O que seria de "South Park" sem controvérsia?

David Kronke
do Los Angeles Daily News

A que conclusão se pode chegar a respeito de Trey Parker e Matt Stone,
criadores de South Park, o fato de eles terem presidido a mais inteligente e reflexiva sessão nas manhã da última quinta-feira, durante uma coletiva à imprensa, organizada pela Associação de Críticos de Televisão, em Pasadena?

"Não queremos perder a nossa vantagem, mas, ao mesmo tempo, desejamos
envelhecer graciosamente", disse Parker. "Estamos de fato f... Estamos perdendo a nossa vantagem, mas temos a esperança de que estamos
ganhando outra coisa".

Parker e Stone discutiram, entre outras coisas, os seus controvertidos
episódios sobre a Cientologia e a "Guerra das Charges", com repórteres de televisão por ocasião da décima temporada de "South Park". Após ter ganhado um Emmy e um Prêmio Peabody, um dos programas mais anárquicos da televisão se tornou - tremam - respeitável.

"Ser indicado para o Emmy foi o nosso pior pesadelo, mas quando ganhamos, ficamos realmente felizes", disse Stone. "Portanto, houve uma certa hipocrisia".

Parker acrescentou: "Nós éramos os garotos punk-rock que de repente se
tornaram os melhores alunos do mês".

Melhores alunos do mês que ainda são capazes de gerar bastante controvérsia.

O episódio de "South Park" sobre a Cientologia, que zomba da religião, além de emitir opiniões embaraçosas sobre a sexualidade de Tom Cruise, foi retirado da rede de televisão devido a reclamações - isso até ser indicado para o Emmy devido ao seu roteiro (o episódio retorna ao ar na semana que vem).

Parker e Stone inscreveram o roteiro para a indicação ao Emmy com o objetivo de protestar contra o fato de a rede ter retirado o episódio do ar. "Aquilo foi o que tínhamos que fazer", afirmou Parker. "Eu não creio que aquele tenha sido, de forma alguma, o nosso melhor programa".

"Estávamos sendo simplesmente f.., de fato", acrescentou Stone.

Inicialmente, os dois se esquivaram do assunto, por temerem a reputação da Cientologia de mover processos na Justiça, mas resolveram falar após serem autorizados pelos advogados da rede de televisão. A seguir, ele escreveram e produziram o episódio em quatro dias, e o colocaram no ar no quinto.

"Se no nosso programa fosse daquele tipo que fica na prateleira por dois meses, o episódio jamais teria ido ao ar", afirmou Stone.

"Os seguidores da Cientologia ficaram de fato muito felizes", acrescentou Parker.

Na verdade, os dois não ouviram nenhum comentário dos representantes da
religião.

"Eles têm a reputação de intimidar as pessoas", disse Stone. "Mas tudo isso não passa de besteira. A mídia os transformou nesses monstros. E eles gostam dessa reputação porque isso faz com que as pessoas não os provoquem".

Eles venceram a guera contra a Cientologia, mas ainda não triunfaram sobre o islamismo fundamentalista - ou sobre a timidez dos executivos da Comedy Central, que se recusaram a permitir que a dupla apresentassem uma imagem de Maomé depois das manifestações letais que se seguiram à publicação de charges dinamarquesas zombando do profeta do Islã.

Parker disse que quando viu pela primeira vez as reportagens de TV sobre as manifestações, com o título "A Guerra das Charges", acreditou que os protestos se deviam a um episódio anterior de "South Park" que mostrava Maomé como um super-herói cujo poder era a sua capacidade de se transformar em um castor (e ele fez notar que este episódio continua sendo transmitido sem censura).

"Tão logo vi assisti às reportagens, gritei: 'Ok, vamos fazer um episódio sobre isso", contou Parker.

"Quem é que não faria um episódio sobre esse tema?", acrescentou Stone.

Ao final de um episódio em duas partes, no qual todos os moradores dos
Estados Unidos, temendo uma retaliação terrorista, enterram a cabeça na
areia a fim de evitar assistir a um episódio de "Family Guy" que inclui a controversa imagem, a imagem em si foi censurada pela rede de televisão.

Doug Herzog, presidente da Comedy Central, afirmou: "Foi uma medida de
prudência. Nos sentimos mal porque Parker e Stone ficaram bravos, e nos
chamaram de covardes. Será que reagimos exageradamente? Com certeza. A
história provavelmente demonstrará tal coisa".

"Não obstante, quando o episódio for lançado em DVD, a imagem provavelmente será ainda omitida", concluiu Herzog.

"Se a imagem tivesse sido colocada no ar como planejávamos, e as
manifestações de fato ocorressem, nós teríamos nos sentido super f...,
mas não se pode andar para trás. Nós caímos em cima de todo mundo. Se eles ameaçam os outros e saem impunes, então por que os católicos, os cristãos, e todos os outros também não podem fazer ameaças", questionou Parker.

Por outro lado, os dois foram elogiados por outros animadores que também gostaram do ataque a "Family Guy", cujos autores foram retratados como peixes-bois em um tanque.

"No dia seguinte à exibição do episódio, nós recebemos flores de 'Os
Simpsons'", conta Parker. Ouvimos de algumas pessoas de 'King of the Hill' que estamos fazendo o trabalho de Deus. Essa não é apenas a nossa opinião".

Já a conferência de imprensa da rede a respeito de duas séries que serão lançadas chegou à beira do caos. Para "The Naked Trucker and T-Bones Show" ("O Show do Caminhoneiro Pelado e de T-Bones"), os astros Dave Allen (o caminhoneiro) e David Koechner (T-Bones), participaram do evento com um comportamento condizente com o episódio, encarnando dois idiotas sulistas donos de uma erudição surrealista.

E, sim, Allen estava de fato pelado (uma guitarra cobria as partes que não podem ser vistas na TV), ou pelo menos era essa a impressão que se tinha. Quando um jornalista observou que ele estava usando um protetor genital, os dois ameaçaram roubar o laptop do repórter.

Eles interpretaram uma canção intermitentemente suja e ocasionalmente
divertia chamada "I Like", que de forma alguma será confundida com "My
Favorite Things", e a seguir Allen vestiu um roupão.

A entrevista à imprensa resultou em pouquíssimas informações, em vez de ter sido uma oportunidade para que os dois esclarecessem as coias. Koechner perguntou a uma jornalista qual era o número do seu quarto no hotel, e quando um repórter lhe indagou a respeito do que pensava sobre o filme "Amargo Pesadelo" ("Deliverance", EUA, 1972), ele demonstrou uma indignação veemente . "Você está me perguntando se gostaria de fazer sexo amarrado a uma árvore?". O repórter desistiu da pergunta.

A entrevista de David Cross e H. Jon Benjamin sobre a série animada que está por vir, "Freak Show", sobe uns tipos esquisitos que são super-heróis medíocres, foi ainda mais hostil, embora decididamente engraçada. Os dois zombaram abertamente das perguntas, algumas das quais eram bem estúpidas. Um repórter lhes perguntou sobre shows para a Internet, algo que nenhum dos dois nunca fez.

Um outro jornalista perguntou a Cross - um comediantes favorito do público cult, que estrelou em "Arrested Development" e em "Mr. Show" - a respeito de um artigo que ele escreveu para uma revista. "Certas pessoas fazem referência ao artigo de uma maneira que começa como uma pergunta, mas que termina de um jeito que não lembra muito uma pergunta", respondeu ele. Em determinado momento, Cross pediu a um jornalista que acordasse um outro repórter. Quando lhe indagaram sobre o show de animação, Cross tentou explicar o processo, mas depois disse simplesmente: "Na verdade, ninguém dá a menor bola".

Quando um jornalista prefaciou uma pergunta com o dizer, "Esta é para David", Cross empurrou Benjamim da cadeira. Mais tarde, quando todas as perguntas foram dirigidas a Cross, o comediante ordenou ao seu parceiro escritor que deixasse o local.

Ele saiu, momentaneamente, mas, depois, quando um repórter finalmente se dignou a dirigir uma pergunta a Benjamin, Cross interrompeu: "Eu não
terminei de responder à minha pergunta".

A pergunta dirigida a Benjamim era sobre o significado da letra "H" no seu nome; "É essa a pergunta que vocês me fazem?", resmungou ele, e se recusou a responder. "Trata-se de uma letra do alfabeto que significa um som", disse ele.

Cross concluiu: "Existe uma divisão nítida nesta sala entre as pessoas que se divertem conosco, aquelas que nos acham agradáveis e as que não gostam de nós". Danilo Fonseca

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