Fãs viajantes não se importam em ir longe para assistir a concertos

Adam Graham
do The Detroit Times

Coachella, Bonnaroo e Lollapalooza: apesar dos nomes parecerem de estudantes estrangeiros de Marte, estes festivais de vários dias estão ajudando a modificar o cenário de shows nos EUA.

Os três festivais -junto com o Austin City Limits- trazem dúzias de bandas que tocam em palcos múltiplos, em locais abertos e não tradicionais.

Eles não só atraem dezenas de milhares de fãs anualmente, mas também alguns dos mais quentes nomes da música popular hoje, desde Madonna (que tocou em Coachella neste ano) até Radiohead (que foi o principal nome de Bonnaroo) até Kanye West e Red Hot Chili Peppers (principal nome no Lollapalooza neste final de semana, em Grant Park em Chicago).

Fãs aventureiros e de mente aberta -que não se importam em passar o final de semana inteiro vendo bandas em um campo aberto- gostam dos eventos por causa da experiência comunitária compartilhada e da programação, que serve a seus gostos alternativos e indie.

"Essa é a forma como as pessoas querem assistir aos shows atualmente", diz Charles Attal, produtor executivo do Lollapalooza e do Austin City Limits. "Você prefere ir a um anfiteatro de concreto ou a um parque verde e agradável?"

Não é que os anfiteatros estejam desaparecendo. Mas a experiência musical ficou cada vez mais sem graça com a abundância de shows nostálgicos excursionando ano após ano -Creedence Clearwater Revisited, de novo?- e os festivais estão oferecendo uma alternativa excitante ao público.

Matthew Peabody, de Grosse Pointe, Michigan, esteve no festival Coachella da Califórnia nos últimos três anos e irá pelo segundo ano seguido ao Lollapalooza.

"Você pode ir a esses eventos e ver 25 a 30 diferentes bandas, ficar pulando de gênero musical", diz Peabody, 29. "Posso assistir a todos os concertos do verão em três dias, em vez de três meses."

Os festivais, em grande parte, copiaram os modelos europeus, como Glastonbury, Reading e Leeds, que fazem parte da indústria musical de verão européia há décadas.

O fundador de Coachella, Paul Tollett, diz que usou como modelo os festivais europeus, assim como o Lollapalooza, antigo festival itinerante que começou em 1991 e passou a definir a cultura alternativa nos anos 90. O Coachella enfatiza bandas alternativas de vanguarda e apresentações de dança.

Mas outro festival -Woodstock 99- ameaçou descarrilar o Coachella antes mesmo de começar.

Woodstock 99 -ao qual faltou totalmente a paz e o amor do original de 1969, ou até as boas vibrações do evento de 1994- como se sabe, terminou em chamas, com um tumulto entre fãs e denúncias de estupros na multidão. Subitamente, a viabilidade de festivais musicais nos EUA tornou-se um grande ponto de interrogação.

"Foi um momento horrível", disse Tollett. "Enquanto estávamos tentando vender as entradas (do primeiro Coachella), a CNN falava que os festivais de música nos EUA estavam acabados."

Ainda assim, eles prosseguiram com os planos, e o primeiro Coachella aconteceu em 9 e 10 de outubro de 1999, com um programa eclético que incluía Rage Against the Machine, Morrissey e Derrick May.

O festival gerou entusiasmo entre fãs e críticos, mas ainda assim perdeu dinheiro, e Tollett só voltou a organizar outro Coachella em 2001. Desde então, vem crescendo constantemente a cada ano e agora é um dos eventos do gênero mais celebrados no mundo.

O sucesso de Coachella ajudou a pavimentar o caminho para o Austin City Limits Festival e o Bonnaroo, um festival de mente hippie que acontece no interior do Tennessee, em um campo de 3 quilômetros quadrados a 100 km ao Sul de Nashville. Os dois começaram em 2002 e tiveram grande sucesso; o festival de Bonnaroo deste ano, de 16 a 18 de junho, atraiu 80.000 fãs e arrecadou US$ 15 milhões (em torno de R$ 33 milhões).

Fãs como Peabody apreciam os festivais porque conseguem muito som para seus dólares.

Os ingressos para o Lollapalooza, que apresenta 130 bandas em nove palcos, custam em torno de US$ 150 (R$ 330) o que equivale a cerca de US$ 1 por banda.

Além disso, com tantos conjuntos tocando em diferentes palcos em Lollapalooza, um grupo de amigos pode ir ao mesmo evento e cada um sair de lá com a sensação de ter participado de festivais diferentes.

"É uma experiência que dura o final de semana todo. Você tem que se entregar", diz Tollett, acrescentando que é uma oportunidade para compartilhar com outros fanáticos por música.

"É excitante poder ir para um lugar onde tem muitas pessoas que gostam do que você gosta." Tollett diz que o centro da programação dos festivais são bandas em nível médio.

"Há mais bandas hoje que podem atrair 1.000 pessoas do que nunca", diz ele. "É quase necessário celebrar festivais para abrigar todas essas bandas". Os artistas -desde super-astros até novatos- também gostam de tocar nesses eventos, porque são considerados eventos bacanas.

"Os festivais são quentes, são jovens, e os artistas querem tocar neles", diz o produtor executivo do Lolla Attal.

Mas a pergunta é, quanto tempo esses festivais podem continuar se sustentando? Tollett não quer ver o dia em que "todo dia aparece um novo cartaz" de mais um festival com algumas dúzias de grupos em vários palcos durante um final de semana.

Dois novos festivais estão surgindo na América do Norte no próximo mês:
Richard Branson está apresentando seu Virgin Festival nos dias 9 e 10 de setembro em Toronto e 23 de setembro em Baltimore, e a programação inclui alguns dos mesmos artistas dos outros festivais.

Os dois terão Red Hot Chili Peppers, Gnarls Barkley e os Raconteurs.

Gnarls, para começar, tocou no Coachella e vai tocar no Lollapalooza e também está marcado para o Austin City Limits, nos dias 15 a 17 de setembro.

Os Raconteurs também farão o Lollapalooza e o ACL.

Com tanta repetição de artistas -Gnarls Barkley e Raconteurs de novo?- muitos desses festivais correm o risco de se tornarem muito semelhantes e perderem sua individualidade. E quanto mais festivais aparecem, menos especiais tornam-se.

Gary Bongiovanni, editor da revista Pollstar que acompanha a indústria de shows, diz que sua viabilidade depende de programação de qualidade.

"Se for organizado de forma inteligente e não competir diretamente com outro, um bom festival pode acontecer em qualquer lugar", diz Bongionvanni. Mas até certo ponto: "Não há espaço para 100 deles", diz ele.

Tollett espera que o cenário não se torne tão monótono quanto os atuais shows dos anfiteatros, aos quais os festivais agem como antídoto. "Você tem que manter as pessoas animadas para sair. Você tem que fazer sua parte", diz Tollett. "Anfiteatros, teatros, arenas, qualquer um lidando com alguma parte da indústria tem que manter a diversão. É seu dever."

Enquanto isso, fãs como Peabody estão felizes de poder mergulhar nesse mundo.

"É quase como uma tela branca de música", diz Peabody. "Você pode jogar um monte de bandas juntas e, por alguma razão, sempre funciona." Deborah Weinberg

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