Prospecção de energia muda a vida no "velho oeste" americano

Nancy Lofholm e Kim McGuire
The Denver Post

Impulsionado pelos preços da energia, que mais que triplicaram nos últimos três anos, um boom de perfuração de poços de petróleo e gás invadiu as montanhas Rochosas, no Oeste dos EUA. No ano passado mais de 11 milhões de hectares de terras federais foram arrendadas por companhias de energia no Colorado, Wyoming, Utah e Novo México. Os quatro Estados também emitiram quase 20 mil licenças de perfuração de poços.

Enquanto as estruturas de perfuração e bombas salpicam a paisagem, o boom de energia também está alterando o tecido social e transformando as vidas no Oeste. Desde um fazendeiro do Novo México que luta para preservar sua herança cultural até um operário de 19 anos do Colorado que desfruta a bonança de dinheiro, os habitantes do Oeste estão vivendo numa terra em
transformação.

A cada verão, as oito cabanas vermelhas e brancas da pousada Rivera foram ocupadas por turistas que vinham pescar no rio Green e passear pelas montanhas Wind River, no Wyoming. Foi assim há 54 anos, desde que Doris e Buzz Burzlander compraram a pousada, hoje dirigida por sua filha, Barbara Pfaff.

Mas este verão será diferente em Pinedale. Ela já foi uma cidade de fazendeiros e turistas, mas hoje a rodovia US 191, que também é sua rua principal, está cheia de caminhões carregados de equipamento para perfuração de poços. "Acho que agora somos oficialmente uma cidade de petróleo e gás", diz Pfaff. "Não há nada que você veja na cidade que não seja movido por
petróleo e gás, desde os bancos até as imobiliárias e os motéis."

Quando os Burzlander compraram a Rivera Lodge em 1952, Pinedale tinha cerca de 770 habitantes. Enquanto Buzz dirigia uma loja de eletrodomésticos, Doris administrava a pousada. Os hóspedes voltavam todos os anos. Um habitué de Houston teve até sua lápide colocada lá, e suas cinzas espalhadas num ponto de pesca preferido. Em 1975, Barbara e seu marido, Andy Pfaff, compraram a pousada e criaram seus dois filhos num apartamento contíguo ao escritório.

Assim como os Burzlander, eles limpavam os banheiros, consertavam vazamentos de torneiras e espantavam algum alce ocasional.
Em 1993, a companhia de petróleo McMurry perfurou o primeiro poço comercial no campo de Jonah, uma jazida de gás natural a cerca de 50 quilômetros da cidade. Em 2000, as novas tecnologias e os altos preços da energia tinham transformado Pinedale em uma cidade pujante. Hoje a população do condado de Sublette cresceu para 1.600 pessoas. O Departamento de Administração
Fundiária dos EUA estima a atividade econômica do campo em US$ 30,5 bilhões nos próximos 76 anos.

O dinheiro já está transformando Pinedale. Embora a cidade ainda não tenha um semáforo, está construindo um centro aquático e de lazer de US$ 17 milhões. No ano passado, três bancos foram abertos e iniciou-se a construção de um hotel de cem apartamentos -- os moradores o chamam de "Halliburton Hilton", porque essa empresa de serviços para campos de petróleo de Houston arrendou o hotel por cinco anos.

Desejo de crescer
Existem outras mudanças. As detenções no condado de Sublette chegaram a 439 em 2004 -- um aumento de 270% em dez anos. Os preços das residências dispararam, com uma casa média hoje custando US$ 218 mil. Em 2004 o valor médio no Wyoming era US$ 147 mil. Pfaff, 60, prevê que o boom será rápido.

Enquanto isso, ela diz, as empresas que não atendem ao setor de energia estão sendo prejudicadas.

A câmara de comércio local está rejeitando turistas de verão que procuram alojamento em Pinedale, porque não existe. "É por isso que não concordo com muita coisa que está acontecendo na cidade", disse Pfaff. "Essa pousada não foi feita visando dinheiro. Nós ganhamos dinheiro, ganhamos a vida com ela, mas nunca foi a força propulsora deste lugar."

Em agosto passado os Pfaff decidiram vender o negócio. Eles pretendem colocá-lo no mercado no fim do verão -- depois de se despedir de alguns antigos hóspedes. "Meu coração e minha alma estão neste lugar", disse Barbara. "Mas, como meus pais, eu sou realista. E percebo que está na hora de me desligar."

Aos 19, o operário Seth Wettlin tem todos os brinquedos que um bom salário pode comprar, e está poupando para ser um estudante universitário em tempo integral. Tendo terminado há apenas um ano o colegial em Rifle, Colorado, Wettlin tem uma nova camionete Toyota, o mais moderno equipamento de snowboard, um bom laptop e uma pilha de DVDs.

Tudo isso está sendo pago pelo boom de petróleo e gás, que está colocando US$ 3.600 por mês no bolso do ex-escoteiro que se transformou em operário.

"Eu sempre soube que ia ganhar um bom dinheiro, mas não sabia que viria tão rápido", ele disse. Alguns anos atrás, o jogador de futebol e alpinista poderia estar trabalhando como garçom por um salário mínimo mais gorjetas no café Base Camp, ou viajando 90 quilômetros até Basalt, Colorado, para trabalhar com máquinas pesadas pela metade de seu salário atual.

Mas, com 3.600 licenças de perfuração emitidas no condado de Garfield nos últimos dois anos, a economia cresceu, cortando o índice de desemprego em um terço, para 3%. Rifle, uma cidade de trabalhadores, teve seu surto energético mais cedo. Em 1982, a comunidade perdeu 2.200 empregos quando o desenvolvimento de xisto betuminoso foi abandonado. "Como eles viram seus pais perder os empregos, tinham medo de entrar nesse negócio", disse Clayton Thygerson, que dá cursos de tecnologia para campos de petróleo no Colorado Mountain College.

Hoje os formandos do colégio de Rifle conseguem contratos para empregos que, embora perigosos e sujos, pagam US$ 18 por hora ou mais. "Sendo o mais jovem, eu tinha de fazer o trabalho mais pesado", disse Wettlin. "Se alguém mais velho estivesse usando um martelo, eu tinha de pegá-lo e fazer o serviço." Wettlin trabalha de 12 a 16 horas por dia durante sete dias
seguidos, então tira uma semana de folga. Esses empregos estão transformando a cidade, que já foi uma fonte de moradia barata para trabalhadores que limpavam quartos de hotel e trabalhavam em restaurantes em Aspen e Vail.

As autoridades locais estão se preparando para um aumento da população para 8 mil a 20 mil nas próximas duas décadas. Também há esperanças de que esse sucesso melhore os números que revelam que mais de 15% dos moradores de Rifle não se formaram no colegial e apenas 13% têm diplomas superiores.

"Esta é uma oportunidade de ouro para ter mais educação", disse Joel Journey, coordenador dos programas de indústria energética no Colorado Mountain College.

Um campus novo e maior, financiado pela indústria, permitindo que a faculdade amplie as classes dirigidas para energia, está em construção.

Wettlin está poupando para a faculdade. Apesar de seu horário de trabalho duro, ele está fazendo dois cursos online para ter uma base melhor quando for para a faculdade em tempo integral no outono de 2007. "Já aprendi que dinheiro não é tudo o que quero", ele disse. "E fazer esse tipo de trabalho é uma ótima maneira de aprender sobre o mundo real."

Terras em disputa
Gilbert Armenta, um fazendeiro do Novo México, mineiro de carvão e descendente dos colonos mexicanos, olha para o rio San Juan, que corta sua terra. "Esse rio aí faz o que quer", diz Armenta, com o chapéu de caubói protegendo-o do sol do meio-dia. "E agora, de repente, sou responsável por sua cheia?", ele pergunta. "Isso é intimidação." Armenta, 59, está numa
disputa legal com a XTO Energy Inc., que opera 12 poços de gás natural em sua propriedade de 57 hectares.

A companhia sediada em Houston processou Armenta em janeiro, alegando que ele causou um prejuízo de mais de US$ 300 mil ao lhe recusar acesso à sua propriedade. Armenta diz que a companhia tem direito legal a usar uma estrada que atravessa suas terras, e que esse direito desapareceu quando o rio encheu, em maio. Desde então Armenta se recusou a permitir que a
companhia entre em sua propriedade, obrigando a XTO a fechar os poços, segundo afirma a empresa nos autos do processo. Um juiz tentou um compromisso legal, decretando que a XTO deveria ter permissão para construir uma nova estrada e indenizar Armenta pela perda de propriedade.

Essa não é a primeira batalha entre os perfuradores e a família Armenta -- ou outras famílias mexicano-americanas donas de fazendas nesta terra de pinheiros e pastagens. "Eles nos tratam como se não existisse nada aqui", diz Virginia Armenta, apontando para sua cabeça. O primeiro Armenta chegou pela Trilha Espanhola em 1860 para negociar com os índios e acabou se
instalando perto do rio San Juan. O Sindicato Azteca perfurou o primeiro poço de gás natural comercial na bacia do San Juan em 1921, e desde então as companhias de energia e os agricultores de origem mexicana vivem lado a lado.

Hoje, cerca de 50 famílias no condado de San Juan dizem que estão lutando para preservar um legado cultural que está estreitamente ligado à terra que eles possuem e de que cuidam há um século. As famílias se uniram para negociar coletivamente com as companhias energéticas, para conseguir acordos de uso de superfície que as compensem pelos danos. Elas querem usar o modelo adotado pelas tribos indígenas da região, algumas das quais têm boas relações com as companhias. "Tudo o que queremos é ser tratados com justiça", disse Ernest Valencia, dono de uma fazenda perto de Blanco, Novo México. "Você não vê essas empresas arranjando brigas com os apaches ou os utes."

A tensão entre os proprietários de terra e as companhias energéticas que detêm os direitos dos minérios embaixo dessas propriedades vem crescendo em todo o Oeste. As assembléias legislativas do Novo México e do Colorado tentaram aprovar leis este ano para enfrentar a chamada questão da propriedade dividida e estabelecer direitos de proteção aos donos da
superfície. Mas as iniciativas falharam. Grupos de vigilância do setor, porém, dizem que as famílias do condado de San Juan poderão ser o primeiro grande grupo mexicano-americano a enfrentar questões de direitos fundiários.

Em 1957, os pais de Armenta, Filomeno e Rafaelita, arrendaram sua terra para um perfurador e receberam um sinal de US$ 25. A família pensou que os perfuradores ficariam lá por dez anos, mas 49 anos depois eles permanecem. Armenta, que se aposentou há quatro anos das minas de carvão BHP, diz que recebe cerca de US$ 1 mil por mês em royalties dos poços situados em sua terra, onde ele cria 37 vacas. Mas os Armenta dizem que os poços e seus compressores causam mais problemas do que renda. Eles já vazaram, explodiram e emitem odores ruins e ruídos fortes, disse Armenta. Ele diz que não quer perder mais terras e pretende fazer uma apelação da decisão do juiz que permite a nova estrada da XTO. "Nós já entregamos tanto da nossa terra, por que eu daria mais 10%?", disse Armenta. A XTO não respondeu a pedidos de declarações por telefone e e-mail. Armenta diz que está lutando para continuar criando gado em sua terra e manter uma pequena produção de feno que lhe rende algumas centenas de dólares a cada verão.

"Tantos já fizeram sacrifícios por essa terra, por que eu deveria desistir?", disse.

Kathy Price Mashburn olhou pela janela de sua livraria em Vernal, Utah, para o outro lado da US 40, outra estrada lotada de caminhões de equipamentos de perfuração, para a torre branca do outro lado da rua. Encimada por um Anjo Moroni dourado, a torre é há cem anos um ponto importante dessa remota cidade agrícola e de perfuração. Na década de 50, quando Mashburn, 54,
estava crescendo, três quartos dos cerca de 2.800 habitantes de Vernal eram membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. As portas ficavam abertas. O comércio parava aos domingos. "Esta comunidade continua forte e unida", diz Mashburn. "Mas não sei onde tudo isso vai acabar."

Nos últimos 18 meses, 855 poços de gás natural foram perfurados na bacia Uinta, perto da cidade, segundo a Divisão de Petróleo, Gás e Mineração de Utah. E muitos antigos moradores, incluindo Mashburn e seu marido, Allan, estão prosperando com esse êxito. Mashburn triplicou os aluguéis de algumas das cinco casas que ela aluga e abriu uma segunda livraria. Allan, que
também é prefeito de Vernal, administra a companhia local de gás e petróleo, Baker Petrolite. A população de Vernal deverá crescer para 100 mil até 2010, segundo as autoridades.

Executivos das duas grandes companhias de serviços de campos de petróleo, Halliburton e Schlumberger, estão construindo novas casas ao redor do campo de golfe Dinaland, numa elevação que os moradores já chamam de "Colina dos Esnobes". O morro já fez parte da fazenda de criação de carneiros dos irmãos McKeachnie, uma das famílias mórmons que colonizaram a região. "Este mundo mudou, e realmente não gostei", diz Lyle McKeachnie em seu parque de trailers.

Para os recém-chegados, Vernal pode parecer apenas uma cidadezinha próxima aos campo de gás natural Buttes. Mas para os descendentes dos pioneiros mórmons, que tiraram uma vida das planícies cheias de cactos e se reuniram em Vernal por medo dos massacres indígenas, este é um terreno sagrado. A cidade ainda tem só uma loja de bebidas alcoólicas de propriedade do Estado.

Uma placa feita a mão na loja de roupas Murphy. S' anuncia "roupas para missionários". Mas o surto de petróleo e gás fez da população mórmon uma minoria na cidade. Hoje em dia o estacionamento do Wal-Mart está lotado mesmo aos domingos. Cafeterias, antes impensáveis pois a igreja proíbe cafeína, surgiram em pelo menos três locais.

A loja de bebidas está tendo um enorme sucesso. "Antes tínhamos dias lentos", diz a atendente da loja, Raelynne White. "Agora não mais." Mashburn olha para o tráfego diante da livraria e diz que esperava que os novos moradores vejam Vernal como algo mais que uma escala no caminho do petróleo. "Não quero que eles nos mastiguem e depois cuspam." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos