Roqueiro punk faz pós-graduação em "Anarquia Contemporânea"

Stephanie Earls
em Schenectadt, no Estado de Nova York
Do Albany Times Union

É semana de provas finais em Union College e o departamento de ciências sociais está quieto como, bem, como um departamento de ciências sociais durante o período de provas finais.

Nas salas de aula no térreo, usando camisetas e shorts, com rabos de cavalo e descabelados, os estudantes sentam-se compenetrados diante de suas provas. Ao menor ruído no corredor, eles interrompem o movimento dos lápis e erguem a cabeça.

Nas outras salas da faculdade, as atividades acadêmicas não transcorrem em meio a tal silêncio.

Aqui, um roqueiro punk discute o anarquismo com os professores.

Noah Eber-Schmid deixou seu casaco ornado com cravos metálicos e insígnias em casa, e usa sapatos sociais pretos e jeans. O seu cabelo comprido está penteado para trás, o que lhe confere uma aparência quase rebelde.

Mas percebe-se pelos óculos de armação preta, a pele pálida e a barba por fazer que ele não é exatamente aquilo que a sua indumentária atual indica. Mas hoje Noah não deseja que nada o distraia da defesa de sua tese de 125 páginas sobre anarquismo contemporâneo, um trabalho que ele levou a maior parte de seu ultimo ano de faculdade elaborando.

As perguntas têm início e Noah fala sobre a cultura de radicalismo, o marxismo e o pós-modernismo, e também sobre o antiautoritarismo e o Situationist international, um movimento político-artístico que surgiu na Europa em meados do século 20.

Durante 40 minutos, sentado à cabeceira de uma grande mesa de conferências, ele aborda assuntos tão intelectualizados que, caso os alunos que não fossem ligados ao curso de filosofia ouvissem acidentalmente os assuntos discutidos nesta reunião a portas fechadas, seus pensamentos provavelmente se desviariam defensivamente para questões mais banais, como o coelho da Páscoa ou uso do fio-dental.

A platéia que ouve Noah --quatro professores que lhe darão uma nota-- entende perfeitamente a sua mensagem. Ele fala brevemente sobre a rebelião de maio de 1968 na França. Finalmente, Felmon Davis, professor de filosofia, apóia o queixo na mão de forma professoral e concorda, acenando com a cabeça.

"Na minha opinião, o problema não é tanto a ponderação excessiva, mas sim a separação entre teoria e ação concreta", argumenta Noah calmamente, respondendo a uma pergunta final a respeito do papel da filosofia na teoria anarquista: será que o excesso de ponderação arruinou a revolução?

"Não acredito que se deva ponderar excessivamente sobre algo," diz ele. "A teoria precisa estar fundamentada em ações."

Noah está se formando pelo Union College com graduação dupla em ciência política e em filosofia. E, em pouco mais de dois meses, a teoria (cuja ética, identidade e crenças unem os punks na Europa em uma comunidade que transcende a música) estará fundamentada na ação (a convivência com punks europeus) na vida do rapaz de 21 anos, enquanto ele viajar pelas regiões leste e central da Europa e pela Escandinávia, investigando os locais onde nasceram a cultura punk e a filosofia do "faça você mesmo" (faça sua própria música, venda barato, não enriqueça) típica dessa cultura naqueles locais.

Como estudante agraciado com a Bolsa de Estudos Watson do Union College, o seu projeto de um ano, ou pelo menos U$ 25 mil dele, será financiado por uma doação do Thomas J. Watson Fellowship Program, um programa de bolsas criado em 1968 pela família do fundador da IBM.

As bolsas são concedidas anualmente a veteranos de 50 universidades e faculdades privadas de artes liberais e têm a função de dar a estudantes de potencial fora do comum a liberdade para que se aprofundem na exploração prática de assuntos que os interessem.

Os bolsistas entregam relatórios trimestrais e apresentam o que aprenderam ao final do ano. Um projeto Watson "precisa ser uma paixão dedicada e duradoura" diz David Cervone, presidente do Comitê Watson do Union College. "Estas pessoas formam um grupo notável. O que se procura são pessoas que serão modificadas de forma fundamental, e que aplicarão tal mudança a tudo o que fazem."

Alunos que receberam anteriormente as bolsas Watson do Union College estudaram Igrejas Renascentistas, estações de trens de estilo Beaux-Arts na Itália, o desenvolvimento do alaúde de braço longo na Ásia Central e o crítico literário alemão Walter Benjamin. O projeto de Noah sobre música punk, escolhido entre quatro finalistas da faculdade - pode parecer heterodoxo, mas apenas na superfície, diz Charles Batson, professor de francês que trabalhou com Noah durante o ano acadêmico, ajudando-o a lapidar a sua proposta antes que esta fosse analisada pelo Comitê Nacional Watson.

"Conforme diz um ditado corrente na fundação Watson, aquilo que eles estão procurando, em última análise, não é um projeto que levará à descoberta de uma vacina contra a varíola. O que eles buscam é Jonas Salk", diz Batson.

Para Noah, assim como para muitos fãs, o rock punk envolve um emaranhando de elementos contraditórios. Ele é ao mesmo tempo pessoal e público. É introspectivo e ostensivamente rebelde, amante da paz e agressivo, íntimo e global. É belo e grosseiro, inocente e malicioso, inteligente e ridículo.

Algo um pouco semelhante à escola secundária, que foi onde teve início a fascinação de Noah por este movimento freqüentemente vilipendiado, que se situa à margem do rock and roll. Noah foi criado na culta e diversificada região de Greenwich Village, sendo o filho único de pais altamente educados e profundamente liberais. Mas quando estava na sexta série, a família se mudou para Livingston, em Nova Jersey, e Noah se viu jogado "no ambiente banal e conformista da região suburbana daquele Estado".

Tudo lá era tão tranqüilo que ele tinha dificuldades para dormir.

"Aos cinco anos de idade eu conhecia galerias de arte e drag queens. O Village era uma overdose de cultura e, quando nos mudamos, me senti deslocado", conta Noah.

De acordo com o seu ponto de vista, ele não era suficientemente rico, pobre ou competitivo para se encaixar nos nichos tradicionais. Um diagnóstico de dislexia, quando tinha cinco anos, significou que, embora ele fosse excelente em inglês, a matemática era um suplício. O movimento punk, porém, consistia em um grupo que englobava tudo -- definido de forma não rigorosa pelo vestuário, pelo comportamento e, acima de tudo, pela preferência musical-- e que parecia transcender e se superpor às categorias fáceis.

Noah entrou na adolescência possuindo uma coleção de álbuns pop-punk, como Green Day e Blink 182, e cada vez mais atraído por roupas rasgadas. Mas, conforme aprenderia no período da escola de segundo grau, tinha ainda muito a aprender.

A mãe de Noah, Barbara Eber-Schmid, diz que o marido, em meio a gargalhadas, atribui a ela o fato de o seu único filho gostar do antipop.

"Quando eu estava grávida, houve um grande desfile de Halloween no Village, e naquele ano eu me vesti de punk", conta Barbara, que divide o seu tempo entre Livingston e Manhattan, onde ela e o marido dirigem uma empresa de Internet. Danilo Fonseca

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