Artistas negros consideram difícil vencer em Nashville

Ed Will
Do Denver Post

Rhonda Towns começará sua turnê em junho, em sua tentativa de fazer algo que nenhuma mulher afro-americana conseguiu: tornar-se uma estrela da música country.

Se a história servir como indicador, as chances dela são maiores em ganhar na loteria do que seu novo CD independente, "I Wanna Be Loved By You", ganhar um disco de ouro.

Mesmo assim, Towns está deixando sua cidade de Chandler, Arizona, para uma turnê por vários Estados, visitando estações de rádio e cantando em lojas do Wal-Mart para promover o álbum.

"Eu espero que ele venda bem, mas ela tem um duplo obstáculo", disse Ron Wynn, um crítico de música do "Nashville City Paper", que disse que Towns produziu um álbum de qualidade.

O primeiro obstáculo: as rádios country populares tradicionalmente ignoram singles de selos independentes. Mas este não é o maior obstáculo.

"O segundo problema é que ainda há pessoas em Nashville que não acham que faz sentido promover afro-americanos na música country", disse Wynn. "Elas não sentem que há vantagem nisto."

No início, os artistas negros tinham uma assento à mesa do country, mas o perderam à medida que as gravadoras dividiram os compradores de disco por raça. Desde os anos 30, Charley Pride é o único afro-americano a se tornar um superastro do country.

Mas Towns persevera.

"Eu sempre fui do tipo de pessoa que quando está parada no trânsito e não tem como chegar onde quer, desvia e encontra um caminho", ela disse.

Towns nutre um otimismo que, apesar de não torná-la exatamente a resposta da Music City para "Rebecca of Sunnybrook Farm", a impede de culpar a raça por seu fracasso em conseguir um contrato em Nashville.

"De forma alguma eu quero usar a raça como uma questão", disse ela. "Eu
quero ser julgada pelo meu talento."

O cantor-compositor negro Dobie Gray, que desfruta de uma longa e
bem-sucedida carreira musical, vê de forma diferente. "Eu acho que é o único gênero musical no mundo que é quase exclusivamente caucasiano", ele disse.

Gray chegou a Nashville em meados dos anos 70 com um punhado de sucessos, incluindo clássicos como "The In Crowd", "Drift Away" e "Loving Arms".

Seus esforços como compositor em Nashville ofuscaram sua carreira como
cantor country. Muitos, de George Jones a Tammy Wynette e Julio Iglesias já gravaram suas canções.

Gray lançou seu primeiro álbum country no final dos anos 80. Ele tinha
certeza de que seu primeiro single emplacaria nas paradas.

"Começamos a perceber por acaso que muitos dos DJs não sabiam que eu era negro", ele disse. "E quando souberam, eles simplesmente deixaram o disco de lado. Aquilo foi preocupante, mas não uma surpresa total."

A música country nem sempre foi tão branca. Deford Bailey, um tocador de gaita afro-americano, foi um dos maiores astros do Grande Ole Opry nos anos 20 e 30. No ano passado, Bailey foi eleito postumamente ao Salão da Fama da Música Country.

Bailey não era o único negro que tocava country naqueles tempos, disse a autora Pamela E. Foster, membro do corpo docente da Universidade Estadual do Tennessee e autora de dois livros sobre a história dos afro-americanos na música country.

"As pessoas de descendência africana estiveram envolvidas na música country desde a criação do gênero", disse Foster.

Para começar, elas inventaram o banjo, um instrumento importante no gênero. A comunidade afro-americana foi uma cultivadora importante da música de banjo e rabeca nos primórdios da república.

Jimmie Rodgers, uma figura central do nascimento da música country, citou a enorme influência que os cantores e músicos afro-americanos tiveram em seu trabalho. Ele mergulhou na música deles durante a adolescência, quando carregava baldes de água para os trabalhadores da ferrovia no Mississippi. Não é por acaso que a música country já foi chamada de "blues branco".

Mas desde o início as gravadoras dividiram o mercado, decidindo que o
country era para artistas e ouvintes brancos e o blues para os negros, disse John Rumble, um importante historiador do Salão da Fama da Música Country, em Nashville.

"Foi realmente uma distinção arbitrária, porque as bandas de ambas as raças tocavam todo tipo de música", disse Rumble.

Os músicos negros influenciaram enormemente algumas das outras lendas do country, incluindo Merle Travis, cuja música inspirou por sua vez o
guitarrista Chet Atkins. Atkins se tornou uma grande força da indústria como artista e executivo. Como chefe da RCA no início dos anos 60, ele contratou Pride.

Pride se tornou o primeiro -e até o momento único- superastro afro-americano do country moderno. Em 2000, ele se tornou o primeiro negro eleito para o Salão da Fama da Música Country.

Em uma entrevista, Pride foi perguntado por que ele é o único astro
afro-americano country moderno. "Isto já me foi questionado muitas vezes", ele disse. "Eu gostaria de poder dar uma resposta verdadeiramente simples. Mas eu realmente não a tenho. A única coisa que posso dizer é que sempre fui uma pessoa de mentalidade independente."

Pride começou a cantar country na juventude, provocando surpresa. Ele
freqüentemente ouvia comentários negativos -às vezes de sua própria raça. O que você está fazendo cantando a música deles? O que está tentando fazer? O que está tentando ser?

"Sempre se referiam a mim como diferente", disse Pride. "E assim, nesse
sentido, eu sempre fui o que sou apesar de supostamente não estar seguindo os padrões da sociedade. Eu sempre me considerei apenas um americano comum."

Inovadores trilham um caminho difícil, e Pride se irrita com a idéia de que foi o Jackie Robinson (o primeiro negro a jogar beisebol profissional) da música country -e a ladainha de perguntas que a comparação inspira.

"Como é ser o primeiro cantor de country 'de cor'? Como é ser o primeiro cantor crioulo de country? Como é ser o primeiro cantor negro de country? Como é ser o primeiro cantor afro-americano de country? Ora, eu diria que a sensação é a mesma de quando eu era 'de cor' -nada diferente."

Apesar de Ray Charles ter lançado dois discos de country de imenso sucesso, incluindo o seminal "Modern Sounds in Country and Western Music", de 1962, apenas poucos artistas menores, como Big Al Downing e Stoney Edwards, desfrutaram sucesso. Ninguém chegou perto de igualar o sucesso de Pride.

"Será que eles realmente querem outro Charley Pride?" o próprio perguntou. "E quando digo eles, falo das gravadoras. Questione isto."

O rosto afro-americano do country é o do rapper Troy Coleman, que se
apresenta como Cowboy Troy. Ele emplacou um álbum no ano passado com seu estilo musical auto-rotulado de "hick-hop". É cedo demais para dizer se ele será um astro ou uma novidade passageira.

O álbum de Rhonda Towns mistura o country tradicional com o mesclado com pop. Três veteranos bem-conhecidos de Nashville -Norro Wilson, Harold Shedd e o falecido Jim Cotton- co-produziram o CD.

O álbum começou como um projeto demo em 1995, com produção de Wilson. E
cresceu a partir daí.

Wilson promoveu um show onde Towns se apresentou para representantes das grandes gravadoras.

"Eu nunca vou me esquecer do que ele disse", lembrou Towns. "Ele veio, me apresentou e disse: 'Nós nos arriscamos como Charley Pride há 40 anos. Sabem de uma coisa? Esta jovem é talentosa. Vamos dar a ela uma chance".

Ninguém deu.

"Cada palavra que disse foi sincera e acho que é verdade", disse Wilson em uma entrevista. "Nosso negócio é maluco. Ele é apontado em uma direção e eles não movem um dedo para a esquerda ou direita. Aqueles tempos de apostas e riscos acabaram. É tudo muito formuláico. E aposto que custa US$ 1 milhão para lançar um artista. É loucura."

Wilson, agora aposentado, disse que não é incomum as grandes gravadoras
rejeitarem novatos que trabalharam com alguns dos maiores produtores de
Nashville.

"Mesmo com todas aquelas pessoas que estão listadas (no álbum), não esqueça que há uma chance de nenhum de nós realmente acertar a canção que realmente a projetará", ele disse. "Há um velho ditado: 'Uma canção de sucesso não liga para quem a canta'."

Mas os compositores e editoras se importam.

"As editoras não estão dispostas a ceder suas melhores canções para um
novato", disse Wilson. "Elas querem que elas fiquem com Kenny Chesney ou alguém assim."

A cantora-compositora Frankie Staton, uma artista de Nashville que
apadrinhou artistas negros, acha que os artistas country afro-americanos precisam começar a compor suas próprias canções.

"Não basta ser bonito, negro e cantar uma canção country", ela disse.

"Nós temos que contar nossas próprias histórias e é isto que nos promoverá na indústria da música country."

Ninguém entrevistado para este artigo disse diretamente que o racismo ainda existe na música country.

Foster disse que muitos artistas negros são tratados com justiça em
Nashville, mas notou que antigas percepções podem atrapalhar novas
carreiras.

"Se você é alimentado com imagens suficientes que indicam que negros
deveriam fazer 'a', 'b' ou 'c', e de repente você os vê fazendo 'x', 'y' e 'z', você vai achar que é uma anomalia."

Rumble, o historiador, concorda. Ele disse que as barreiras reais para ser bem-sucedido na música country se resumem a números: a quantidade de concorrência e o dinheiro necessário para lançar um novo artista.

O cantor-compositor Gray disse que Rumble está entre aqueles em Nashville que trabalham para diversificar o country, mas discorda da posição deste em relação a raça.

"Eu gostaria de poder dizer algo mais positivo sobre o progresso dos negros na música country", disse Gray. "Mas realmente não há nada."

Mas uma coisa mudou. Quando a gravadora de Pride enviou seu primeiro disco para as emissoras de rádio, ela não incluiu sua foto. As rádios não sabiam que ele era negro até o disco ser um sucesso. "Ainda há pessoas que não acham que faz sentido promover afro-americanos na música country", afirma crítico George El Khouri Andolfato

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