Contra-intuitivo: para Kevin Smith, "O Balconista 2" é uma experiência de crescimento

Bob Straus
do Los Angeles Daily News

Os personagens de "O Balconista" voltam à caixa registradora.

Doze anos depois de seu primeiro filme, financiado com cartão de crédito, o autor diretor Kevin Smith volta a tratar da vida de dois fracassados de Nova Jersey, os balconistas Dante (Brian O'Halloran) e Randal (Jeff Anderson), em "O Balconista 2". Para Smith, é de fato um passo orçamentário para trás, uma volta para sua zona de conforto de diretor independente, depois dos golpes de crítica e financeiros desferidos contra seu filme mais comercial até hoje, "Jersey Girl".

Para O'Halloran e Anderson é um passo adiante do original, que foi filmado à noite em torno de uma loja de conveniência chamada Quick Stop, no bairro de Garden State, onde cresceram. "O Balconista 2", de US$ 5 milhões (em torno de R$ 12,5 milhões) estréia na sexta-feira (21/7) e se passa em uma lanchonete imaginária chamada Mooby's, que de fato foi construída em um Burger King abandonado em Buena Park Cast e toda a equipe hospedou-se no Days Inn do outro lado da rua.

Este foi o ápice do glamour de Hollywood para O'Halloran, ator que ainda mora em Jersey, e Anderson, que ganha a vida fazendo dublagens desde que se mudou para Los Angeles, há 10 anos.

Quanto a Smith, a volta para suas raízes decadentes era apenas algo que sua alma exigia.

"Parecia haver muita trepidação por parte das outras pessoas. Eu achava que era uma boa idéia", diz Smith sobre uma seqüência do filme de seu amado clássico cult. "No final das contas, realmente só posso seguir minha intuição. Não sei como os outros trabalham, mas eu não penso com base na carreira."

Desde que "O Balconista" colocou no mapa este aluno que abandonou a faculdade de cinema, Smith abordou, em seu formato de baixo calão, mas ainda assim filosófico, assuntos controversos como o amor homo e hetero ("Procura-se Amy") e religião ("Dogma"). No entanto, foi a loucura da mídia em torno dos astros de "Jersey Girl", Ben Affleck e Jennnifer Lopez, que levou o diretor de volta aos prazeres mais simples da comédia de insultos nojenta.

Smith lembra-se do tormento que foi promover "Jersey Girl": "Você passa dois anos de sua vida tentando contar uma história. Quando chega a hora de falar da história, só o que as pessoas querem saber é sobre o diamante cor de rosa, como eles são juntos e por que romperam. Vejam, eu não era a terceira parte naquele relacionamento -por que não perguntam a eles? Eu queria fazer um filme que ninguém ligasse para as histórias de bastidores, em que a história de frente fosse de fato a coisa importante."

Quase não aconteceu. Apesar de "O Balconista" continuar sendo o trabalho mais conhecido de Anderson e O'Halloran e dos dois atores terem feito as vozes das séries de desenho nascidas do filme, Anderson não achou que voltar aos seus papéis característicos seria uma boa idéia.

"Precisei de um longo tempo até entrar de todo. Ainda acho que só mergulhei completamente depois de uns quatro dias de filmagem", diz ele. "Nos primeiros dias, eu ia até o set, depois ficava sentado no carro por cinco a 10 minutos pensando: 'Devia ir embora'. Mas Kevin tinha uma ilha de edição no set e, lá pelo quarto dia, ele me mostrou parte do material editado e não era ruim -me fez rir. Então, quando decidi realmente participar, foi muito divertido."

"Se 'O Balconista 2' fosse feito três ou quatro anos após o primeiro, realmente teria fracassado", considera O'Halloran. "O que teria mudado em suas vidas nesse período? Acho que um tempo maior ajuda. De fato, o personagem cresceu", acrescenta O'Halloran. "Sim, eles passaram 10 anos trabalhando na loja de conveniência. Mas tentaram fazer faculdade, e não funcionou. Muitas pessoas estão nesse tipo de situação. Mas o crescimento emocional é surpreendente no segundo filme. Não acho que as pessoas vão esperar isso, especialmente dos dois personagens principais."

Na seqüência, depois de Randal acidentalmente incendiar a Quick Stop, ele e seu colega mais responsável Dante retomam suas 'carreiras' na lanchonete.
Mas há mudanças maiores: Dante está noivo de Emma (interpretada pela mulher de Smith, Jennifer Schwalbach), que pretende levá-lo para a Flórida, onde seus pais têm um lava-carros para eles administrarem. Dante, porém, apaixonou-se por Becky (Rosário Dawson), gerente do Mooby's.

Enquanto isso, até Randal, que usualmente só fala bobagem, está tendo pensamentos incomuns sobre o futuro. Caso você esteja se perguntando, os traficantes Jay (Jason Mewes) e Silet Bob (Smith) assumiram suas posições no estacionamento do Mooby's. Jay é desagradável como sempre, mas até ele mudou um pouco: passou por um centro de reabilitação e encontrou Jess.

"Se Brian ou Jeff tivessem dito: 'De jeito nenhum, não faço', não haveria sentido procurar outros atores", insiste Smith. "Mas quando escrevi, eles entenderam que veríamos mais dos personagens em termos de seu crescimento emocional. Não é só uma repetição. Para mim, é um filme sobre como me sinto aos 30. 'O Balconista' era sobre como me sentia aos 20."

Atualmente casado e feliz, pai de uma menina, empresário de vários sites da Web, lojas de histórias em quadrinho e outras parafernálias da cultura popular, Smith parece ser um modelo de maturidade.

Então por que seu novo filme contém discussões gráficas de ato sexual estranho, repetição gratuita de motivos raciais e até uma cena animal que não se veria nem nos ramos mais miseráveis de entretenimento do Terceiro Mundo?

"Reconheço plenamente que algumas dessas coisas do filme são mais absurdas do que fizemos antes", admite Smith.

"Mas nunca foi um esforço consciente para ampliar os limites -ou rebaixá-los, dependendo de sua perspectiva. Não escrevo para provocar uma reação que não seja o riso. E baseado nos últimos 12 anos, muitas coisas que acho engraçadas, outros também acham. Mas nunca ninguém viu um show de burro como este antes, isso é certo."

Há alguma coisa que os atores se recusam a fazer em algum dos filmes de Smith?

"No 'Balconista' original, havia uma cena em que eu encomendava filmes pornô e ia listando uma série de títulos absurdos", lembra-se Anderson. "Eles estavam escritos em um pedaço de papel, e eu disse ao Kevin antes de começar a filmar: 'Em algum momento, minha mãe vai me pedir para ver este filme. É realmente necessário passar por toda essa lista? Não dá para se ter uma idéia depois de alguns títulos?' Ele respondeu: 'Sim, devolva-me a lista'.
Quando estávamos prontos para rodar, ele me entregou de volta o papel e tinha acrescentando mais cinco títulos. Logo aprendi a não reclamar alto demais sobre nada. Sabia que havia uma cena com um burro neste, e sabia que eu estaria apenas perifericamente envolvido, então não quis dizer nada desta vez. Quanto à cena com Wanda Sykes e Earthquake (comediantes que fazem marido e mulher), vi pelo ponto de vista de Randal. Mas quando você está fazendo, sua mente grita o tempo todo: 'Não diga isso!' Vai contra tudo que você se treina para dizer e fazer."

Falando nisso, não existe alguma regra implícita contra passar uma hora agarrando a esposa de seu patrão?

"É um dia estranho quando no trabalho te pedem para agarrar a mulher do chefe inúmeras vezes, enquanto ele vê e filma a coisa toda", diz O'Halloran. "Mas Jennifer foi ótima! Digo, ela estava realmente nervosa. Ela tinha feito 'Jay & Silent Bob Strike Back' e 'Jersey Girl'; não era nova em cena. Mas foi realmente estranho, conhecer uma pessoa por tanto tempo, depois ter que agarrar ela."

Felizmente, Smith é maduro para isso em seus 30 anos.

"Se fosse Ben Affleck, talvez eu tivesse suado um pouco mais", ri o diretor. "Mas as chances dela me deixar por O'Halloran não são muito altas, então me sinto bastante seguro. Apesar de ter havido um momento que me fez querer ser um marido melhor.

Devido a dificuldades técnicas, eles ficaram se agarrando um longo tempo. Quando chegamos na 15ª tomada, concluí que Brian O'Halloran tinha passado mais tempo namorando a minha mulher do que eu em oito anos que estivemos juntos. Então, naquela noite quando terminamos, puxei minha mulher para o quarto e disse: 'Vamos nos agarrar por uma hora e cinco minutos. Não posso deixar O'Halloran ter o recorde!'"

Obviamente, o tempo muda tudo. Bem, talvez uma coisa não. Quando chegou a hora de voltar ao Quick Stop, em Nova Jersey, para filmar as cenas finais de 'O Balconista 2', o casal que ainda é proprietário, os Topper, recusou-se a fechar as portas durante as gravações -assim como fizeram no primeiro "O Balconista".

"Os Topper, que Deus os abençoe, têm a cabeça no lugar", diz Smith. "Eles dizem: 'Você pode filmar aqui, tudo bem, mas não vamos fechar a loja para você fazer isso'. Você diz: 'Bem, isso dificulta um pouco as coisas.' E eles dizem: 'Sabe o que? Seus filmes vêm e vão. As pessoas compram leite aqui todo dia.'"

"É um pouco estranho, porque às vezes, no meio de uma tomada, alguém entra para comprar cigarro. Mas dá para se virar", diz Smith. Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos