Como o Eagles conseguiu ter o álbum mais vendido de todos os tempos?

Michael Booth
The Denver Post

Responda rápido, quem é o autor do álbum musical mais vendido de todos os tempos?

Os Beatles, certo? Sem dúvida "The White Álbum", ou "Sgt. Peppers", ou uma das coletâneas do conjunto.

Não? Hummm. Então o nome deve ser Elvis Presley.

Esperei, espere, não me diga que são os Rolling Stones.

U2? The Police? Quem vendeu mais do que estes?

A resposta é: The Eagles e as suas pequenas obras-primas pop.

O título de cópias de um único álbum mais vendidas nos Estados Unidos -- 29 milhões, e aumentando -- pertence ao "The Eagles: Their Greatest Hits 1971-1975".

E essa compilação sequer contém "Hotel California", uma música icônica daquela era da história do rock. Não, foram 29 milhões de cópias da música "Tequila House" vendidas ao longo de 30 anos. O álbum mais vendido traz também peças esmeradas de rock suave como "Peaceful Easy Feeling" e "Lyin' Eyes".

A sabedoria roqueira coletiva dos Estados Unidos acha difícil engolir este fato. Sem, os Eagles aperfeiçoaram uma vibração californiana que acalmou a nação em meados da década de 1970.

Mas, realmente. "Witchy Woman"?

O que os adolescentes esnobes, que estão prestes a se tornarem adultos, da loja de discos "High Fidelity" têm a dizer sobre isso?

"Isso é simplesmente insano", fulminou Paul Green, fundador da Escola de Rock da Filadélfia. "Deve ter havido muita gente comprando o disco or um centavo daquele clube de música no TV Guide", disse ele, com uma gargalhada.
"Como graduado em filosofia, não posse deixar de chamar isso de 'argument ad populum' (algo como apelação para os gostos e emoções das massas). O disco é chato, para dizer o mínimo".

"Isto simplesmente não é justo", concorda steve Waksman, professor de música do Smith College e há muitos anos colecionador de músicas de rock. Admitindo que é um purista quando se trata de "álbuns", Waksman argumenta que as coleções de sucesso popular da banda não merecerem estar no topo da lista dos mais vendidos, que foi compilada pela Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos. Segundo Waksman, melhor seria comprar "Hotel California", de 1976, com a sua visão fragmentada de sucesso e uma coletânea musical consistente, que reflete o apogeu criativo da banda.

"Mesmo assim, não há motivo para vergonha quanto a isso", conclui Waksman, talvez percebendo que 29 milhões de pessoas representariam uma multidão respeitável de linchadores. "Para mim, é sempre mais interessante analisar por que as pessoas gostam de algo, em vez de descartar o fato sumariamente".

Assim, qual é exatamente a característica de "71-75", que a impeliu devagar, mas inexoravelmente, à frente de "Thriller", de Michael Jackson (27 milhões, o número dois da história), "Led Zeppelin IV" (23 milhões, número três), "The Wall", do Pink Floyd (23 milhões, número quatro) e "Back in Black", do AC/DC (21 milhões, número cinco).

E por que os Beatles, que venderam mais unidades do seu conjunto completo de álbuns do que qualquer conjunto da história, ocupam o nono lugar, com o álbum "The Beatles"?

Por que Elvis só aparece no 117º lugar com o álbum "Christmas"?

Em nome de Mick Jagger, o que Billy Joel está fazendo com os seus maiores sucessos no sexto lugar entre os álbuns mais vendidos de todos os tempos, com 21 milhões de cópias? E como o álbum "My Bodyguard" ficou em 12º lugar?
E o que aconteceu a Hootie & Blowfish? Será que as 16 milhões de cópias de "Cracked Rear View" (número 16) caíram sobre as suas cabeças?

E será que qualquer artista atual algum dia atingirá o patamar dos Eagles?

Os Eagles venderam 18 milhões de cópias do seu álbum de músicas de maior sucesso nos 18 meses após o lançamento, em fevereiro de 1976. Nem toda as músicas do álbum eram grandes sucessos de rádio. "Peaceful Easy Feeling" ficou em 22º lugar entre as mais tocadas, "Take it Easy" em 12º lugar e "Witchy Woman" em 9º.

Don Henley tem uma resposta.

"Creio que se trata de uma equação bastante simples: melodias memoráveis bem elaboradas e executadas, dotadas de letras decentes", dez o ex-Eagle que fez uma grande carreira solo. "Mais fácil de falar do que de fazer, especialmente nos dias de hoje".

Uma outra explicação é que os Estados Unidos adoram rock e country - especialmente Country, frisa Waksman. Atualmente existe um número bem maior de estações de música country do que rock clássico. A lista dos 20 álbuns mais vendidos é cheia de nomes do country como Garth Brooks e Shania Twain.

"Rock e country são os denominadores comuns na lista, e com os Eagles você tem os dois gêneros", explica Waksman. "Os primeiros Eagles, especialmente, eram verdadeiros híbridos, com elementos de folk, rock e country. Eles fizeram essa mistura de uma forma bem distinta, e isso é algo capaz de atrair uma base ampla de ouvintes".

Waksman aponta dois outros fatores: as harmonias vocais do Eagles, raramente igualadas, e refrões populares nas músicas. "Isso foi algo premeditado por eles, mas tal fato não torna o resultado menos eficiente".

Tanto os admiradores quanto os observadores neutros também apontam para a mitologia da banda, seja consciente ou espontânea. As fotos dos membros da banda só apareceram na capa de um álbum -- "Desperado", de 1973. Embora os Eagles tenham feito reuniões múltiplas e turnês de despedidas, e os líderes Don Henley e Glenn Frey tenham obtido a sua parcela de fama na mídia, eles não contaram com as luzes constantes dos refletores, como ocorreu com Jagger, Jackson e os Beatles.

"Eles não foram capa da revista 'People', falando sobre toxicomania ou divórcio", diz um especialista em marketing que trabalhou com os Eagles. "Existe uma mística quanto a isso."

Waksman afirma que a iconografia ocidental também contribuiu para o fato. A capa do álbum traz a foto árida do esqueleto de um animal. O segundo álbum foi "Desperado" e o terceiro "On the Border". Eles compartilharam a música californiana com Jackson Browne, Linda Ronstadt e Neil Young.

"Eles estavam levando um estilo de vida alternativo que não contradizia o seu desejo por dinheiro", explica Waksman. "Eles eram hippies, mas hippies de São Francisco. Viviam relaxados de uma forma diferente".

Green diz que os Estados Unidos são dominados por gente da música country ou que acha que faz parte do universo deste tipo de música. "Tão logo se sai das cidades, mergulha-se no universo Texarkana", diz ele. "Estou realmente surpreso por não ver Shania's mais próximo ao número um. A maior turnê deste ano é Tim McGraw".

Quem observar a lista, encontrará todos os tipos de tendências. Visite o site riaa.com/gp/bestsellers/topalbums.asp.

"Fique surpreso com muita coisa que vi no site", confessa Waksman.

Por mais desapontado que ele tenha ficado com a presença de Billy Joey ("ele representa aquilo que há de mais mundano na música pop"), Waksman acredita de fato que a lista dos 20 mais conta com mais celebridades do rock do que seria de se esperar. Com o Led Zeppelin em um admirável terceiro lugar, seguido de perto pelo Pink Floyd, o AC/DC, o Boston, o Guns 'N Roses, Santana e Bruce Springsteen. "É legal ver o hard rock tão próximo ao topo da lista".

Ironicamente, diz Waksman, a lista desmistifica a "contracultura" do heavy metal.

"Segundo essa lista, está claro que o heavy metal não é contracultura. Não existe nada de exclusivo quanto a essa tendência".

Muitos observadores da indústria do rock acreditam que os Eagles, Jackson, Led Zepellin e outros que estão no topo da lista estão seguros contra as futuras investidas dos artistas contemporâneos. Os álbuns atuais simplesmente não são mais vendidos em massa como ocorria três décadas atrás. Atualmente, o álbum número um geralmente vende cinco ou seis milhões de cópias.

E o universo das rádios FM está dividido em nichos mais estreitos, e muitos fãs fazem download na Internet das músicas individuais que desejam. O editor da revista "Wired", Chris Anderson, argumento no seu novo livro, "The Long Tail", que os chamados blockbusters (grandes sucessos de venda) em várias áreas, da música ao cinema, são uma coisa do passado.

Anderson identifica o ápice das vendas de músicas no final da década de 1990, à época de bandas como o 'NSync: "Dentre os cem álbuns mais vendidos, 21 foram lançados no período de cinco anos de 1996 a 2000", escreveu Anderson. Danilo Fonseca

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