Pais modernos assumem um papel maior na criação dos filhos

Douglas Brown
The Denver Post

Ser pai no século 21 é algo repleto de contradições entre gerações e expectativas conflitantes. Além disso, são necessárias instruções operacionais.

"Os pais assumem hoje mais responsabilidade em relação à criação dos filhos do que no passado", diz Jim Turner, 42, pai de quatro filhos de menos de sete anos. O seu blog, genuineblog.com, fala dos desafios enfrentadas pelos pais.

"Não contamos com muita orientação com base no que os nossos pais fizeram. Era a minha mãe que cuidava os filhos, e o meu pai era quem sustentava a casa. Era assim que as coisas funcionavam."

Os pais costumavam chegar do trabalho, ler o jornal em silêncio e falar com os filhos apenas quando estes estavam preparados para conversar sobre assuntos como esportes, motores de combustão interna, forças armadas e geopolítica.

Mas uma ou duas gerações atrás eles começaram a trocar fraldas, ler histórias infantis, beijar as testas dos pequenos após colocá-los na cama para dormir e, em alguns casos, até a dançar como duendes para divertirem as crianças.

O patriarcado tradicional esbarrou no papai moderno, e a idéia de pai começou a sofrer uma mutação que já dura 30 anos.

Não é que a poeira ainda não tenha assentado. Ela está em plena agitação.

Mas os pais contemporâneos têm idéias sobre o que é importante com relação a toda a aventura que é a paternidade.

Os conselhos deles, na maior parte das vezes, consistem em apelos para que se desafiem os estereótipos.

"Ouça bastante, especialmente em se tratando de uma filha", aconselha Daniel Glick, 44, escritor de Lafayette, no Estado do Colorado, que se tornou um pai solitário quando a mulher partiu há vários anos, deixando-o com os filhos. Ele acabou levando as crianças em uma jornada de cinco meses a vários locais exóticos, a maior parte deles na Ásia, e escreveu em 2003 um livro sobre as suas experiências, "Monkey Dancing" (literalmente, algo como "Dança do Macaco").

"Às vezes a minha filha necessita apenas falar, e me contar histórias sobre a sua vida. Não estou aqui para consertar nada ou dar conselhos. Isso é uma coisa bem típica de garotos, querer consertar tudo, e precisei aprender um pouco para entender que às vezes tudo o que podemos fazer é escutar."

O ingresso inesperado de Glick no clube dos pais solitários não foi algo que ele comemorou. Mas a sua entrada no mundo que a sua mulher costumava ocupar -- aquele dos números telefônicos dos pediatras, dos nomes dos professores de atividades esportivas e das atividades feitas após a escola -- o obrigou a "conhecer muito mais os detalhes das vidas dos filhos", diz ele.

"Se tivesse permanecido casado, conheceria menos os meus filhos do que os conheço atualmente", garante Glick. "Os homens costumam abdicar de algumas das responsabilidades referentes à criação dos filhos, transferindo-as para as mulheres, e creio que isso acaba resultando em dificuldades de relacionamento com as crianças."

Ele diz que, resumindo, os pais deveriam se insinuar mais profundamente nas vidas dos filhos.

Segundo ele, também ajuda quando os pais desenvolvem um "senso de intimidade" com os filhos. As mães geralmente atuam como confidentes, sendo, entre os dois genitores, aquele que inspira mais confiança nos filhos na hora de revelar segredos. Os pais com freqüência não conseguem desenvolver uma relação de confiança profunda com os filhos, e esta é uma habilidade que eles devem lutar para fortalecer, opina Glick.

Como é que os pais fazem para obter diretrizes sobre como proceder? Grande parte disso deriva de um processo de tentativas e erros, e, a seguir, de mais tentativas. Os pais que, quando crianças, foram criados em famílias nas quais havia a presença paterna, sem dúvida encontram pistas sobre como agir nas atitudes e métodos dos seus próprios pais. Mas nem sempre vale a pena passar para a próxima geração essas formas de procedimento.

Quando o filho de cinco anos de Robert Wilder, escritor e professor de Santa Fé, no Estado do Novo México, estava fazendo pirraça, o pai de Wilder sugeriu, sem nenhuma indicação de que estivesse brincando, que Wilder despejasse um balde d'água na cabeça da criança.

"Creio que todos nós ficamos aprisionados entre gerações", diz Wilder, 40, que acaba de publicar o livro "Daddy Needs a Drink" (algo como "Papai Precisa de um Trago") sobre as suas experiências como pai. "Temos que ser masculinos, precisamos ensinar coisas masculinas, mas ao mesmo tempo não queremos ser aquele tipo de pai durão. É preciso descobrir como achar um ponto de equilíbrio."

"Para mim, isso significa que, quando chego em casa do trabalho na escola, às 15h, não é hora de colocar os pés para cima e beber um Martini Beefeater Gibson", diz Wilder. "Estou sempre comparecendo a apresentações de dança e de hipismo dos meus filhos, além de dar banho neles e fazer outras tarefas do gênero."

O seu conselho para os pais, uma frase que não precisa ser interpretada necessariamente de forma literal, e que lhe foi dita por uma amiga que parece ter uma capacidade sobrenatural de sentar-se com os seus filhos e brincar é: "Primeiro tome uma cerveja".

"Creio que estamos sempre nos sentindo como se tivéssemos que trabalhar ou fazer outra coisa qualquer - recolher as folhas caídas das árvores, checar o nosso e-mail", diz ele. "Mas às vezes não há problema algum em tomar uma cerveja, sentar-se, brincar e reduzir um pouco o nosso ritmo".

Tampouco há problema em brincar quando não se tem experiência prévia.

O pai do diretor de documentários de Nova York, Scott Mactavish, saiu de casa quando ele era criança. "Portanto, quando me tornei pai, eu não tinha nenhum exemplo no qual me espelhar. Eu estava cego e sem pistas", conta ele.

No ano passado ele lançou o livro "The New Dad's Survival Guide" ("O Novo Guia de Sobrevivência do Pai"), a fim de ajudar os pais a descobrir como procederem, com base na sua experiência com a criação dos filhos, todos os três atualmente com menos de seis anos.

"A participação é fundamental", diz Mactavish, 41. "Para o meu filho, 'Guerra nas Estrelas' é a razão de ser de todo o universo. Agora sou capaz de manter uma conversa completa com ele sobre todos os personagens e as espadas de luz. Isso é algo de muito importante para ele. Tem gente que costuma rir disso, mas para ele, trata-se do tipo de coisa que o faz feliz."

Mas e quanto ao pai rígido e estóico, que impõe disciplina aos filhos? Seria esta a tradicional história do papel paterno?

Mactavish acha que não.

"Isso é algo que remonta à época do homem das cavernas", diz ele. "Espere até o papai chegar em casa. O papai trará para casa um mamute peludo e depois vai examinar essa história de você ter batido na cabeça do seu irmão com uma pedra."

"A minha mulher é professora. Ela tem voz de professora", acrescenta Mactavish. "Ela não é capaz de falar grosso como eu. As crianças sabem que eu falo sério."

"Porém, ao mesmo tempo, é importante que os pais sejam mais compassivos", diz Dave Thomas, 43, um empresário do setor de tecnologia de Denver, no Colorado, que também administra um site na Internet dedicado à "paternidade com vínculos", uma abordagem que gira em torno da criação de intimidade entre pais e filhos.

"Como homem, creio que uma das nossas reações reflexas em uma situação tensa é ser agressivo, e isso de fato não funciona com as crianças. No longo prazo, essa é uma má estratégia", diz ele. "A forma como eu reajo quando dois caras saltam sobre mim em um beco deve ser bem diferente da minha reação quando é o meu filho que pula em cima de mim."

Thomas também aconselha os pais a adotarem uma atitude estratégica a respeito dos seus inevitáveis sermões paternos. Às vezes, longos e austeros solilóquios sobre assuntos maçantes são necessários. "Entretanto, você fica sabendo nos primeiros cinco segundos que as crianças descartaram a sua fala. Nestes momentos as crianças estão pensando no fato de os colegas estarem brincando."

Segundo ele, entender esse fenômeno pode ajudar os pais a dosar as suas mensagens para obter o melhor efeito: a mensagem deve ser simples, enérgica e curta.

Pais solteiros, pais que não tiveram pais, pais que são filhos de patriarcas autoritários -- todos eles possuem pontos de vista interessantes. Mas poucos pais podem competir com Larry Bebo, de Berthoud, no Estado do Colorado, em termos de treinamento.

A sua "ninhada" é de 30 filhos.

"Eu tenho experiência", diz Bebo, um empreiteiro de 58 anos.

Ele e a mulher tiveram os seus dois primeiros filhos há mais de 30 anos. Depois que os negócios de Bebo começaram a prosperar, eles deram início a um frenesi de adoções, trazendo para casa mais de 28 crianças de todo o mundo -- a maior parte da Ásia -- e dos Estados Unidos.

Bebo diz que na sua família foi ele quem sempre trabalhou fora, enquanto a mulher ficava em casa cuidando das crianças, 12 das quais vivem atualmente na casa de 1.300 metros quadrados da família.

Ele não acredita que os pais devam desempenhar o papel de "a parte dura" da casa, um papel que o seu pai desempenhou. Em vez disso, as crianças são disciplinadas tanto pelo pai quanto pela mãe, quando fazem algo de errado.

Sentar-se para ler histórias para as crianças não era algo que Bebo costumava fazer, mas em 1991 ele levou nove dos seus filhos adotivos à Coréia do Sul para que conhecessem os seus parentes biológicos.

"Eles passaram duas semanas lá lidando com questões de abandono, e parados em frente a sepulturas, chorando", conta Bebo. "Vocês sabem, eu sou aquele tipo de cara que acha que os homens de verdade comem quiche."

Alguém poderia achar que, com 30 anos de experiência, ele tivesse uma definição clara de "pai" e daquilo a que a paternidade de fato diz respeito. Mas as coisas sempre evoluem.

"Você nunca conclui a tarefa de ser pai", diz ele. "Os filhos se casam e vão cuidar da própria vida, fazer suas próprias coisas, e eu ainda tenho que descobrir como ser o pai deles. Neste campo, precisamos sempre aprender novas coisas." Danilo Fonseca

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