mas Talese estava convencido que "era longa, mas boa".

A história de 13.000 palavras de "Ali em Havana" foi rejeitada por 10 revistas, inclusive várias que tinham fama de publicar textos grandes do estilo lançado por Talese. Ele foi rejeitado pela "New Yorker", "GQ", "Rolling Stone", "Sports Illustrated", "Esquire", "The New York Times Magazine", "Harper's".

Finalmente, a "Esquire" voltou atrás, mas não antes de Talese ter sofrido a humilhação final de receber a oferta de apenas US$ 100 (em torno de R$ 200) pela história de Ali por outra revista. O fato de "Ali in Havana" mais tarde ter sido publicada novamente em "The Best American Essays 1997" (os melhores ensaios americanos 1997) deu certa satisfação a Talese, mas não removeu inteiramente a dor do parto.

"Estávamos em 1996-1997 e eu tinha 60 e muitos anos. Supostamente era um ícone literário e ainda assim era rejeitado", conta Talese. "Nem sempre é fácil. Esta é a vida de um autor -não muda se você tem fama ou se você escreveu um best-seller ou se é conhecido entre algumas pessoas como o 'pai da não-ficção literária'".

Sua fama tampouco serviu na luta para escrever suas memórias. Nan Talese disse ao Los Angeles Times que seu marido ficou "deprimido" durante a maior parte do tempo e que ela nunca o tinha visto tão "perturbado, tão preocupado, achando que teria perdido o jeito".
Talese responde: "Eu já era deprimido quando era um repórter principiante; fui deprimido a vida toda."

Um momento humilhante surge da memória do autor, fresco como se fosse ontem. Foi em 1959 e o jovem repórter do "New York Times" estava ganhando fama por seus textos fortes e inventivos.

Talese tinha escrito mais de 25 artigos para a revista do "Times" e seu último era um perfil do governador Nelson Rockefeller. Mas então recebeu um telefonema do editor sobre imprimir o texto. Talese sentou-se na mesa do editor e ouviu-o dizer: "Vou matar esse artigo." "Por que?" perguntou. "Porque não gosto da forma como você abordou o governador." Talese ficou sentado espantado por um momento; depois começou a chorar. O editor obviamente ficou desconcertado, mas Talese já não conseguia parar.

Ele tinha se dedicado tanto ao texto e sabia que era seu melhor.
"Foi uma experiência totalmente desastrosa -que ele pudesse me aniquilar como a uma formiga", ressalta Talese. "Meus sentimentos de frustração certamente não começaram como 'A Writer's Life', aos 65. Quando eu era mais jovem, sempre dei muita importância ao que eu estava fazendo. Sempre fui profundamente sensível." Deborah Weinberg

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