Na Tailândia, indústria do sexo e anonimato são comuns

Jeremy P. Meyer
do The Denver Post
em Bancoc, Tailândia

Quando John Mark Karr chegou à Tailândia pela primeira vez, ele pisou em umpaís no qual o sexo é uma mercadoria barata, o acesso a crianças é fácilpara um adulto que fale inglês, e uma cirurgia para mudança de sexo custa menos do que um computador laptop.

"Tudo o que a pessoa quiser pode ser encontrado aqui", afirma o empresário italiano Alberto Pintonato, enquanto compra um relógio falsificado em um bairro da cidade chamado Patpong, repleto de bares de striptease, prostitutas e espetáculos sexuais bizarros.

Não se sabe exatamente o que trouxe Karr, suspeito de ter assassinado
JonBenét Ramsey em 1996, à Tailândia nesta jornada global que teve início em 2001, quando ele fugiu dos Estados Unidos para escapar das acusações referentes a pornografia infantil.

Mas se ficar comprovado que Karr é um pedófilo, ele veio para o lugar
perfeito para desaparecer. Bancoc é uma capital de 6,4 milhões de habitantes na qual poucas coisas causam comoção, afirma Supang Chantavanich, professora de migração da Universidade Chulalongkorn, em Bancoc.

"É fácil para alguém se esconder aqui e continuar mantendo os seus hábitos", explica Chantavanich.

Bancoc se caracteriza por um emaranhado de bairros sem planejamento, os
engarrafamentos de trânsito incessantes e a poluição atmosférica sufocante. Esta é também uma metrópole cosmopolita com elegantes shopping centers, prédios altos, templos budistas e uma próspera indústria sexual.

Os tailandeses têm uma atitude semitolerante com relação ao comércio sexual, uma indústria de um bilhão de dólares que atrai turistas de todo o mundo. O povo da Tailândia é conhecido por gostar de estrangeiros, e têm até um nome especial para designar os europeus: "Farang". Esse estilo tolerante também deu origem à indústria sexual durante a Guerra do Vietnã, quando as casas de prostituição se disseminaram no distrito de Patpong para atender aos soldados norte-americanos. Essas casas se multiplicaram por vários bairros e passaram a ser parte do cotidiano de Bancoc.

Todas as noites os "farangs" lotam as zonas de prostituição dos bairros de Patpong, Nana Plaza e Soi Cowboy. Nos clubes noturnos as prostitutas usam crachás numerados para facilitar a seleção pelos clientes, e dançam nuas no piso de plexiglas, enquanto os clientes, com copos de bebida na mão,apreciam o espetáculo. Uma parte da cidade oferece serviços apenas a clientes japoneses. Outros clubes noturnos são especializados nos "lady boys", ou transexuais. Clubes noturnos e spas inumeráveis, que funcionam 24 horas por dia, oferecem possibilidades ilimitadas.

"Muita gente vem para cá em busca da prostituição", afirma François van
Hintum, um turista holandês de 37 anos que visita Bancoc periodicamente,
ficando com uma garota diferente a cada viagem. Desta vez, ele está abraçado a uma "namorada" de 20 anos de idade.

Hintum é o homem com o qual todas as garotas sonham, segundo Kwanjai
Wetcharat, uma moça de 23 anos que trabalha em clubes noturnos há seis. A maior parte das mulheres como Wetcharat é oriunda das regiões mais pobres da Tailândia, e é atraída para a indústria do sexo devido à necessidade de ajudar a sustentar a família pobre.

Wetcharat conseguiu o seu primeiro emprego quando era uma virgem de 17 anos. Um homem tailandês pagou a ela US$ 2.000 para desvirginá-la.
"Doeu muito", conta Wetcharat, que usa um uniforme de colegial em frente a um clube de striptease em Soi Cowboy.

Atualmente ela está com um pouco de sobrepeso, não sendo mais aquela
adolescente flexível. A gerente do clube não permite que ela suba no palco com as outras mulheres, cujas idades variam de 17 a pouco mais de 20 anos. Em vez disso, a alegre Wetcharat serve drinques, paquera com alguns clientes e marca encontros com outros. Ela ganha cerca de US$ 200 por mês, e envia a maior parte desse dinheiro para os pais, que não sabem que ela trabalha na indústria da prostituição. Quando encontra uma "paquera", Wetcharat é capaz de faturar US$ 200 em uma noite.

Mas, segundo ela, outras não parecem pensar no futuro, e só pensam no
presente. Mas Wetcharat sonha em conhecer um estrangeiro rico, ter uma
família e abrir um restaurante.

O sexo é um meio de sobrevivência em Bancoc, afirma uma massagista de 42
anos de um hotel de quatro estrelas da cidade.

A mulher, que não quis revelar o seu nome por medo de perder o emprego,
trabalha na loja de produtos de beleza do hotel, e atende aos hóspedes nas salas de massagem.

Ela não recebe um salário fixo, e ganha apenas US$ 2,50 por massagem. Às
vezes ela só consegue um cliente por noite. Mas, para fazer sexo, ela pode ganhar até US$ 160 por sessão. Isso não é algo que ela goste de fazer.

"A minha face pode estar sorrindo, mas por dentro estou chorando", conta
ela, acrescentando que nunca conheceu de fato os pais, e que atualmente mora sozinha. Ela precisa consumir bebidas alcoólicas para dormir, e também sonha em encontrar alguém que a tire dessa vida.

"Estou aguardando o Super-homem, para que ele me leve embora daqui", diz amulher.

O mais perturbador quanto à cultura de sexo de Bancoc é o fato de ela ter conduzido crianças para a prostituição e a pornografia.

Em uma noite recente no bairro de Soi Cowboy, várias crianças de rua vagavam em meio a transeuntes e turistas, vendendo flores e chicletes.

Um garoto de dez anos parou um norte-americano na rua e pediu a ele que
comprasse uma flor. A seguir, ele ofereceu outra coisa - uma sessão de sexo oral por 20 baths, o equivalente a cerca de 50 centavos de dólar. Enquanto aguardava uma resposta, o garoto olhava para o estrangeiro passando a língua pelos lábios.

"A Tailândia ficou com a reputação de ser um centro de turismo sexual para adultos, mas as crianças também fazem parte deste negócio", explica Mark Capaldi, vice-diretor da ECPAT, uma organização não governamental que procura acabar com a prostituição infantil. O acrônimo significava originalmente Fim da Prostituição Infantil no Turismo Asiático, na sigla em inglês, mas a missão do grupo se expandiu para o combate à pornografia e outras áreas da indústria sexual.

Uma parcela das cerca de 200 mil ou 300 mil pessoas que trabalham na
indústria sexual na Tailândia são ou menores de idade, ou escravas
involuntárias ou mulheres endividadas, segundo um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Segundo Capaldi, as crianças de rua são as mais vulneráveis.

Sob um viaduto no centro de Bancoc, um grupo de crianças espera que a luz do semáforo fique vermelha. Ratos do tamanho de gatos perambulam pelos arbustos, e garotos usando shorts e sandálias correm para a rua quando os carros param. Eles fazem expressões tristes e pressionam as faces contra as janelas dos carros, pedindo dinheiro.

Um dos garotos, "Ice", de dez anos, diz que cerca de três vezes por mês
alguém lhe oferece dinheiro em troca de sexo. Ele sempre recusa. Mas os
assistentes sociais temem que o atrativo do dinheiro um dia possa fazer com que o garoto mude de idéia. Ice e o seu irmão dormem no chão, no barraco de um só cômodo da sua avó, em uma favela. Ele ganha dinheiro catando restos de metal e mendigando.

Embora a prostituição seja ilegal, o turismo sexual é uma grande fonte de dinheiro para a Tailândia. Os bairros nos quais prospera a indústria sexual são controlados pelo crime organizado, e a política faz vistas grossas para a ilegalidade evidente. Durante as duas noites em que o repórter esteve nos bairros de prostituição, ele não viu nenhum policial.

Apesar disso, o governo tem se movimentando no sentido de proteger as
crianças. Dez anos atrás, as penas ficaram mais rigorosas para as pessoas presas por manter relações sexuais com crianças. Segundo Capaldi, as mudanças ajudaram.

Alguns temem que agora os pedófilos passem a procurar as crianças de outras maneiras - tornando-se professores nas escolas tailandesas.

"É fácil encontrar um emprego como professor", diz Luc Ferran, funcionário da ECPAT que atua no combate ao turismo sexual infantil. "Qualquer pessoa que não deseje que o passado seja um empecilho para o seu trabalho pode vir para Bancoc sem ter os antecedentes checados. E mesmo que o indivíduo não esteja procurando crianças especificamente em Bancoc, a cidade é um centroda indústria sexual. Daqui é fácil seguir para o Camboja ou o Vietnã". Danilo Fonseca

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