Guarda nacional se estabelece ao longo da fronteira dos EUA com o México

Mariano Castillo
do San Antonio Express-News
em Harlingen, Texas

O trabalho é monótono e comum. Mas monótono não significa ruim.

Com diárias, auxílio moradia e outros benefícios além do salário base, os membros da Guarda Nacional enviados à fronteira dos EUA com o México para ajudar a Patrulha de Fronteira podem ganhar mais de US$ 70.000 (em torno de R$ 154.000) em 12 meses.

"Não vi muita ação. Só vida selvagem", disse o especialista militar Chris Moreno, enquanto vigiava com uma câmera de visão noturna ao sul daqui, cerca de 16 km da fronteira.

Como seus colegas, o especialista deve limitar-se à vigilância dentro de uma cabine de vidro apertada, com câmera e monitor, que pode se erguer ou abaixar.

A presença militar funciona como dissuasor para imigrantes, disseram oficiais da Patrulha de Fronteiras, apesar de parecer que algumas vezes a Guarda tem pouco a fazer além de figuração.

O presidente Bush anunciou em maio a chegada de 6.000 soldados da Guarda Nacional para reforçar o controle do fluxo de imigrantes pela fronteira. Os soldados não vão prender imigrantes, mas trabalhar como olhos e ouvidos da Patrulha de Fronteira, repetiram as autoridades.

Em uma carta aos representantes da Câmara e do Senado neste mês, o Comissário de Proteção de Fronteira e Aduana, W. Ralph Basham, e o subsecretário de Defesa Paul McHale escreveram que a Guarda cumpriu seu prazo máximo de 1º de agosto e que 6.199 soldados e pilotos estavam distribuídos nos quatro Estados da fronteira na chamada Operação Jump Start.

Nem todos estão na linha de frente com os agentes de fronteira. Muitos estão sendo treinados em diversas bases ou estão estacionados no quartel da Força Tarefa Conjunta.

Desde o início da operação, mais de 315 agentes de Patrulha de Fronteira foram liberados de tarefas administrativas e enviados ao campo, de acordo com Basham e McHale.

Um mês depois do início da missão, membros da Guarda Nacional na linha de frente do vale do Rio Grande disseram que não estão desiludidos com o trabalho, mesmo que seja sem graça e repetitivo às vezes.

A lógica por trás dos 6.000 guardas requisitados por Bush é que este é o número de agentes da Patrulha de Fronteira que ele quer que sejam contratados e treinados até 2008.

Agentes da Patrulha da Fronteira têm o maior período de treinamento de todas as agências federais por causa da necessidade de aprender leis de imigração e espanhol.

Pela mesma razão, os membros da Guarda Nacional não têm permissão para prender imigrantes sem documentos.

A restrição acalmou alguns críticos da Operação Jump Start, que temiam brigas internacionais ou violação de direitos civis se soldados sem treinamento fossem enviados ao campo. Essas mesmas restrições também limitam o efeito multiplicador de forças que a Guarda espera alcançar.

Por exemplo, no posto de verificação de Falfurrias, o cabo Brian Vanbrocklin e outro soldado só podiam ajudar a inspecionar veículos se um agente da Patrulha de Fronteira pedisse uma segunda inspeção. Mesmo assim, o agente teria que supervisionar a busca.

Os guardas, disse Roy Cervantes da Patrulha de fronteira, ajudam mais quando é preciso desmontar um carro quando drogas são encontradas, um papel que normalmente ocupa os agentes por horas.

Mas quando não há apreensões, as tropas têm pouco a fazer.

Em manhã recente, o cabo Vanbrocklin, de Austin, só podia olhar os agentes trabalharem no posto de verificação de Falfurrias enquanto o sol espantava as nuvens e levava o calor para acima de 30º C.

"Em qualquer tipo de policiamento você tem cinco minutos de excitação para cada hora de espera", disse Vanbrocklin.

Naquela manhã, suas atividades consistiam de pequenos detalhes como levar baldes de água gelada para os cães farejadores, servir sanduíches aos imigrantes sem documentos presos em uma cela e catar o lixo que escapava dos carros.

Os dias lentos não desanimaram Vanbrocklin, que trabalha em uma empresa de telecomunicações.

"É uma mudança em relação ao que faço em geral, uma chance de vir ver o que a Patrulha de Fronteira faz, ver o que de fato acontece por aqui", disse ele.

A Guarda também assumiu muitos serviços de vigilância.

Ao sul de Mercedes, Texas, a sargento Angela Kruse, 30, mantinha seus olhos em um pequeno monitor verde, dentro de um caminhão, seus dedos em um joystick. Ela estava operando um caminhão telescópio, equipado com uma câmera infravermelha poderosa.

A Patrulha de Fronteira sempre teve os caminhões, mas não a equipe para utilizá-los e ainda responder à atividade detectada pelo monitor, disse Eddie Flores, supervisor de operações de campo da Patrulha de Fronteira.

"Só a notícia que a Guarda Nacional estava vindo fez os números caírem", disse Flores, referindo-se à apreensão de imigrantes sem documentos. "O boato corre rápido."

Apesar de mais ativo do que o trabalho no posto de controle, o papel de Kruse também parece repetitivo, senão comum.

"Nunca é solitário ou chato, porque nunca estamos sozinhos, sempre há um agente conosco", disse Kruse.

Muitos dos guardas na fronteira vão trocar de postos, como parte de seu treinamento de duas semanas por ano. Mas a maior parte das tropas do Texas inscreveu-se para missões de um ano, algumas vezes atraídas pelo dinheiro.

Apesar de Kruse não operando na margem do rio, ainda assim foi obrigada a usar um colete à prova de bala. Ela também teve que aprender a usar uma pistola Beretta de 9mm que agora fica presa à sua coxa.

"É ótimo estar aqui, para ver como é", disse ela.

Kruse está pensando em entrar para a Patrulha da Fronteira e sua experiência aqui vai ajudá-la a decidir, disse.

A Guarda, de sua parte, está cumprindo o que comprometeu, mesmo que seja menos excitante do que os soldados imaginaram.

"Aposto que o pessoal (da Guarda Nacional) no Iraque preferiria estar aqui fazendo isso do que estar lá", disse Moreno, especialista em Harlingen.

Então, apertou um botão e a cabine de vidro lentamente levantou-se, levando-o a um passeio carnavalesco pela escuridão da noite. Deborah Weinberg

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