Debate no Senado ilustra ambivalência da Nação quanto à imigração

Michael Doyle e Margaret Talev
Em Washington
Do McClatchy News Service

A ambivalência febril da nação em relação à imigração está registrada nos sinais às vezes contraditórios enviados pelo Senado nesta semana.

Na sexta-feira, os senadores continuaram debatendo o projeto de reforma da imigração que esperam terminar antes do fim de semana do Memorial Day, o feriado em homenagem aos que morreram em guerras. É um trabalho desajeitado de arquitetura política, com esteios amarrados de forma tão apertada que alguns se perguntam por quanto tempo suportarão.

"A mensagem que está sendo enviada é de que há um esforço para se chegar a um projeto de lei semelhante a uma colcha de retalhos", disse a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, em uma entrevista, e "apenas agora estamos calculando as ramificações".

Apesar do Senado não ter votado emendas adicionais na sexta-feira, as 17 emendas consideradas desde a retomada do debate na segunda-feira revelaram repetidas vezes a tensão no Legislativo. É preciso olhar mais profundamente para encontrar temas mais coerentes; notadamente, a maioria no Senado deseja tanto as propostas de segurança na fronteira quanto as de trabalhadores convidados e legalização.

"O centro do debate no Senado é sobre se há apoio bipartidário para uma
reforma abrangente", disse Frank Sharry, diretor executivo do Fórum Nacional de Imigração, "e a reforma abrangente sobreviveu à semana".

Mas não foi uma vitória clara.

O Senado concordou em impedir que novos trabalhadores convidados
preenchessem seus próprios pedidos de "green card", o visto de residência permanente nos Estados Unidos. Quinze horas depois, o Senado basicamente mudou de idéia. O projeto de lei revisado agora permitirá, novamente, aos trabalhadores convidados "requisitarem pessoalmente" a residência permanente legal nos Estados Unidos, em vez de dependerem dos empregadores. Isto facilitaria a vida dos 200 mil novos trabalhadores convidados que seriam aceitos anualmente segundo a lei.

O Senado concordou em estabelecer o inglês como "língua nacional" dos
Estados Unidos. Os conservadores defendiam esta emenda, especificamente a de que ninguém teria "direito ou autorização" para receber informação federal bilíngüe. Trinta minutos depois, o Senado aceitou uma emenda concorrente dos democratas estabelecendo o inglês como "língua comum e unificadora" dos Estados Unidos. Ela especifica que ela não "diminui ou expande" os direitos existentes à informação bilíngüe.

"Está confuso", disse Feinstein sobre as emendas concorrentes.

Os conservadores insistem que a emenda de inglês como língua nacional -a primeira vez em 23 anos que o Senado vota uma proposta do gênero- acentua a séria preocupação pública com uma questão maior.

"A maioria de nós pensa que os esforços bilíngües têm sido na verdade
prejudiciais ao nosso país e às pessoas que supostamente visam ajudar",
disse o deputado Dana Rohrabacher, republicano da Califórnia. "É apenas um indício de que a revolta do povo americano está sendo ouvida."

Na noite de quinta-feira, o Senado rejeitou uma proposta de recursos para que governos estaduais e locais paguem por cadeias, atendimento médico e escolas. Trinta minutos depois, o Senado aceitou uma proposta concedendo os recursos -que viriam em parte de uma nova taxa de US$ 750 paga pelos imigrantes que buscarem a legalização de sua situação.

A cada ajuste, os senadores esperam encontrar o ponto ideal político, que é o que tornou a votação em torno do inglês tão intrigante. Os senadores desejam uma posição que tranqüilize os americanos nascidos no país e que falam inglês, ao mesmo tempo reconhecendo os desejos e a situação difícil dos imigrantes. A aprovação por margem à prova de obstrução indicou que muitos senadores politicamente moderados estão desconfortáveis em parecerem receptivos demais aos estrangeiros às custas dos americanos.

"Mostra que as pessoas que estão trabalhando por isto estão na corrente
principal", disse o deputado Dan Lungren, republicano da Califórnia. "Mostra que há muitas coisas atuando aqui. Eu não acho que significa necessariamente que haverá um projeto apenas de reforço do cumprimento da lei. Mas acho que teremos um projeto que se aproximará mais da posição da Câmara."

Mas mesmo após aceitarem 13 emendas e rejeitarem quatro na semana passada, o trabalho dos senadores está apenas começando. Assim que o Senado aprovar seu projeto, uma versão final deverá ser acertada com a Câmara. Feinstein sugeriu que isto será tão difícil que o trabalho "não necessariamente" será concluído antes das eleições de novembro.

"Será uma conferência muito difícil", disse Feinstein, que será uma das
negociadoras do Senado. "Eu não sei qual será o resultado final."

Ainda assim, apesar de todas as incertezas, o debate no Senado tem revelado vários pontos discerníveis. Um é que a segurança na fronteira é claramente um tema político vencedor. Um plano de um bilhão de dólares para construção de 600 quilômetros de cerca ao longo da fronteira com o México obteve aprovação contra uma oposição insignificante.

Outro ponto é que a maioria no Senado deseja que o projeto faça mais do que apenas proteger a fronteira. Repetidas vezes, mais recentemente em uma votação de 58 contra 35 na noite de quinta-feira, o Senado manteve os programas de trabalhadores convidados e legalização diante de uma séria oposição.

"Isto é realmente uma confirmação de que o Senado como um todo está
afirmando que o que precisamos é de uma abordagem abrangente", disse Jeanne Butterfield, diretora executiva da Associação Americana dos Advogados de Imigração.

O conflito central entre a Câmara e o Senado é em torno dos planos de
trabalhadores convidados e legalização, que os conservadores se esforçarão para derrubar.

"Eu estou confiante de que o atual ultraje do povo americano fará seus
representantes começarem a prestar atenção aos interesses dele, em vez dos interesses políticos do lado democrata e dos interesses econômicos do lado republicano", disse Rohrabacher.

O plano específico do Senado para lidar com os cerca de 12 milhões de
imigrantes ilegais do país continua um trabalho em progresso mesmo entre os que apóiam a idéia da legalização. Na sua forma atual, ela divide os imigrantes ilegais em três categorias.

Aqueles que estão nos Estados Unidos há mais de cinco anos poderiam ficar, após pagarem multas e impostos atrasados e atenderem outras exigências. Aqueles que estão no país entre dois e cinco anos poderiam ficar, desde que registrem sua entrada em uma fronteira. Os cerca de 4 milhões que estão nos Estados Unidos há menos de dois anos teriam que partir.

É um plano complicado, que Feinstein tentará substituir na segunda-feira. Ela reconheceu que as chances estão contra sua proposta alternativa, a de oferecer um "orange card" para os trabalhadores que estão ilegais nos Estados Unidos no momento.

"Eu sou bastante pragmática e não vejo o compromisso como viável", disse Feinstein. "Para mim, não é um programa prático." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos