Antes de ser kitsch de Vegas, o rei do rock 'n' roll transformou a música e a cultura

Robert Seltzer
do San Antonio Express-News

Que pena dos pioneiros.

Primeiro são revolucionários, depois antiquados. São tão corajosos e audaciosos, tão agressivos em sua determinação, que se tornam lugar comum -vítimas de seu próprio sucesso.

Não são rebeldes sem causa; são rebeldes com uma causa que não importa mais.

Será isso que aconteceu com Elvis Presley, o Hillbilly Cat, o Rei do Rock 'n ' Roll? Quase 30 anos depois de sua morte, os fãs lembrarão o 29º aniversário na quarta-feira (16/8)- terá Elvis se tornado uma piada, tão irrelevante quanto os astros sem sal do pop que ele apagou do cenário cultural nos anos 50?

"Não vendemos tantos CDS do Elvis", disse Steve Alejandro, gerente do Hogwild Record & Tapes. "A maior dificuldade para os jovens entenderem Elvis, como entendem os Beatles e os Stones, é que ele tem uma coisa de entretenimento de Las Vegas; tem um elemento kitsch. Os fãs de música mais jovens têm mais afinidade com Frank Sinatra", continuou Alejandro. "Sinatra ficou para sempre bacana. Ele nunca se tornou cafona, ao menos não dá essa noção."

É fácil esquecer o enorme impacto que Elvis teve na sociedade no nevoeiro da história. Ele não era apenas um cantor; era uma força cultural; cada rebolada sua era um golpe no país que queria que seus astros populares fossem mais contidos. Elvis era um selvagem.

"Eram tempos tímidos, e vem esse rapaz branco rebolando", disse o falecido humorista Lewis Grizzard, de acordo com o Los Angeles Times. "E eu me lembro de meu avô dizendo que isso era música do diabo, e todo mundo que ouvia certamente iria direto para o inferno. Você sabe, isso preocupava alguns. Ainda assim eu gostava, e decidi correr o risco."

Depois tem a história de uma conversa entre Elvis e o colega do rock 'n'
roll Jerry Lee Lewis.

"Rapaz, você é o diabo!" disse Lewis quando Elvis perguntou se estavam tocando a "música do diabo".

Depois o diabo mudou-se de Hades para Vegas. O inimaginável aconteceu: o kitsch superou o bacana. E as pinturas de veludo preto pareciam mais substanciais do que a coisa de verdade.

Entretanto, é fácil esquecer sua significância. É igualmente importante lembrá-la, especialmente neste ano, o 50º aniversário de "Heartbreak Hotel". O kitsch era temporário. O bacana durará para sempre.

Como os primeiros sucessos de Elvis, "Heartbreak Hotel" combinava os dois principais ingredientes do rock 'n' roll: blues e country. Se o country deu à música seu ritmo, o blues deu o poder do molejo que tornou explosiva. Sem um deles, o rock 'n' roll nunca teria sido o rock 'n' roll.

"Ele criou algo novo por definição, porque não tinha sido popular antes", disse Howard Kramer, diretor de curadoria do Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland. "Não há questão sobre isso. Ele não foi o primeiro a tocar música assim. Foi apenas o mais popular."

Se alguns historiadores vêem Elvis como incrivelmente original, outros amantes da música vêem-no como uma cópia sem vergonha, um cantor que usou o blues para forjar um sucesso negado aos artigos negros que vieram antes.

Bobby "Blue" Bland, cantor de blues lendário, não vê Elvis como racista, um homem mais imitador do que inovador.

"As pessoas têm essa visão por causa da sua cor", disse Bland, 76, em uma entrevista telefônica de sua casa em Memphis. "Certo, houve uma abertura maior para ele do que para qualquer negro. Mas o que quer que tenha feito, fez muito bem, como Ray Charles quando Ray fazia country. Música é música."

Quando Elvis subiu nas paradas -primeiro regionalmente- Bland detectou um "novo garoto na praça". As músicas eram ousadas, mas familiares, como se todas as notas tivessem sempre existido, esperando alguém colhê-las do ar. Esse alguém era Elvis, e seu sucesso ajudou todos os músicos que seguiram, negros e brancos.

"Se as pessoas quiserem ser negativas sobre isso, dizendo que copiava, então é problema delas", disse Bland. "Mas Elvis fez uma coisa ótima. Ele abriu as portas para muitas pessoas, muitos artistas negros, inclusive eu. Ele me ajudou a espalhar a história do blues."

Se Elvis integrou raças na música, terá ajudado a fazer o mesmo pela sociedade? Era uma figura que defendida os direitos civis? Terá o selvagem feito um ato divino, intencionalmente ou não?

"Veja, era como se o país tivesse uma rua, e os brancos andassem de um lado e os negros do outro", disse Bland. "Bem, depois de Elvis, as pessoas começaram a andar do mesmo lado da rua. Começaram a se unir."

Elvis influenciou todo roqueiro que se seguiu, dos Beatles a El Vez, cantor mexicano americano de Los Angeles.

"El vez explica que cresceu acreditando que Elvis era mexicano porque ele parecia com os tios de El Vez em termos da pele escura e topete preto", disse Robert Huesca, professor de comunicação da Universidade Trinity. "Ele cresceu pensando que Elvis era um dos seus, em uma cultura que raramente demonstra tamanha veneração por membros das minorias. Então acho que deve ter ficado muito comovido pelo que considerava um cantor de minoria que conquistou os corações e a devoção do grande público americano. É um apelo bastante poderoso."

E esse apelo, estendido a garotos de todas as cores e origens, ajudou a mudar a sociedade.

"Sem Elvis -ou alguém como ele- o movimento de direitos civis teria sido diferente", disse Harry Haines, professor de comunicações da Universidade Trinity conhecido como "especialista em Elvis". "Ele ensinou os garotos brancos a moverem o corpo. E quando os brancos começaram a dançar ao mesmo tipo de som que os negros estavam ouvindo, foi muito importante."

Se Elvis ajudou a integrar a sociedade americana, foi apenas parte de um processo que começou muito antes de ele galvanizar a nação com sua música e dança, disse Kramer.

Nos anos 40, cantores folk começaram a defender direitos civis para as minorias, liderados por artistas lendários como Woody Guthrie.

Em 1948, o presidente Harry Truman começou a integrar as forças armadas.

Em 1954 -ano em que Elvis gravou o que alguns historiadores consideram a primeira música de rock 'n' roll, "That's All Right" -a Suprema Corte determinou que "escolas separadas são inerentemente desiguais", no caso de Brown contra o Conselho de Educação. "Elvis não estava tentando integrar a sociedade", disse Haines. "Só o que queria era ser um astro do cinema e conhecer mulheres bonitas. Mas sua música agradou brancos e negros e rompeu barreiras raciais."

E é por isso que Elvis, com ou sem Vegas, nunca será irrelevante. Deborah Weinberg

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