Horror de Neil LaBute em "O Homem de Palha"

Bob Strauss
do Los Angeles Daily News

Quando você vai refazer um filme semi-clássico de horror atualmente, você em geral não busca um roteirista aclamado e diretor independente sério para fazer o serviço.

Mas foi exatamente isso que o astro Nicolas Cage e seus parceiros de produção fizeram para sua versão americanizada do favorito britânico de 1973 "O Homem de Palha".

Neil LaBute -cujas batalhas corrosivas entre os sexos em "Na Companhia de Homens", "Seus Amigos, Seus Vizinhos" e "Arte, Amor e Ilusão" são assustadoras a seu jeito- assumiu a assombrosa tarefa de reescrever e dirigir a nova versão, que estréia hoje. LaBute, 43, criado como mórmon e de cabelo enrolado, tem uma lista impressionante de credenciais acadêmicas e não é estranho a controvérsias. Suas peças e filmes mostram homens e mulheres em seu pior, manipuladores e sujos, e como resultado polarizaram o público e os críticos.

A mudança para o para o gênero degradado de filmes de terror pode se provar igualmente perturbadora para os fãs e críticos de LaBute. Por outro lado, as reclamações de membros da pequena mas ávida base de fãs do primeiro filme têm sido constantes desde que ficaram sabendo que LaBute ia mudar a localização da história (de uma ilha remota na Escócia para Puget Sound, no Estado de Washington) e o sexo do principal antagonista (do xamã de Christopher Lee, Lord Summersisle, para uma espécie de sacerdotisa, Irmã Summerside, interpretada por Ellen Burstyn).

Por outro lado, em uma era em que sustos baratos e incoerentes em narrativas próprias para a capacidade de atenção de uma criança de 13 anos são os tipos mais bancáveis de filmes de horror, um artesão realista e intelectual como LaBute parece extremamente fora de lugar.

"Acho que o filme várias vezes está mal colocado", retruca o diretor, referindo-se ao original, com roteiro do falecido Anthony Shaffer ("Sleuth") e direção de Robin Hardy.

"Não é particularmente aterrorizante, mas vai chegando a uma conclusão horrível. O filme depende mais de ser repulsivo do que em ser de fato assustador. Quando Nic e eu conversávamos, era sobre Edgar Allan Poe e realmente tentar entrar na pele das pessoas, enervá-las e dar-lhes algo para pensar."

"Neil é famoso no mundo do teatro e por seus filmes mais artísticos", disse Randall Emmett, um dos seis produtores do filme. "Eu pensei: 'Nossa, podemos fazer um filme de gênero com verdadeira integridade artística.'"

LaBute é fã de "O Homem de Palha" desde que o viu pela primeira vez, quando trabalhava em um cinema de arte em 1980. O filme tinha no elenco Edward Woodward, Christopher Lee, Diane Cilento e Britt Ekland.

O novo diretor não mudou muito a base da história: um policial correto vai para a ilha em busca de uma menina e encontra uma cultura agrária e misteriosa com raízes pré-cristãs. Os moradores brincam com sua mente.

Os dois filmes têm seu clímax na cerimônia do título, que envolve a queima de uma efígie de madeira gigante.

Mas para infundir a regravação com a desejada integridade artística, LaBute teve que fazer os temas se tornarem seus.

"Onde decidi pegar o mundo e torná-lo um pouco mais 'meu' foi na configuração da própria ilha", explica. "No final mudei a indústria de maçãs para mel. Não só para mudar do original, (mas) porque estamos na costa de Washington e Washington é certamente conhecido pelas maçãs."

"Mas meu interesse está na comunidade do mel, em como funciona uma colônia de abelhas. Eu gostei da idéia de uma rainha, mudando o patriarcado do filme original para um matriarcado."

"Em vez das idéias muito firmes do original sobre o fanatismo religioso, minhas idéias eram mais sobre as coisas que vinha escrevendo em filmes e no teatro, ou seja, a política de gênero e a dinâmica do poder", continua LaBute. "Um conceito ao menos tão antigo quanto a idéia da religião é a de homens e mulheres e como se relacionam."

LaBute também sutilmente americanizou a trama de fundo, substituindo os temas celtas da comunidade original com referências a nosso próprio passado colonial e pioneiro.

"Fazemos um aceno à cultura pagã original", admite LaBute.

"O personagem de Ellen Burstyn fala sobre como, desde suas raízes celtas, seus ancestrais tinham sido contra a supressão do feminino. Eles migraram para o Novo Mundo -mas infelizmente eles se estabeleceram em Salem! Então você imagina que é uma comunidade de bruxas, com uma crença na deusa. Então eles migraram para oeste e foram morar onde estão hoje, o que as pessoas tendiam a fazer quando enfrentavam perseguição. Quero dizer, eu fui mórmon por alguns anos, e é a mesma história. É o movimento natural de comunidades menores."

Alguns britânicos, inevitavelmente não estão gostando disso. Hardy está reclamando publicamente sobre vários pecados que o novo filme comete. (A ficha técnica da refilmagem dava crédito de autoria a Hardy e o item foi removido da Internet a pedido de seu advogado.) Lee criticou em entrevistas o conceito de uma mulher fazendo seu papel.

Fãs do original, que são muito mais numerosos no Reino Unido do que nos EUA, vem bombardeando a Web com suas opiniões.

"Tento ficar longe disso, porque é fácil se perder nessas coisas, como a própria Internet", admite LaBute.

"Você pode passar muitas e muitas horas só procurando coisas, lendo e respondendo.

Mas lá tem de tudo, fico feliz em dizer. Há as pessoas que gostam do original, mas ficam felizes em ver como pode ser feito diferentemente; as que estão em cima do muro e as que são críticas ferrenhas, que dizem: 'Nem quero saber se é bom, detesto o fato de estarem fazendo isso.' Para mim, é melhor ficar longe. Compreendo como as pessoas são muito territoriais sobre aquilo que gostam."

"E entendo que o diretor e os atores originais talvez pensem: 'Deus, como podem tocar neste filme?" concede LaBute. "Para mim, vindo do mundo do teatro, estou acostumado a ter outras produções de coisas que fiz ou peças clássicas nas quais quero tentar isso ou aquilo. Então não penso nas coisas nesses termos. E não é algo que quero que as pessoas julguem se gostam de um mais do que de outro. Quero dizer, realmente espero que as pessoas descubram o original também. Não é assim um filme tão conhecido, particularmente nos EUA."

A questão agora é, o "O Homem de Palha" de LaBute vai encontrar um grande público?

Especialmente depois de correr a notícia que envolve algumas coisas tenebrosas chamadas idéias nele.

"O gênero tem certas exigências", admite LaBute. "Você tem que assustar as pessoas de vez em quando. Mas para nós era sobre imagens, e entrar na pele das pessoas em vez de tentar constantemente chacoalhá-las pelas lapelas."

Mas ele também observa que os produtores e estúdios fizeram certa pressão, apesar do entusiasmo com a "integridade artística".

"O que quer que você faça... produtores, divulgadores, distribuidores tendem a querer mais do que você deu", diz LaBute. "Se for um filme de horror, querem mais sustos. Se for comédia, querem mais risos -é um tipo de fome voraz. Eles constantemente dizem: 'Torne-o mais engraçado, assustador, veloz.' Essa é a tendência natural. Algo que parece artístico demais ou intelectual demais eles dizem: 'Não seria melhor se mostrássemos um pouco de sangue?'"

Então quer dizer que o distribuidor, Warner Bros., não está apresentando "O Homem de Palha" previamente aos críticos -a primeira vez para um filme de LaBute- porque acredita ser inteligente demais e não assustador demais? Em todos os casos anteriores, os filmes que não tiveram apresentações aos críticos eram apenas ruins.

Não chegue a conclusões apressadas, diz o diretor.

"Fui envolvido na decisão, de fato", diz ele. "Falou-se muito disso neste último ano. Mas acho que, ainda cedo para isso ser pensado como sinal de que há algo de errado com o filme. Mas para nós acho que a aposta foi que as pessoas de fato não conhecem tanto esse filme nos EUA, e fiz mudanças nele que as pessoas que conhecem não vão esperar. Então eu queria mantê-las em segredo pelo maior tempo possível. Vamos jogar os dados e ver se podemos correr assim. Vamos ver como se sai." Deborah Weinberg

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