Nova Orleans espera que a vida retorne

Elizabeth Aguilera
em Nova Orleans
do The Denver Post

Um ano depois do furacão Katrina, Nova Orleans é um lugar de desespero silencioso. Milhares de casas continuam vazias, algumas ainda só com o esqueleto; outras contêm os brinquedos, a louça e os móveis mofados, enferrujados pela inundação. Somente a metade dos hospitais da cidade e menos de um quarto das escolas e creches públicas reabriram.

Em toda a cidade chapas de madeira cobrem as janelas e as portas de cafés, lavanderias e outros pequenos negócios vazios. Conchas marinhas esbranquiçadas pelo sol forram o chão em bairros que ficam a quilômetros do mar.

Mais de meio milhão de moradores da área metropolitana escaparam da tempestade. A maioria perdeu suas casas, seus animais de estimação, carros, empregos. Outros perderam amigos, parentes, o marido ou a mulher. Cerca de 300 mil residências na área metropolitana foram
danificadas ou destruídas. Mais de 1.350 pessoas perderam a vida.

"Toda a cidade foi arrasada, bairro após bairro", disse Derrick Rattler, que passou quatro dias no telhado de sua casa durante a inundação que se seguiu ao rompimento dos diques.

Um ano depois da fúria do Katrina, menos da metade dos 500 mil habitantes da cidade permanecem ou voltaram, muitos deles dependendo de trailers temporários do governo como moradia. Eles esperam oportunidades de reconstrução, de esperança. Que Nova Orleans seja novamente Nova Orleans.

"É como se o passado desaparecesse, só existisse na sua mente", disse Ann Messa, 51, cuja casa em St. Bernard Parish foi arrasada pela inundação que atingiu 6 metros. Korian Johnson, 12, que voltou para o bairro 9th Ward em junho, não sabe para onde foram todos os seus vizinhos. Ela nunca esquecerá o Katrina - a fuga apressada, a preocupação e os longos meses de exílio no Tennessee. E nunca perdoará o Katrina. Foi a primeira vez que ela não teve um bolo de aniversário, no dia em que a tempestade chegou. "Foi assim: num dia estava tudo bem, e no dia seguinte... não sei", ela disse. "É tudo solidão, abandono."

O 9th WARD

Quando os diques cederam, o bairro que já era assolado por crimes e pobreza recebeu o golpe mais forte. Das 14 mil pessoas que moravam aqui, 98% eram negras e 36% pobres. Hoje, só um punhado dos antigos moradores voltou. O bairro de que eles se lembram desapareceu. Existem poucos rostos conhecidos, nenhuma avó sentada na varanda, nenhum barulho ou conversa.

Nos limites exteriores da cidade, alguns bairros tiveram melhor sorte: a recuperação chegou um pouco mais depressa aonde a destruição não foi tão imensa. Mas no 9th Ward a maioria das casas está inabitável; as crianças não sabem onde vão estudar; os pais esperam pelo seguro ou a boa vontade de outros para reconstruir. Um ano de tensão, incerteza e mudanças deixou Alita Cusher nervosa, como muitos outros. "Nós esperamos e rezamos, mas simplesmente não sabemos."

A alguns quarteirões dali, na desolada Lizardi Street, um punhado de irmãos, irmãs e primos andam de bicicleta nas ruas vazias. Seus irmãos mais velhos mantêm um olho neles enquanto jogam cartas numa varanda. "Não sei para onde foi todo mundo", disse Kadija Joseph, de 9 anos, coçando dezenas de picadas de mosquito em suas pernas. "A coisa mais triste é perder sua casa e não ter para onde ir." A casa dela, como todas as outras do quarteirão, está destruída. A única coisa que ela recuperou das ruínas foi uma máquina de algodão-doce que funciona "mais ou menos".

Karen Davis, 38, mãe de Kadija e Korian, olha para a rua abandonada e suspira. Seu filho de 5 anos lhe pede dinheiro para comprar um sorvete. Ela lhe dá alguns dólares enquanto segura no colo a filha de quatro meses, que nasceu no Tennessee. "É tão frustrante fazer reformas, as pessoas estão aumentando os preços de tudo, e estou frustrada com a situação escolar", ela disse. "É simplesmente demais."

Mas Davis vê a dor e a dificuldade como parte do plano de Deus, e por isso ainda tem fé. Ela poderá comprar a casa vizinha enquanto ela e seu marido trabalham pouco a pouco para reformar a deles. Embora muitos aqui estejam dispostos a trabalhar, nada é fácil. O desespero e a depressão são companhias constantes. "Às vezes eu tento bloquear", disse Cusher. "Às vezes choro até dormir à noite, e então a agradeço a Deus porque meus filhos e minha família estão vivos."

A VIDA NUM TRAILER

Qualquer espaço desocupado pode servir para estacionar um trailer. Jardins de casas, parques e estacionamentos tornaram-se terrenos para as casas móveis fornecidas pela Agência Federal de Administração de Emergências (FEMA). O trailer da FEMA tornou-se o símbolo daqueles que voltaram para juntar os cacos de suas vidas. Os trailers também são uma constante lembrança do que foi perdido: independência, espaço, lar.

Mais de 101 mil moradores de Nova Orleans - 42% da população da cidade - estão vivendo em 37.093 trailers. Na Louisiana, 77 mil trailers abrigam evacuados, enquanto outros 12 mil estão sendo preparados para mais moradores necessitados. Muitos residentes pediram que seus trailers sejam colocados a poucos metros das ruínas que um dia foram suas casas. Por US$ 75 mil cada, muitos moradores dizem que ficariam melhor com o dinheiro para consertar suas casas do que uma "caixa de sapatos cara" para morar durante 18 meses.

O trailer de Alfred Diggs fica no jardim de sua antiga casa. Um flamingo de plástico cor-de-rosa está fincado na terra ao lado da caixa de cartas, um novo Cadillac parado na entrada substitui os veículos que ele perdeu. Embora suas experiências como veterano do Vietnã o tenham endurecido, Diggs disse que não conseguiu conter as lágrimas quando viu o que havia perdido. "Eu chorei, simplesmente veio", ele disse. "Então você tem de seguir em frente, levar a vida."

Diggs se pergunta se vale a pena reconstruir, se ninguém mais voltar para o bairro de Pontchartrain Park, que já foi um refúgio dos negros durante a segregação. Ele é um dos poucos felizardos que tinham seguro contra enchentes. "Não quero reconstruir aquela casa. Tenho 58 anos. Preciso estar numa casa pronta; me dêem um controle remoto e uma poltrona reclinável", ele disse. "Mas temos de fazer o que é preciso."

No bairro de Mary Queen, um enclave vietnamita, dezenas de trailers estão em um parque, alguns desocupados. "É apertado demais aqui", disse Hue Nguyen sobre o trailer de sua família. "Estou triste, me sinto mal, minha casa inteira desapareceu. Não tínhamos seguro." Seu filho, John Lam, de 13 anos, que está numa cadeira de rodas, já teve seu próprio quarto. Agora ele divide uma cama e um canto do trailer com seu irmão de 16 anos. O espaço mal acomoda uma pessoa, muito menos uma cadeira de rodas. "É difícil não ter para onde ir", disse John.

James Jones tem um trailer só para ele e seu cachorro, Baloo, no bairro central da cidade. "Chamo isto de minha prisão de luxo", disse Jones, que é garçom e trabalha no centro. Ele e seu irmão esperam voltar para sua casa em seis semanas. "É uma sensação de desespero, mesmo você sabendo que as coisas estão avançando", ele disse.

Ao lado, em outro trailer da FEMA, com degraus de madeira construídos para alcançar a porta, há roupas penduradas para secar. Ali perto, no quintal, há uma mensagem escrita a dedo na janela lateral suja de uma van enferrujada: "Maldito Katrina".

FALTA DE MORADIAS

Neste quarteirão da Holly Grove Street, os duplex e apartamentos pertencem a Terry Tyler. Onze prédios, 27 unidades. Todas dele e todas arruinadas.

Enquanto os proprietários trabalham para consertar suas casas, os donos de imóveis de aluguel tentam descobrir uma maneira de fazer isso. Essa rua era o ganha-pão de Tyler antes de dois metros de água terem arrasado tudo.

Três meses atrás, sem trabalhadores e sem dinheiro, ele mesmo começou a reforma. Dois de seus empregados de manutenção voltaram, e ambos estão estendendo fios, instalando banheiros e pintando paredes. Tyler disse a eles que poderá levar meses para pagá-los. "Simplesmente temos de arregaçar as mangas e fazer o trabalho", disse Tyler, que também mora em um trailer da FEMA.

A perda de imóveis de aluguel prejudicou os esforços para reconstruir Nova Orleans, uma cidade onde 53% da população eram inquilinos. Sem imóveis para alugar, os potenciais empregados não têm onde morar. E sem uma força de trabalho quem fará a reconstrução, não apenas de casas, mas da economia em geral?

Os materiais também estão caros, e os muitos atrasos prejudicam as reformas, incluindo o governo federal, que levou meses para decidir quais propriedades seriam condenadas. Pelo menos os detritos estão sendo retirados de maneira mais regular agora. Enquanto isso, Tyler espera que um analista de seguros verifique o trabalho que ele fez numa unidade para liberar mais uma parcela do dinheiro do seguro. "É como se eu estivesse no limbo: o que fazer com o tempo, quando você está tão acostumado a trabalhar?", disse.

Agora ele trabalha com um serrote elétrico em madeiras que podem ser salvas e repintadas; ele pensa em como tirar a lama do Katrina dos encanamentos; e espera trazer a vida de volta à rua que já foi muito animada. Talvez daqui a oito meses, ele disse... talvez.

TRABALHADORES IMIGRANTES

A reconstrução de Nova Orleans pode ser resumida em poucas palavras:
"Precisa-se de trabalhadores". Donos de residências, empreiteiras e locatários estão contratando mão-de-obra qualificada ou não para ajudar a fazer telhados, encanamentos, azulejos, limpeza de casas. A demanda de mão-de-obra atraiu milhares de trabalhadores para a cidade, a maioria deles imigrante e predominantemente latina. Segundo uma contagem, mais de 14 mil hispânicos chegaram nos últimos 11 meses.

Os latinos já constituem quase a metade dos que trabalham na reconstrução, e quase a metade deles são trabalhadores sem documentos, segundo um estudo da Universidade Tulane e da Universidade da Califórnia em Berkeley. Os trabalhadores vivem em barracas e casas móveis, ou alugam os poucos apartamentos disponíveis. Alguns esperam começar uma nova vida aqui; outros já planejam ir embora.

Com as moradias escassas, caras e difíceis de encontrar, Richard e Alma Gutierrez e sua filha de 6 anos moram com um amigo num pequeno trailer no meio de um estacionamento. Tendas e outras habitações improvisadas o rodeiam. Aqui Gutierrez ganha US$ 15 por hora como pintor de casas, em vez dos US$ 10 que ganhava em Houston. No início ele dormia em sua caminhonete, e quando Alma e Kaylynn chegaram em junho a família mudou-se para uma pequena barraca.

"É aqui que está o trabalho, mas o problema é como nós vivemos", disse Richard. A família tem um apartamento em Houston, e Kaylynn deverá começar a escola em breve. "Afinal, não foi vantajoso. Não conhecemos ninguém. Viver aqui é difícil e caro", disse Gutierrez, que é de Honduras.

Salvador Lopez, um trabalhador sem documentos de Honduras, chegou sete meses atrás de Nova York e encontrou trabalho em poucos dias. Ele ganha US$ 100 por dia fazendo telhados, limpezas e acabamento de casas. "Eu ouvi falar que havia trabalho e oportunidades", ele disse. "Você começa a trabalhar e então as pessoas começam a conhecer seu trabalho." Lopez mora numa casa alugada com outros cinco trabalhadores de Honduras, e pretende ficar. "É um desastre aqui, mas é por isso que viemos, para trabalhar", ele disse. "Se me deixarem ficar, ficarei."

ANIMAIS PERDIDOS

Quando os evacuados voltaram, muitos procuraram desesperadamente por algum sinal da vida que haviam perdido. Muitos consideram um animal de estimação a única parte de suas vidas que ainda pode ser recuperada. Os abrigos locais ajudaram a reunir alguns moradores com seus "filhos" peludos. Outros se conformaram ao saber que seu amigo animal sobreviveu e foi adotado em outro estado.

Para alguns, porém, saber que seu animal sobreviveu não basta. Eles querem o bichinho de volta e estão fazendo tudo para consegui-los. Outros animais andam à solta; alguns dos que foram capturados acabaram sendo eliminados.

No Centro de Controle Animal de St. Bernard Parish, seis caixas contêm fotos e descrições de milhares de animais resgatados e que foram adotados. Todos os dias pessoas passam por ali e procuram nos registros, esperando ter alguma pista do destino de seu animal. Muitos deles deixaram os bichos em escolas ou na cadeia do bairro. "Eles não podiam levar os animais nos ônibus e barcos, e receberam ordens para deixá-los nesses lugares. Não tenho coragem de lhes dizer que talvez estejam mortos", disse a oficial do Controle Animal Tina Bernard.

Muitas vezes é impossível encontrar um dono quando um animal de estimação é recuperado. Os registros e licenças dos animais estão numa sala nos fundos do terreno, em caixas azuis; todas as caixas mofaram e as páginas estão coladas. "Nunca saberemos para onde foram todos eles", disse Bernard, olhando para os livros de registro.

Uma pesquisa entre moradores que não partiram antes do Katrina mas que foram evacuados nos dias seguintes descobriu que 44% ficaram porque não queriam deixar seus animais de estimação. "Depois que você entende que perdeu tudo, acaba percebendo que tudo o que tem é ela", disse Barbara Meyer, 51, que passeava com sua cadela Lola.

Meyer levou Lola para Columbus, Mississípi, mas deixou sua gata, Oreo, para trás, pensando que o felino ficaria bem por alguns dias. Ela não percebeu que se passariam meses antes que pudesse voltar. "Eu acho que Oreo conseguiu. Eu a rastreei até Michigan e depois perdi a pista", ela disse.

A FESTA NÃO PÁRA

Se Nova Orleans tem um coração, é o Bairro Francês. Aos poucos, os visitantes estão voltando a esta área histórica e famosa da cidade, há muito tempo conhecida por seu ambiente boêmio fervilhante. Alguns turistas estão voltando, mas não viajam longas distâncias para chegar aqui. A maioria dos visitantes é do Texas e de outras partes da Louisiana.

"Nós costumávamos vir duas ou três vezes por ano e gostamos muito daqui", disse Pat Moreland, 51, que dirigiu desde Houston com sua família para o quinto aniversário de sua neta. "As pessoas têm de voltar para cá, para ajudar a reerguer a cidade."

Apesar da boa vontade, os negócios estão em queda. O restaurante Oceano, perto da famosa Bourbon Street, está faturando menos da metade do que antes do Katrina. "Ainda não percorremos a metade do caminho", disse Mohamad Bader, um gerente do Oceano. "Acho que precisamos de mais um ano."

Mas numa noite de sábado recente o Bairro Francês parecia tão animado e ativo quanto sempre. Famílias percorriam as ruas em busca de suvenires.
Artistas de rua e tiradoras de sorte estavam em quase todas as esquinas. Os foliões, homens e mulheres, levantavam as camisas incentivando as pessoas nos balcões acima a atirar contas coloridas.
O que alguns podem considerar um gesto obsceno, outros vêem como a possibilidade de dias melhores no futuro. "Eu vou à Bourbon Street, vejo as pessoas se exibindo e acho que é um bom sinal", disse Bader. Os moradores dependem do turismo para ajudar a cidade a recuperar sua base econômica.

No mês que vem, o Superdome, que já foi o epicentro do caos do Katrina, vai reabrir, reformado e pronto para funcionar. Os Saints tocarão novamente e o centro de convenção abrirá em breve. "As pessoas estão voltando à cidade lentamente, mas com firmeza", disse Bader.
Por enquanto, o centro de festas que já foi pujante depende dos visitantes e de moradores da área, como Corey Curry, 27, e Clarence Richards, 21, da cidade vizinha Chalmette. Ambos moram em trailers. "Você pode ver todo mundo nas ruas. Vem cada vez mais gente", disse Curry, que freqüenta o Bairro Francês cerca de três vezes por semana. Garotas que passam por perto o chamam pelo nome. "Você pode esquecer um pouco o que está acontecendo", disse Richards. "É um alívio vir aqui." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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