Como uma aventura de piratas se transformou num sucesso de bilheteria

Michael Boot
The Denver Post

Muitos sucessos de bilheteria do cinema parecem óbvios quando apreciados em retrospectiva. As imagens dos filmes têm o poder de fazer com que o seu próprio sucesso pareça ser inevitável.

O original "Piratas do Caribe - A Maldição da Pérola Negra" ("Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl", EUA, 2003) bateu recordes de bilheteria no ano do seu lançamento, apoiado pela mágica de marketing do reino da sinergia da Disney: milhões de pessoas já navegaram no parque temático baseado no filme, na Disneylândia e na Disney World.

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    Johnny Depp abalou o coração das espectadoras. O diretor Gore Verbinski estava acabando de chegar de um grande sucesso, "O Chamado" ("The Ring", EUA, 1992). Orlando Bloom era um astro de "O Senhor dos Anéis" ("Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring", EUA/Nova Zelândia, 2001). Keira Knightley era a face nova da produção independente de sucesso "Driblando o Destino" ("Bend It Like Beckham", EUA, 2003). E Jerry Bruckheimer dispensa apresentações.

    Mas, para entender como "Piratas do Caribe" se tornou importante para a Disney, neste momento em que a continuação estréia nos cinemas, precisamos enxergar no filme de 2003 aquilo que ele era de fato: um cenário de fugas, repleto de bucaneiros vestidos com roupas largas.

    A Disney não fazia um sucesso de ação para toda a família desde o filme "Duelo de Titãs" ("Remember the Titans", EUA, 2000). Os filmes de pirata eram o gênero que se tornara alvo de piadas, depois de desastres como "A Ilha da Garganta Cortada" ("Cutthroat Island", EUA/França/Alemanha/Itália, 1995). Depp era conhecido como um rebelde boêmio e irascível, e não como um herói adorável.

    E o mais preocupante era o fato de a iniciativa anterior da Disney no sentido de transformar um passeio em parque temático num sucesso das telas ter sido o infame "Beary e os Ursos Caipiras" ("The Country Bears", EUA, 2002).

    Aquele filme, uma estranheza maçante semelhante a uma visita a uma Chuck E. Cheese [rede de restaurantes dos EUA especializada em pizza e diversões para crianças] sem a pizza, só recuperou US$ 17 milhões do seu orçamento de US$ 35 milhões, tendo sido descrito pelo "Boston Globe" como "88 minutos de 'diversão' durante os quais o espectador tenta desviar os olhos dos animatronics".

    Será que os críticos, que sempre desdenharam de Bruckheimer, estavam afiando os seus cutelos para cair sobre "Piratas do Caribe" naquele mês de julho?

    Sim, estavam.

    "Tinha muita gente questionando como é que se podia fazer um filme a partir de um bando de piratas em volta de um monte de crianças que passeavam num parque temático", diz Bradley Silver, diretor da companhia de marketing pela Internet Brandimensions.

    Mas a sua companhia não percebeu uma maré se movendo na direção contrária no início daquele ano, à medida que as salas de bate-papo na Internet ficavam cheias de novos apelidos tirados de nomes associados ao filme.

    "Enquanto Depp, e depois Verbinski, e a seguir Knightley e Bloom assinavam um contrato para participar do filme, surgiu o boato de que dali sairia uma obra que valeria a pena ser vista", conta Michael Coristine, analista de entretenimento da Brandimensions que acompanha cerca de 50 filmes por temporada.

    "A impressão era a de que o que estava vindo seria uma produção de sucesso", diz Coristine

    "É difícil superestimar o impacto de Depp no original", afirma Robin Diedrich, analista de uma companhia de ações da mídia que trabalha para a corretora Edward Jones, de Saint Louis. "Depp inventou um pirata química e sexualmente desequilibrado, conquistando novos fãs entusiasmados por um entretenimento alegre".

    "Johnny Depp acertou na mosca. O resultado poderia ter sido muito ruim", opina Silver.

    "Ele desejava fazer parte de um filme que as crianças pudessem assistir", conta Dennis Rice, diretor de publicidade do estúdio de cinema da Disney. "A surpresa foi constatar como o filme mostrou ser divertido para os espectadores".

    Depp conseguiu transformar tal surpresa em uma indicação para o Oscar de melhor ator naquele ano.

    "Bobagem", disse a crítica

    Vários dos comentários iniciais dos jornais foram generosos, mas um grupo de críticos conhecidos descartou "Piratas do Caribe" como sendo mais uma bobagem de Bruckheimer.

    "Recebemos um polegar para cima e outro para baixo de Ebert e Roeper", observa Rice.

    "Os críticos esperavam um filme tolo de ação e aventura", diz Senh Duong, co-fundador do popular site de crítica Rottentomatoes.com. O site de Duong agrega críticas de cinema de todo o país, e o primeiro "Piratas" terminou com um índice de aprovação de 79%, em vez de se transformar no fracasso que alguns esperavam.

    "O 'Piratas do Caribe' foi um dos filmes de ação e aventura mais analisados pela crítica naquele ano", explica Duong. "A maioria dos críticos recomendou o filme como fonte de grande diversão".

    "Piratas do Caribe" gerou uma renda de US$ 46 milhões nos seus três primeiros dias nos cinemas, uma cifra poderosa em se tratando de um filme divulgado pela Disney como diversão "para pessoas de oito a 80 anos". A ação já era esperada, mas o aspecto humorístico foi divulgado de boca em boca, diz Rice.

    O resto não passou de expectativa frívola da Disney e dos cineastas. "Piratas do Caribe" foi responsável pela arrecadação de US$ 305 milhões nos Estados Unidos, tornando-se o 21º filme na lista dos que geraram mais lucros na história do cinema. Ele gerou mais US$ 350 milhões nas bilheterias dos cinemas estrangeiros, e vendeu milhões de cópias de DVD.

    Rice alega que a Disney esperou pela reação da audiência antes de pensar seriamente em uma continuação. Porém, não demorou muito para que Depp assinasse novamente um contrato com a empresa, assim como Verbinski e outros indivíduos que participaram do primeiro filme.

    Eles concordaram em filmar a segunda e a terceira partes, e também em reservar tempo para outros projetos. "Piratas do Caribe 3" estreará em meados do ano que vem.

    Grandes negócios

    Os analistas financeiros estão prevendo que a Disney possa ser vítima de expectativas ainda mais elevadas. Um sucesso com um filme de ação pode ser algo ainda mais importante para a Disney neste momento, já que os trabalhos de animação do estúdio não têm gerado bons resultados nos últimos anos.

    Desde então, a Disney fez trabalhos conjuntos com a sua parceira intermitente na área da animação, a Pixar ("Carros", "Os Incríveis" e "Toy Story"), e quer provar que ainda conta com idéias promissoras para atrair parceiros.

    Diedrich diz que a sua firma vê com otimismo o desempenho da seqüência de "Os Piratas do Caribe", e acredita que o filme gerará uma renda um pouco superior à do primeiro.

    Mas isso seria realmente uma façanha. Somente um filme ultrapassou a barreira dos US$ 300 milhões no ano passado: "Star Wars III - A Vingança dos Sith" ("Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith", EUA, 2005).

    "O fato de o primeiro filme ter sido uma surpresa tão maravilhosa gera grandes expectativas quanto a esta seqüência", afirma Rice, da Disney.

    Os monitores de boatos da Brandimensions estão aconselhando a Disney a relaxar. "Eles estão mantendo aquilo que dá certo, e é isso o que a platéia quer", afirma Silver. "Coloquemos a coisa da seguinte forma: a Disney está interessada nos grandes negócios". Danilo Fonseca
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