Woody Allen redescobriu a sua agilidade como diretor

Lisa Kennedy
The Denver Post

"E quanto a mim? E quanto ao vizinho na porta ao lado?... Não há nenhum problema quanto ao fato de eu ter que morrer?"

Esta é a questão melancólica que o fantasma de uma mulher idosa apresenta ao seu assassino no filme "Ponto Final" ("Match Point", Inglaterra/EUA/Luxemburgo, 2005), que estreou no inverno passado do Hemisfério Norte, obtendo aclamação dos críticos, e se revelando o maior sucesso de bilheteria de Woody Allen em décadas.

Reuters - 24.jul.2006 
Woody Allen com Scarlett Johansson, musa de dois de seus últimos longas



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É um momento de um ace, um exemplo daquilo que poderia ocorrer se Sófocles concedesse um serviço a Venus Williams. É verdade que o assassino, um profissional do tênis, tenta responder a pergunta da mulher com um topspin, mas trata-se de uma tentativa moral fracassada.

Uma aparição também se materializa para roubar a ação em "Scoop" (EUA/Reino Unido, 2006). A comédia rápida de mistério e assassinato dirigida por Allen estreou na última sexta-feira, estrelando Allen, a líder do seu "Ponto Final", Scarlett Johansson e Hugh Jackman.

E, assim, uma pergunta natural -- ou seria sobrenatural? -- surgiu durante uma recente conversa telefônica com Allen, que está filmando o seu terceiro trabalho consecutivo em Londres.

Você acredita em fantasmas?

"Não", respondeu o diretor e roteirista de filmes tão marcantes como "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" ("Annie Hall", EUA, 1977) e "Crimes e Pecados" ("Crimes and Misdemeanors", EUA, 1989), e tão modestos como "Simplesmente Alice" ("Alice", EUA, 1990).

"Foi algo estritamente científico. Não tenho paciência para com fenômenos sobrenaturais, ou cristais, ou astrologia, ou percepção extra-sensorial, ou qualquer coisa do gênero. Acho que tudo isso não passa de bobagem."

Desculpem a tautologia, mas há algo de uma natureza tranqüilizadora alleniana na resposta de Allen.

Não se trata apenas dos ritmos inconfundíveis do homem de 70 anos, cuja voz e fraseado esquisito faz parte da nossa realidade há cinco décadas. Por exemplo, após pegar o fone, Allen me aconselhou: "Fale claramente porque os telefones nesta casa não são suficientemente articulados".

"É a idéia de que o uso de um artefato artístico tem uma função científica. É divertido utilizar isto em histórias ficcionais", disse ele. "Mas, na vida real, sou um humanista teimoso, prático, científico e secular."

Desde "Melinda e Melinda" ("Melinda and Melinda", EUA, 2005), do ano passado, o humanista secular parece ter redescoberto a sua agilidade como diretor. É tentador localizar um renascimento criativo na produção recente de Allen -- até mesmo no erro intencional de "Scoop". Afinal, os diretores de cinema freqüentemente fazem trabalhos impressionantes nos seus últimos anos de produção.

Então a idade modificou a forma como ele faz cinema?

"Vejo isso de forma diferente", diz Allen. "Durante muitos anos, na verdade décadas, sem tentar, fiz um filme por ano. Agora estou fazendo um filme em Londres. Editarei este filme de maneira bem rápida. Depois ficarei por aí e, depois de uns dois meses, farei um outro filme porque é assim que as coisas acontecem."

Ele diz que se concentra na idéia que o atrai no momento. Os seus filmes muitas vezes contam com as preocupações e gestos recorrentes encontrados nos trabalhos dos escritores prolíficos de contos. Ele revisita. Ele revisa. Ele reconta a partir de uma nova perspectiva.

"As platéias gostam de alguns trabalhos. De outros não. Creio que alguns deles são bons, e que as platéias e os críticos não foram justos. E às vezes os críticos e as platéias são excessivamente generosos para comigo. O filme que faço agora poderia ser maravilhoso ou catastrófico. Se essa idéia for realmente tão dramaticamente interessante quanto eu acho que ela é, então ela deveria entreter bastante as pessoas. Mas se eu adivinhar erradamente, ou se executá-la mal, não haverá sucesso."

Ele faz uma pausa. "Mas eu sou a mesma pessoa imatura que era com vinte e poucos anos."

Allen acaba de concluir a segunda semana do drama que está filmando em Londres. O lançamento está programado para o verão de 2007.

Ao contrário do que ocorre em "Scoop", ele não atua no novo filme.

"Sempre é mais divertido quando eu não apareço no filme", diz ele, embora alguns dos seus melhores filmes mostrem evidências contrárias. "Eu não preciso fazer a barba todos os dias. Posso relaxar. A responsabilidade de atuar recai sobre as outras pessoas. Se eu consigo bons atores, algo com que fui abençoado neste filme, eles fazem com que o meu material tenha uma aparência realmente boa. Quando você é norte-americano e ouve ingleses interpretando o seu material, isso realmente soa como um milhão de dólares."

Game. Set. "Match Point".

Uma história de riqueza, desejo, ambição e, sim, assassinato, "Ponto Final" foi um entretenimento de verdade para a platéia e apresentou uma trama intrincada de uma forma que agradou aos críticos.

O filme deu ouvidos aos dilemas éticos que Allen explorou em "Crimes e Pecados". Mas pairando acima disso havia também o espectro de um clássico norte-americano bem diferente deslocado para o ambiente da classe alta britânica, "Um Lugar ao Sol" ("A Place in the Sun", EUA, 1951).

Em "Ponto Final", Allen capturou Scarlett Johansson sob uma ótica diferente. A sua personagem Nola começa como a mais agradável das consumidoras. E a direção da perseguição romântica parece bastante óbvia: Smitten Wilton (Jonathan Rhys Meyers) continuará com a sua perseguição intensa até destruir a vida suntuosa que conquistou. Mas quando Nola fica grávida, a beleza é transformada em uma besta problemática necessária, não muito diferente da personagem Shelley Winters no clássico de George Stevens, baseado em "Uma Tragédia Americana", de Theodore Dreiser.

Todos os que testemunharam a interação entre Allen e a sua estrela durante "Ponto Final" disseram a Allen que ele deveria fazer algo com Johansson, que à época tinha 19 anos.

"Eu fazia piadas constantes com Johansson, e ela sempre foi mais engraçada que eu. Toda vez que eu brincava com Johansson, ela me superava, e sempre fazia grandes observações de maneira fantástica. Assim, pensei comigo mesmo, 'É verdade, esta menina é realmente um talento cômico'. Adoro mostrar as pessoas o quanto ela é agradável."

Em "Scoop", o lendário copista da Fleet Street, Joe Strombel (Ian McShane) está em um barco que navega lentamente para o Hades quando ouve aquilo uma dica que teria garantido o maior furo jornalístico de toda uma vida profissional. Sujo de tinta até mesmo neste amargo além, ele descobre a forma de passar essa dica a uma médium improvável, a estudante de norte-americana de jornalismo representada por Johansson.

Se a personagem anterior de Johansson, Nola, mergulhava na histeria, a sua Sondra Pransky, de "Scoop", mostra coragem e insolência.

Allen faz o papel de Sid Waterman, aliás, Splendini, um mágico norte-americano que gosta de dizer aos seus voluntários frases leves, lisonjeiras e aduladoras enquanto os conduz para uma grande caixa. É nessa caixa que Strombel encontra Pransky.

Allen admite que se arriscou ao empurrar Johansson rumo à frivolidade. "Com bastante freqüência temos algo que é bastante engraçado fora da tela, mas que quando é filmado se torna muito desagradável", explica o diretor. "Esta poderia ser uma dessas coisas engraçadas para mim, para a equipe e para Scarlett, mas bastante irritante para o resto do mundo. Mas não creio que o resultado tenha sido tão ruim. Scarlett é indestrutível, não importa o que solicitemos que ela faça. Ela é um talento tão grande quanto foi, ou é, Diane Keaton."

Olhando em retrospectiva para "Melinda e Melinda" é possível agora adivinhar a composição de uma maravilhosa, apesar de acidental, trilogia.

A comédia-tragédia reconta a história de amor de Melinda sob duas óticas, a da tragédia e a da comédia.

Tendo Johansson como a personagem constante e a alta-sociedade britânica como pano de fundo, "Ponto Final" e "Scoop" atacam o assassinato e a classe social a partir do túmulo, assim como o ponto de vista dos estúpidos.

Uma trajetória similar do sério ao idiota ocorreu na transição que levou Allen do brilhantemente seguro de si "Crimes e Pecados" a "Assassinato Misterioso em Manhattan" ("Manhattan Murder Mistery", EUA, 1993), que estrelou Allen e Keaton. Pense nisso como em "Janela Indiscreta" ("Rear Window", EUA, 1954) de Alfred Hitchcock recontado como uma comédia com dois detetives casados trapalhões. À época, "Assassinato Misterioso em Manhattan" gerou críticas mistas.

Mas Allen gosta muito de agradar a si próprio. E a sua postura faz com que ele revele independência de uma forma que muitos diretores jovens invejariam, e com a qual aprenderiam.

"Quando fiz 'O Que é Que Há, Gatinha?' ("What's New Pussycat", EUA, 1965), aquele foi um sucesso enorme", dez ele sobre a comédia de 1965. "Eu escrevi o roteiro, mas não fui o diretor. E acabei sendo humilhado pelo trabalho. Achei horrível, entendi que eles haviam destruído o meu roteiro. Mas todos foram ao cinema assistir ao filme. Ele não me deu prazer algum. Por outro lado, fiz filmes que os críticos ou o público detestaram, mas dos quais eu gostei. E eu tive algum prazer com isso".

Por falar em independência, talvez nenhum outro diretor tenha sido usado com tanta freqüência como adaptador para cineastas jovens e idiossincráticos. Lembram-se de quando Spike Lee foi apresentado como o Woody Allen negro?

Assim, como é que o artigo genuíno se sente com relação a isso?

"Eu me lembro de ter conversado certa vez com Martin Scorsese. Eu lhe dizia - e não por falsa modéstia, mas apenas por uma questão de observação - que sentia que não influenciei ninguém. Marty influenciou incontáveis pessoas. Todo cineasta que surge procura fazer filmes como Marty, seja Spike Lee ou até mesmo diretores mais velhos, como Brian de Palma, sejam brancos ou negros. Todos foram influenciados por ele. O que é uma prova da sua grandeza, e creio que isso é muito legal."

A seguir, este diretor que é clarinetista faz uma analogia que nos lembra de novo como ele é um mantenedor e modificador das artes norte-americanas, das piadas de vaudeville aos truques de Catskill e às notas de jazz e blues.

"Bud Powell, o grande pianista, influenciou todos que vieram depois dele", argumenta Allen. "Thelonious Monk, que era um pianista perfeito, não influenciou ninguém. Sinto que me encaixo nesta categoria. Fiz alguns trabalhos bastante decentes, mas eles nunca tiveram influência. Enquanto ele faz uma pausa, eu penso em como adoro Monk.

"And on that cheerful note..." Danilo Fonseca

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