Bolivianos e EUA avaliam Evo Morales

Rebeca Chapa
do San Antonio Express-News
em Cochabamba, Bolívia

Aos 79 anos, Lolita Antezana disse estar "velha demais para me envolver em política".

Mas mesmo ela se vê empolgada com o novo presidente da Bolívia, Evo Morales. Ela o viu na televisão, jogando futebol com alguns meninos em La Paz, um ato claramente não presidencial, ela disse.

"Ele está pavimentando estradas e disse que fornecerá alimento e serviços para os idosos", ela disse. "A Bolívia é muito pobre. Eu acho que ele melhorará as coisas para nós."

Esta é a esperança de muitos na Bolívia, um país andino marcado por grande pobreza, cismas étnicos e políticas econômicas fracassadas.

Morales, um índio aimará, foi elevado à presidência no início deste ano com uma plataforma de mudança radical, juntamente com seu partido, o Movimento Ao Socialismo. Sua eleição foi histórica e representou um mandato claro. Ele obteve 54% dos votos, um resultado sem precedentes, e se tornou o primeiro presidente indígena da Bolívia, um país de maioria indígena.

Segundo os padrões políticos bolivianos, este é um momento divisor de águas, um momento que muitos consideram uma nova era de igualdade e oportunidade. Mas nos Estados Unidos, é causa de crescente alarme entre aqueles que consideram Morales como o mais recente esquerdista polarizador em uma maré crescente de lideranças sul-americanas que ameaçam os interesses americanos.

"O que você vê em Washington é uma mentalidade da Guerra Fria, que considera estas mudanças políticas, que são muito necessárias para fazer com que o capitalismo funcione na América Latina, como algum tipo de revolta não justificada", disse Mark Weisbrot, co-diretor do Centro para Pesquisa Política e Econômica, em Washington.

"O governo Bush claramente não quer este governo e fará tudo o que puder que não se volte contra ele."

Em um mundo globalizado, Morales agora caminha sobre a linha tênue entre fornecer um clima estável para os interesses de negócios estrangeiros e afrouxar as cadeias econômicas e sociais que mantiveram presa grande parte da sociedade boliviana por séculos.

Morales é tudo menos enfadonho. Nos últimos meses, ele tem acusado os
Estados Unidos de enviarem soldados para a Bolívia disfarçados como
estudantes ou turistas e alegou que os Estados Unidos tentaram assassiná-lo (apesar de não ter dado dados específicos). Ele freqüentemente usa frases como "colonização", "Vida longa à coca!" e "Morram ianques!" em referência às políticas econômicas e de combate às drogas americanas e seus autores.

Apesar de ambíguo em relação a acordos comerciais com os Estados
Unidos -primeiro fortemente contrário a eles, agora aberto ao debate- ele é mais estridente em relação a outros assuntos. Ele recentemente nacionalizou o setor de hidrocarbonetos do país ao renegociar contratos com empresas estrangeiras. E em um tapa contra o combate às drogas, ele está abandonando os esforços americanos para eliminar a produção de coca, o principal ingrediente da cocaína.

Particularmente perturbador para as autoridades americanas é o
relacionamento estreito de Morales com o presidente venezuelano Hugo Chávez e com o líder cubano Fidel Castro, que não medem palavras quando se trata de expressar sua antipatia em relação aos Estados Unidos.

A abordagem populista de Morales é baseada na afirmação da soberania
econômica do país diante da influência estrangeira e na proclamação do valor de sua população indígena.

Ainda não se sabe se tal tática funcionará domesticamente na Bolívia. Mas aumenta a divisão no relacionamento chave entre os Estados Unidos e seus vizinhos do sul.

"Eu acho que há um argumento muito forte a favor de uma atenção de maior nível às questões latino-americanas por parte dos Estados Unidos", disse Vinay Jawahar, até recentemente um analista político da Diálogo Interamericano, em Washington.

"Com a guerra contra o terror e a ênfase em coisas como Estados fracassados, há uma interdependência global que significa que todos temos um interesse em assegurar que não tenhamos instabilidade desenfreada, especialmente quando estamos falando do vizinho ao lado."

Localizada no centro da América do Sul, sem acesso ao oceano, a Bolívia é o país mais pobre do continente, com uma renda anual per capita de US$ 869. Cerca de 62% de sua população é classificada como indígena, segundo dados do Banco Mundial.

Sua topografia é diversa, da região árida, montanhosa, no oeste, à planície tropical, viçosa, da região de Chapare, no centro do país.

Os povos indígenas, principalmente os aimarás, quéchuas, chiquitanos e os guaranis, falam línguas diferentes, se vestem de forma diferente e vivem em partes distintas do país. Historicamente, eles são os bolívianos mais marginalizados. Hoje, eles são os cidadãos mais pobres, com menor saúde e com menor grau de instrução em um país onde o poder tradicionalmente se concentra entre a classe rica, mestiça.

"O governo relegou os indígenas a uma invisibilidade, biológica, econômica e cultural", disse Pablo Mamani Ramírez, um professor de sociologia da Universidade de El Alto, perto de La Paz.

Unidos etnicamente por séculos pelo seu fardo, os indígenas agora estão
unidos politicamente por um presidente que se parece com eles, se veste como eles e, eles dizem, os escuta.

Neste sentido, a eleição de Morales representa uma mudança sísmica,
provocada por confrontos políticos liderados pelos indígenas nos últimos anos, incluindo a muito divulgada "guerra da água" em Cochabamba, em 2000, e a chamada Guerra do Gás, em 2003.

A revolta diante de uma proposta de um duto de gás natural passando pelo Chile -um antigo adversário- para exportação para os Estados Unidos provocou uma série de protestos e bloqueios ao redor de La Paz, que no final provocaram a queda do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que atualmente vive em Maryland. O governo boliviano pediu uma investigação do papel dele no confronto sangrento entre as forças armadas e os moradores, que terminou em 60 mortes.

A Guerra do Gás era a manifestação mais recente de uma crescente
insatisfação entre a maioria indígena. A participação política cada vez
maior dela é a principal responsável pela ascensão de Morales ao poder.

Um ex-trabalhador rural, Morales iniciou sua vida política no movimento
sindical e ficou em segundo lugar na eleição presidencial de 2002. Agora, ele é o que muitos indígenas chamam de "um de nós".

A Bolívia foi governada por vários regimes militares até o início dos anos 80, quando eleições democráticas se estabeleceram por toda a América do Sul.

Em 1985, a Bolívia adotou um pacote de reformas econômicas neoliberais
promovida por economistas de Washington como uma rota para a estabilidade.

Muitos governos na América Latina adotaram o modelo, incluindo privatização, liberalização do comércio, aumento do investimento estrangeiro e um fluxo irrestrito de capital, disse Jim Shultz, diretor do Centro da Democracia, uma organização de direitos humanos sem fins lucrativos com sede em Cochabamba.

"Os governos acreditaram nesta ideologia de 'adote o livre mercado e o livre mercado o libertará'", disse Shultz.

A nova direção, chamada de "terapia de choque", funcionou, retirando a
Bolívia de uma crise econômica marcada por inflação de até 24.000% ao ano.

Mas 20 anos depois, o neoliberalismo não atingiu sua grande meta. A pobreza e o desemprego estão desenfreados e a Bolívia continua um país sem um poder de barganha real no mercado global.

As condições estavam propícias para um presidente esquerdista com um
zeitgeist alternativo.

"É errado interpretar isto como uma simples mudança no pêndulo ideológico."

"Está acontecendo devido ao fracasso prático das políticas de Washington", disse Schultz. "Evo começou a falar sobre o modelo neoliberal e se tornou a personificação eleitoral de todas estas preocupações."

O amplo apelo de Morales está em sua capacidade de se conectar ao boliviano comum. Seu suéter de lã de alpaca característico o diferencia dos presidentes trajando ternos de outrora. Um de seus primeiros atos no governo foi reduzir seu salário pela metade, para cerca de US$ 1.700 por mês; espera-se que seus ministros façam o mesmo. Dizem que ele inicia seu dia de trabalho religiosamente às 5 horas da manhã e segue uma agenda rigorosa.

"Ele entende a gente e nossas vidas", disse Tomas Calle, um barbeiro em La Paz. "Os outros (ex-presidentes) não pensavam na Bolívia. Eles só pensavam em si mesmos."

Apesar do governo de Morales representar uma nova direção para muitos
bolivianos, o país está longe de estar unido quanto ao que o futuro lhes reserva.

Os esforços para transferir um quinto das terras da Bolívia para os pobres ao longo dos próximos cinco anos foi recebida com desprezo por proprietários de terras revoltados, que consideram a redistribuição injusta. Os bolivianos de classe média e alta estão enfurecidos, particularmente na área rica de Santa Cruz, onde se encontra a maioria das reservas de gás natural do país.

Em uma recente eleição, quatro dos nove Estados bolivianos -os mais ricos- votaram por autonomia em relação ao governo federal.

A nacionalização por Morales dos hidrocarbonetos ameaça alienar os
interesses corporativos americanos, assim como países como Brasil e Espanha, dois dos maiores investidores no gás natural boliviano. O decreto determina que as empresas maiores -aquelas que produzem 100 milhões de barris ou mais por dia- devem dar ao Estado boliviano uma participação de 51%. Os contratos anteriores davam à Bolívia uma participação de 18%.

A proposta de Morales de nacionalizar outros setores, incluindo
eletricidade, mineração e telecomunicações, tem feito investidores
internacionais olharem atentamente para o horizonte.

Apesar do esforço para reter um percentual maior dos lucros dos recursos naturais do país ser vista de forma positiva por alguns bolivianos, outros estão incomodados com a retórica antiamericana de Morales. Eles temem que isto levará a mais problemas para a nação andina.

"É perturbador porque não podemos contar com a Venezuela ou Cuba por
assistência", disse Jorge Diaz, um taxista em Cochabamba. "Morales precisa ser mais diplomático. Os Estados Unidos nos dão muita ajuda e agora os estamos afastando. Quão longe podemos ir assim?"

A resposta a esta pergunta poderá muito bem definir o futuro político da Bolívia diante do resto do mundo. E apesar de persistir o desacordo em relação às políticas de Morales, todos concordam em uma coisa: navegar tal futuro não será fácil.

"Evo acorda toda manhã em meio a tantas rochas e locais duros que ele não tem muito espaço para se mover", disse Schultz. "Política é assim." George El Khouri Andolfato

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