Série Mundial de pôquer atrai público como nunca

Neal Rubin
do The Detroit Times

O sujeito mais ranzinza que conheci foi um profissional de pôquer antigo em Las Vegas, chamado Sarge Farris, que era universalmente conhecido como o melhor jogador de cinco cartas "stud" do mundo.

Infelizmente para Farris, ninguém joga cinco cartas "stud" seriamente há anos. Provavelmente ele não era muito sorridente nem mesmo nos tempos em que conseguia encontrar um jogo, mas quando eu o conheci, em 1980, era também universalmente conhecido como um dos maiores sovinas do mundo.

O estilo de pôquer de grandes apostas preferido já tinha se tornado o Texas Hold'em. E isso foi antes de sua grande expansão dos últimos anos, que tornou a lendária Série Mundial de Pôquer no que é hoje: um programa de televisão.

A Série Mundial é o "American Idol" para pessoas pálidas que passaram muito tempo curvadas sobre algo -uma mesa de pôquer, se forem da escola antiga, ou um computador, se fizerem parte da nova onda que descobriu que podia jogar on-line sem ter o inconveniente de ter que se vestir.

Com o último e mais famoso evento da série anual de torneios em curso, parece ser momento certo para explicar um pouco o jogo. Eu não estava lá no início dos anos 70, mas conheci algumas pessoas que estavam.

Sarge Farris foi convencido a jogar hold'em, apesar de não ser seu forte. O que mais poderia fazer com seu tempo? Assistir jogos?

O Texas Hold'em sem limite de apostas tem tudo o que a televisão precisa, belamente empacotado em torno de mesas ovais verdes: vencedores, perdedores, ação, personagens coloridos, drama, tramas claras, enormes apostas.

Os melhores jogadores escrevem livros, criam marcas de óculos escuros e endossam sites de pôquer.

Pode-se dizer que são como atores, exceto que são os atores que querem ser como eles. Ben Affleck, Dean Cain, Elizabeth Shannon, Louie Anderson e Brad Garrett entraram para a Série Mundial neste ano.

Jennifer Tilly não só joga -muito bem, aliás- mas mora com o profissional dublinense Phil (O Unabomber) Laak.

Quando cobri os primeiros estágios da Série Mundial, há 25 anos, o grande contingente da mídia consistia de um sujeito com uma câmera de vídeo do tamanho de uma bazuca e eu. A Série Mundial era jogada no Horseshoe Casino, no centro, e os participantes eram tão fáceis de impressionar que o proprietário, Benny Binion, atraia-os colocando garras de caranguejo em seu bufê servido apenas para jogadores.

Cerca de 80 jogadores conseguiam a taxa de inscrição de US$ 10.000 (em torno de R$ 22.000) para a etapa final, uma disputa de hold'em sem limite de apostas chamada de Grande Jogo, ou Principal Evento ou simplesmente pelo título de Série Mundial. Stu Ungar, um nova-iorquino impressionantemente esquelético venceu o campeonato e levou US$ 375.000 (em torno de R$ 825.000).

Quando o Grande Jogo de 2006 começou na sexta-feira, no Rio All-Suite Hotel and Casino, de 51 andares, um recorde de 8.725 participantes estavam em campo. O último jogador sentado, quando o torneio terminar no dia 10 de agosto, levará US$ 11 milhões (cerca de R$ 24,2 milhões).

Editando furiosamente, os funcionários da Espn vão apresentar o Grande Jogo no dia 22 de agosto. Ou, se você não puder esperar, pode assistir o duelo na mesa final no pay-per-view ao vivo por US$ 24,95 (em torno de R$ 55).

A Espn marcou transmissões de vários torneios da Série Mundial até o Dia das Bruxas. Isso além das repetições e repetições de campeonatos de anos passados e todas as outras competições de pôquer em todos os canais de televisão a cabo, do Bravo até o Travel Channel.

Ansiosos para colocar mais traseiros nos assentos das mesas de pôquer de Las Vegas e Reno, gerentes de cassinos reconheceram há décadas que precisavam promover o jogo.

Eles pensaram em usar como porta-voz Amarillo Slim Preston, um provocador antigo que certa vez apostou que ia de camelo até o cassino, mas ele não jogava mais. Os jovens campeões da próxima onda, como Bobby Baldwin e Chip Reese, eram intimidadores demais.

Foi preciso um executivo da televisão para finalmente entender qual era o segredo do sucesso, há poucos anos: mostrar as cartas tapadas de todo mundo.

Graças a minúsculas câmeras na beirada das mesas, o público pode hoje ver exatamente o que o ex-advogado Greg (FossilMan) Raymer, aquele com óculos escuros estranhos, tinha como munição quando aumentou em US$ 400.000 (cerca de R$ 880.000) a aposta sobre Chris (Jesus) Ferguson, PhD em computação com cabelo comprido e chapéu de caubói.

O fato do Texas Hold'em ser um jogo fundamentalmente simples ajuda a torná-lo popular.

Conta a lenda que o hold'em foi inventado por caubóis que precisavam de um derivativo do pôquer que pudesse incluir muitos jogadores sem acabar com um baralho de cartas.

A mão começa com cada jogador recebendo duas cartas tapadas. Depois de uma rodada de apostas, a banca coloca três cartas abertas no meio da mesa, conhecidas como "flop". Outra rodada de apostas precede outra carta aberta, conhecida como quarta rua ou virada.

Então vem outra rodada de apostas e a última carta -chamada de rio ou quinta rua- e sim, mais apostas.

O que o separa dos outros estilos de pôquer é que todos os jogadores usam as cinco cartas abertas no centro da mesa, combinando-as com suas duas cartas tapadas para fazer a melhor mão de cinco cartas. Como tantas cartas são de conhecimento comum, os blefes são tão freqüentes quanto as caretas de Sarge Farris.

Os dois jogadores à esquerda da banca são obrigados a fazer as primeiras apostas, uma pequena e uma grande. No jogo comum de qualquer casa, a pequena pode ser de R$ 0,50 e a grande de R$ 1. O jogador da esquerda da grande deve pagar o R$ 1, desistir ou aumentar, e as apostas continuam no sentido do relógio. Nos torneios, as apostas aumentam regularmente, tornando caro ficar sentado e esperar por uma mão inicial ótima, como dois ases ou a combinação ás-rei, conhecida como Big Slick.

A maior parte dos jogos de pôquer têm aposta mínima e máxima. Em jogos sem limite, como a final da Série Mundial, os jogadores podem apostar tudo o que têm, um processo conhecido como "entrar com tudo". É uma decisão que provoca efeito, sem mencionar falência e divórcio.

A primeira Série Mundial de Pôquer não incluía um duelo sem limite de aposta. Binion juntou 35 profissionais em seu cassino em 1970 e, depois de uma semana de jogos de apostas altas, eles votaram em Johnny Moss como o melhor jogador do planeta e deram-lhe a taça de prata.

No ano seguinte, Moss venceu o campeonato e ficou novamente com o título, junto com US$ 30.000 (aproximadamente R$ 66.000). O prêmio e o número de participantes cresceu dramaticamente desde então. Em 1983, quando um contador fracassado deliciosamente franco chamado Tom McEvoy venceu o evento, seu prêmio foi de US$ 580.000 (cerca de R$ 1.27 milhão).

O prêmio subiu para US$ 1 milhão (em torno de R$ 2,2 milhões) em 1991 e inflou para US$ 2,5 milhões (aproximadamente R$ 7,7 milhões) quando Chris Moneymaker foi campeão em 2003. Ele chegou ao Grande Jogo investindo US$ 39 (em torno de R$ 88) para entrar em um torneio on-line e venceu 838 jogadores.

O público mais do que triplicou em 2004, aparentemente acreditando que, se Moneymaker podia vencer, qualquer um poderia, e o número de participantes passou para 5.619. Depois outro salto quântico neste ano, está claro que a Série Mundial de Pôquer tornou-se um fenômeno cultural amplo.

Em algum lugar, até Sarge Farris está sorrindo. Deborah Weinberg

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