Blair não estabelece cronograma para sua partida

Alan Cowell

LONDRES - Depois de um verão de reclamações sobre Tony Blair, a temporada política britânica iniciou na sexta-feira (1º/9) uma programação familiar: o primeiro-ministro disse que não ia deixar o cargo tão cedo; seus adversários dentro do próprio partido disseram que deveria.

Em uma entrevista publicada pelo "The Times of London", Blair criticou seus inimigos e disse a eles que parassem de "obcecar" com a possível duração de seu cargo e "seguissem tratando dos interesses do governo". Suas observações geraram novos protestos de legisladores trabalhistas e sindicalistas, instando Blair a estabelecer um cronograma para sua partida. A editora William Hill acha difícil que Blair renuncie em 2007.

O momento das observações de Blair foi significativo. No final do mês, ele enfrenta a conferência anual de seu Partido Trabalhista, agora em seu nono ano no cargo e mostrando sinais da fadiga de terceiro mandato comum às administrações britânicas. As divisões dentro do partido se aprofundaram particularmente devido à aliança de Blair com o presidente Bush ao lidar com o mundo muçulmano e pelo que os críticos chamam de parcialidade para Israel na última guerra.

Alguns de seus inimigos instaram-no a usar a conferência para anunciar uma data para cumprir uma promessa de dois anos de renunciar como líder do partido -e portanto como primeiro-ministro- antes das próximas eleições nacionais, que serão em 2010.

Mas Blair recusou-se a se comprometer com um cronograma formal. "Disse que não vou participar de outra eleição", falou ao Times of London. "Se as pessoas querem mudança estável e ordenada, não devem ficar obcecando sobre isso por enquanto, mas sim continuar tratando dos interesses do governo."

O debate reflete uma preocupação entre alguns do Partido Trabalhista que acreditam que Blair se tornou um risco eleitoral e deve abrir caminho para seu sucessor consagrado, Gordon Brown, ministro da economia. "Se uma eleição ocorresse amanhã, o partido provavelmente perderia", disse Tony Woodley, proeminente líder da união trabalhista.

Defendendo uma mudança no topo, ele declarou: "Quanto mais cedo fizermos isso, melhor."

Os pedidos para a partida de Blair vieram de seu próprio partido. Os conservadores da oposição, inspirados com recente pesquisa mostrando que comandam 40% dos votos, pareceram felizes em ir com calma. Sua estratégia sugere que estão se concentrando em reforçar a imagem de seu líder há nove meses, David Cameron.

Enquanto Blair debatia seu futuro, Cameron passava a sexta-feira reforçando suas credenciais ecológicas, falando em uma conferência com a imprensa conjunta com um grupo ambientalista e defendendo uma nova lei para tratar da mudança climática.

Recentemente Brown não foi envolvido no debate sucessório.

É difícil avaliar a extensão da rebelião trabalhista contra Blair, já que as discussões sobre seu futuro geralmente ocorrem em reuniões subretícias pelos protagonistas ou seus defensores. Atualmente, o que dizem esses oráculos é que Blair quer outro ano, mais ou menos, para anunciar o cronograma de partida antes das eleições locais de maio, e depois deixar o cargo durante o verão, segundo o Guardian de sexta-feira.

David Blunkett, ex-ministro, instou os membros do partido Trabalhista a darem tempo para Blair orquestrar sua partida de forma tranqüila e "perfeitamente civilizada".

"Temos três anos e meio antes das eleições gerais, e estou absolutamente certo de que as discussões aconteceram dentro do mais alto escalão para garantir que teremos um longo período antes da data das eleições", disse ele à rádio BBC.

A posição de Blair em casa foi danificada por sua decisão de levar o Reino Unido a participar do nada popular conflito do Iraque e por parecer um sócio inferior excessivamente submisso em seu trato com Bush.

Durante o verão, ele ignorou os pedidos de seus seguidores para que exortasse um imediato cessar-fogo no Líbano ou rotulasse as táticas militares israelenses como desproporcionais. Alguns críticos também questionaram sua decisão de permanecer no Caribe enquanto o Reino Unido passava por um de seus mais altos alertas de segurança após a descoberta do que a polícia chamou de conspiração para explodir aviões transatlânticos.

O primeiro-ministro, entretanto, fez pouco dos que exigiram uma data para sua partida, efetivamente desafiando-os a mostrarem suas mãos ou silenciarem-se antes da conferência do Partido Trabalhista.

"Realmente acho que é um absurdo as pessoas que dizem que devemos parar com essa especulação contínua sobre a liderança continuarem a especular sobre isso", disse ele ao Times of London. "Eu fiz o que nenhum outro primeiro-ministro fez antes de mim. Disse que não vou continuar para sempre e que vou deixar amplo tempo para meu sucessor." Deborah Weinberg

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