Próximo presidente mexicano não deve 'virar o barco' nas relações com os EUA

Dudley Althaus
do Houston Chronicle
na Cidade do México

As eleições mexicanas de hoje podem levar à presidência um teimoso defensor dos pobres que prometeu reformular as prioridades econômicas de seu país e partes do pacto comercial com os EUA.

Seus críticos mais estridentes compararam Andrés Manuel Lopez Obrador a um ditador, um homem com um complexo messiânico, uma tendência megalomaníaca à guerra de classes e uma ameaça ao México e à região.

Então o que sua eleição -ou a de dois outros candidatos viáveis- significará para os EUA e suas relações com o México?

Provavelmente, quase nada, dizem analistas americanos e mexicanos.

Confrontos de política e disputas barulhentas em torno da imigração, combate às drogas e outras questões são tão certos para o futuro quanto eram no passado. Mas a maior parte dos analistas concorda que a agenda bilateral -definida por uma fronteira de 3.000 km, economias cada vez mais ligadas e uma população compartilhada em expansão- vai agüentar quem quer que vença a presidência hoje.

"Não haverá grande mudanca de direção do relacionamento. A principal diferença será de tom", diz Pamela Starr, especialista mexicana do Eurásia Group, de consultoria cujos clientes incluem corporações e firmas de Wall Street.

Com a dependência do México no comércio com os EUA e do dinheiro enviado para casa por milhões de mexicanos que vivem ao Norte da fronteira, nenhum político de nenhuma vertente no país pode se dar ao luxo de falar abertamente contra Washington, dizem os analistas.

E como a estabilidade e a prosperidade de seu vizinho no Sul é uma grande prioridade, o governo e o empresariado americano têm pouco interesse em enfatizar o lado negativo de quem subir à cadeira presidencial.

A opinião nos círculos políticos americanos é de que não se deve "virar o barco", diz o cientista político John Bailey, que ensina na Universidade de Georgetown e no Foreign Service Institute de Washington, D.C.

"Se Lopez Obrador vencer, os EUA vão iniciar uma ofensiva de sedução", prevê Bailey. "Os americanos fariam um verdadeiro esforço para encontrar uma forma de trabalhar com ele. Não tenho a impressão de que as pessoas estão muito preocupadas."

É claro que Lopez Obrador, 52, primeiro terá que vencer as eleições. E apesar de aparecer em primeiro lugar nas pesquisas de opinião mais recentes, sua vitória não está de forma alguma garantida.

Segundo as pesquisas, Lopez Obrador está em um empate estatístico com Felipe Calderon, 43, do Partido de Ação Nacional, de centro-direita, do presidente Vicente Fox. Roberto Madrazo, 53, candidato do partido que governou o México por quase todo o século 20, ficou para trás nas pesquisas, mas pode ainda superar a distância para a vitória.

Quando Fox e o presidente Bush foram eleitos com meses de diferença em 2000, a mídia alardeou suas similaridades como fazendeiros conservadores em favor do empresariado. Muito foi dito sobre o elo especial que os dois compartilhavam.

O discurso sobre as afinidades durou até que o governo Fox recusou-se a apoiar a invasão do Iraque no Conselho de Segurança da ONU e desapareceu totalmente com a animosidade bilateral nascida em torno da imigração mexicana ilegal para os EUA.

Agora, o novo presidente poderá manter os EUA em uma distância mais formal. Como todo político mexicano, os candidatos prometeram proteger os direitos humanos e civis dos imigrantes ilegais nos EUA, posição óbvia para ganhar votos aqui.

O próximo presidente do México provavelmente trará a política externa de volta ao foco tradicional de não intervenção nos assuntos de outros países e apoio a direitos humanos.

Calderon e outros opositores de Lopez Obrador acusaram-no de ser um esquerdista radical nos moldes do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, ou do líder boliviano Evo Morales. Segundo os opositores, ele danificaria profundamente a economia mexicana e o relacionamento com os EUA. Alguns nos EUA compartilham desse temor.

Os analistas, no entanto, dizem que essas preocupações provavelmente são infundadas.

Lopez Obrador -e Calderon e Madrazo- devem tentar reparar as relações com a América do Sul que se enfraqueceram nos últimos anos. Mas nem ele nem os outros devem se unir a Chavez para ficar batendo no governo Bush.

"O México não pode sustentar uma profunda alienação dos EUA", escreveu Starr em recente relatório para o Conselho de Relações Exteriores em Nova York. "Independentemente de quem for o presidente, o México provavelmente não abraçará a esquerda radical da América Latina."

Calderon fala inglês, estudou em Harvard e pode ser mais bem compreendido em Washington do que Lopez Obrador, que viajou pouco e mostra escasso interesse em política externa, dizem os analistas. Mas o relacionamento será determinado mais por interesses nacionais do que por estilos pessoais ou ideologias.

Lopez Obrador "tem sido muito conciliador com os EUA" em sua campanha, disse Jorge Chabat, especialista nas relações EUA-México. "Ele não quer um rompimento", disse o morador da Cidade do México.

Estarão, Starr e outros analistas inocentemente assobiando em um campo minado? Talvez.

Mas os assobiadores apontam para quanto o mundo mudou nos últimos 18 anos, desde que o candidato presidencial do partido de Lopez obrador venceu, ou quase venceu uma eleição manchada por amplas fraudes.

O governo americano apoiou firmemente o homem que se disse vitorioso, Carlos Salinas de Gortari, discípulo do mercado livre, formado em Harvard.

Como Lopez Obrador e milhares de outros partidários do PRI, o candidato de 1988, Cuauhtemoc Cardenas, deixou o partido em protesto às políticas de mercado livre que ele adotou. E como Lopez Obrador, Cardenas tinha feito campanha pela volta do passado mais populista do México.

Mas o mundo mudou nos anos 90. A fé de muitos mexicanos na economia planejada pelo governo e nos políticos de esquerda em geral caiu com o Muro de Berlim.

O Nafta atrelou a economia do México à dos EUA e Canadá. Apesar do crescimento fraco e desigual, a renda per capita dobrou.

O poder do PRI na política mexicana erodiu. A democracia nasceu.

Agora, apesar de representar muitas das mesmas aspirações de Cardenas, Lopez Obrador várias vezes repetiu que não tem a intenção de voltar no tempo.

Se vencer, seu governo vai se concentrar na revitalização econômica do campo e prover subsídios para os idosos e outros carentes, disse Lopez Obrador. A corrupção, os monopólios e evasões de impostos serão seus alvos. As indústrias de energia vão continuar estatais, e o México vai construir mais refinarias para processar o petróleo cru, grande parte do qual atualmente é refinado em Houston.

Mas o governo Lopez Obrador não vai recorrer à dívida pública ou alimentar a inflação, prometeu. Nem vai aumentar impostos ou criar novos. A independência do banco central mexicano será preservada.

"Não vamos agir irresponsavelmente", disse Lopez Obrador, no comício na Cidade do México na semana passada que marcou o final de sua campanha.
"Haverá uma administração técnica, não ideológica da economia."

Lopez Obrador prometeu repetidamente exigir negociações para apagar do Nafta os itens que até 2008 eliminarão todas as barreiras de importação de milho e feijão dos EUA e do Canadá. Essas importações ameaçam destruir o que restou dos pequenos agricultores do México, para quem os cultivos são um produto básico.

Os especialistas dizem que renegociar o pacto está fora de questão, mas que há mecanismos para adiar ou diminuir o impacto das importações. E dizem que provavelmente será do interesse dos EUA ajudarem o México a fazê-lo.

"Eles não podem renegociar o Nafta. Se as pessoas realmente quiserem fazer alguma coisa, será possível conseguir um acordo paralelo", disse Sidney Weintraub, especialista do centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.

"Não há sentido em começar com o pé esquerdo com Lopez Obrador, se ele vencer as eleições", disse ele.

De sua parte, Lopez Obrador e outros candidatos argumentam que criar empregos ou fomentar um setor agrícola lucrativo é o melhor caminho para ficar em bons termos com os EUA, pois manteria as pessoas em casa em vez de partirem para o Norte.

"A melhor política externa é a política interna", disse Lopez Obrador na semana passada. "Se houver progresso, justiça, segurança e paz social no México, eles vão nos respeitar lá fora." Deborah Weinberg

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