Distinção entre realidade e ficção na TV pode ficar ainda mais imprecisa?

Pete Alfano
do Fort Worth Star-Telegram

O telefone tocou no meio da noite, um risco ocupacional para o psicólogo Geoffry White. Mas a ligação não era de um paciente. Era de "Joe Schmo", uma paródia dos reality-show da TV que foi transmitido pela Spike Network de 2003 a 2004. White foi informado de que uma crise estava fervilhando. Ia haver uma rebelião.

White era consultor de "Joe Schmo", assim como de "The Mole" na ABC. Seu trabalho era avaliar os participantes para saber se não eram emocionalmente frágeis demais para enfrentar os conflitos e as situações simuladas criadas pelos produtores malignos.

Ele também monitorava cada episódio, interferindo sempre que achasse que as fragilidades humanas estavam chegando ao limite.

"Joe Schmo" era um reality-show especial. Todos os participantes, exceto um, eram na verdade atores seguindo um roteiro, com acontecimentos ensaiados.

Os produtores inventaram uma brincadeira especialmente maliciosa para aplicar no candidato ingênuo - uma das atrizes do programa fingiria se apaixonar por ele. Foi então que a equipe de palco do programa disse "basta". Eles acharam a brincadeira cruel, até pelos padrões desses programas.

"Eles iam se rebelar", disse White, que foi o mediador da briga. Reviu o videoteipe e decidiu a favor da equipe de palco. Não haveria paixão inventada. Por uma vez, pelo menos, a realidade não morderia.

Com o início do calendário de programas do horário nobre este mês, parece que grande parte do que os espectadores vêem na televisão reflete a premissa de "Joe Schmo" - parte realidade, parte fantasia, com a divisão entre os dois esfumaçada, quase irreconhecível.

Como os reality-shows são gravados e sofrem muita edição, estão ficando mais roteirizados. Seus supostos concorrentes agora têm um plano a seguir, e muitos já fazem o teste tendo em mente o papel de um dos participantes anteriores.

Ao mesmo tempo, a TV com roteiro está se esforçando para retratar a realidade crua, com conteúdo de linguagem e imagens explícitas que refletem o lado sombrio da natureza humana.

E o telejornal, o terceiro elemento no cozido da programação, está dando destaque a dramas da vida real como perseguições de carros e salientando notícias sobre crimes que, de maneira interessante, muitas vezes acabam virando enredos "da vida real" para programas.

A ironia é que a fixação nos piores aspectos do comportamento humano pinta um retrato tão irreal quanto mães televisivas que usavam vestido e colar de pérolas em casa, como Donna Reed, e policiais como o sargento Joe Friday, que eram caricaturas unidimensonais.

Quer seja "Survivor" (que começa sua 13ª temporada nesta quinta), "Law &
Order: SVU" ou o noticiário das 22h, o mundo mostrado pelas lentes da TV não é bonito. É cheio de violência, desonestidade, cobiça e traição, e obcecado por sexo. A única coisa que falta na classificação de audiência Nielsen é uma contagem de corpos.

E parece que isso não vai se atenuar tão cedo. O público se adapta. O que ele acha perturbador numa temporada torna-se rotina na próxima. Lembra-se de quando "NYPD Blue" foi proibido nos estados do Cinturão da Bíblia na primeira temporada?

Os programadores das redes precisam continuar se esforçando para manter a atenção do público. Por isso a TV, com ou sem roteiro, está sendo levada a extremos. Até um programa simpático como "Extreme Makeover: Home Edition", que ajuda uma família necessitada, tem de encontrar pessoas em situações cada vez mais difíceis.

"É porque as pessoas ficam dessensibilizadas", diz a psicóloga Kate Wachs, de Chicago, especializada em relacionamentos. "Você precisa de pessoas mais desesperadas para manter o alto nível de emoção."

E a TV com roteiro deixa menos para a imaginação. Não é novidade espiar por cima do ombro de médicos e cirurgiões enquanto abrem um corpo como se fosse um peito de frango. Hoje as câmeras dão zoom em restos humanos em decomposição, cheios de insetos, com maior freqüência do que no corpo seminu de uma jovem.

Os psicólogos temem que essa imagem sinistra do mundo atraia nossos instintos básicos. Os espectadores são atraídos pela violência e o conflito humano na TV como curiosos para uma cena de acidente.

"É natural que as pessoas dêem mais atenção ao que ameaça suas vidas e seja plausível", disse Stuart Fischoff, professor emérito na Universidade Estadual da Califórnia em Los Angeles e editor do "Journal of Media Psychology".

Programas como "Survivor", "The Apprentice", "The Bachelor", "The Amazing Race" e "Big Brother" fazem sucesso em parte porque incentivam os espectadores a torcer tanto a favor como contra os participantes, "roteirizando" retratos negativos na mesa de edição.
O apresentador Ryan Seacrest prolonga diabolicamente o sofrimento antes de dispensar um jovem cantor pop por semana em "American Idol". Simon Cowell tornou-se uma caricatura dele mesmo como o juiz mau, comprazendo-se na crítica mordaz e insensível aos candidatos durante a parte de testes do programa.

"Isso agrada à parte má de nossa natureza", disse Robert Thompson, professor de televisão popular na Universidade de Syracuse. "Todos já fomos tratados desse jeito, por um patrão, amigo ou colega... Ver acontecendo na TV com outra pessoa é realmente reconfortante."

Talvez seja por isso que alguns curiosos torciam pelo bandido durante a perseguição de caminhão que os espectadores locais assistiram em 23 de julho, quando um homem seqüestrou uma carreta com sua motorista. E não é de surpreender, portanto, que o público de TV tenha adotado os "Sopranos" como antes fizeram com os "Waltons".

"A maioria das pessoas tem vidas chatas, vazias, desconectadas e solitárias", disse Geoffry White. "Elas ficam fascinadas por algo que está acontecendo com outro ser humano."

A ascensão da realidade

A marcha inexorável da televisão para seu realismo sombrio não aconteceu do dia para a noite. Ela brotou de sementes plantadas na infância dessa mídia.

Em 1956, um dos programas diurnos mais populares apresentava quatro mulheres, cada qual com uma história de partir o coração. Muito antes da existência dos telefones 0800 e das mensagens de texto, usava-se um "aplausímetro" para medir a votação da platéia no estúdio para a melhor história triste, e o apresentador Jack Bailey proclamava a vencedora "Rainha por um Dia".

A mulher era cerimoniosamente envolvida num manto de veludo, e Bailey colocava uma coroa em sua cabeça. O prêmio era geralmente uma geladeira, lavadora ou televisor muito precisados.

Cinqüenta anos depois, o espírito do "Rainha por um Dia" continua vivo em "Extreme Makeover: Home Edition" da ABC. Mas hoje os prêmios são casas enormes, repletas de luxo, com piscinas, TV de plasma e outros brinquedos high-tech.

"American Idol" e a série de programas de calouros que ele inspirou é uma versão atualizada do "Original Amateur Hour", de Major Bowe e Ted Mack, com um pouco de "Gong Show" para temperar.

O telejornal era apenas um observador inocente quando o público viu Jack Ruby atirar em Lee Harvey Oswald, dois dias depois do assassinato do presidente John Kennedy em 1963. A programação de noticiário-realidade ganhou força com o programa espacial, incluindo a cobertura ao vivo de Neil Armstrong caminhando na lua e o ônibus espacial Challenger explodindo ao decolar nos céus da Flórida.

A era da inocência na programação escrita pode ter começado a cair quando "All in the Family" estreou na CBS em 1971, e Archie Bunker tornou-se a versão contemporânea de Robert Young em "Papai Sabe Tudo".
"'All in the Family' vai de programas que ignoram o mundo real a programas que jogam o mundo real na sua cara em todos os episódios", disse Robert Thompson.

Em mais de uma década, o escapismo utópico e a realidade suja coexistiram.
Para cada "Maude", "M*A*S*H" e "Roseanne", havia "The Cosby Show", "Family Ties" e "Mary Tyler Moore Show". Havia espaço para "Miami Vice" e "Hill Street Blues", que matavam os personagens 20 anos antes de isso tornar-se comum.
Mas uma sociedade que ficava mais descrente de suas instituições e desconfiada das pessoas rejeitou o escapismo com o tempo, porque nunca pareceu relevante para sua vida. "Os programas escapistas não estavam apenas dividindo o tempo com o novo modelo, estavam sendo aniquilados", disse Thompson.
Hoje a televisão joga pôquer com as emoções dos espectadores. Com tantas opções disponíveis a um clique do controle remoto, os programadores estão recorrendo a extremos ao apertar o botão da realidade.
Por exemplo, a nova trama de "Survivors", que divide as equipes por raça, é um golpe de gênio ou os produtores estão desesperadamente eperando pela sorte porque ficaram sem idéias e o público sabe o que virá a seguir?
Os reality-shows passaram do ponto em que os concorrentes refletiam as pessoas medianas. A maioria deles hoje parece ter sido enviada pela central de elenco, com alto quociente de sensualidade. Os outros são como personagens encaixadas em estereótipos claros.
"Toda a idéia de que são pessoas como eu não existe mais", disse Stuart Fischoff. "Eles procuram pessoas jovens e belas, e então assistimos a uma encenação."
Para refletir o que as pessoas são realmente - ou o que desconfiamos que sejam -, os astros dos programas populares roteirizados se debatem com problemas pessoais. Parece que os médicos nos dramas de hospital têm mais problemas - físicos e emocionais - do que seus pacientes.
E talvez em reação aos reality-shows, que eliminam concorrentes a cada semana, muitos programas com roteiro agora matam personagens impunemente.
Assim é a vida, eles querem que os espectadores pensem.
Uma das abordagens mais inteligentes usadas para atenuar a separação entre realidade e fantasia foi lançada na última temporada, na série de sucessos da ABC "Lost", que é essencialmente "Survivor" com um enredo detalhado.
Os criadores do programa inseriram anúncios da fictícia Fundação Hanso entre os outros comerciais. Os espectadores que reconheceram o nome do programa e foram ao site da fundação ou ligaram para seus telefones foram levados a uma realidade alternativa, um jogo interativo chamado "The Lost Experience".
E o site também tinha sutis ligações promocionais com os verdadeiros patrocinadores do programa.

Entre na sintonia ou desligue

A televisão está prestando um desserviço ao turvar as águas da realidade e da fantasia, ou os espectadores não estão recebendo crédito pela capacidade de distinguir entre as duas?
Richard Allen, presidente de rádio/tv/cinema na Universidade Cristã do Texas, disse que é perigoso as pessoas verem a TV como um portal para o mundo. "Elas estão na Casa da Diversão e acham que a casa de todo mundo é igual", ele disse.
Mas ele salienta que, como há tantas opções, ninguém precisa ser público cativo. "Tem o Nickelodeon, o Disney Channel, muitos lugares diferentes onde as pessoas podem se divertir", ele disse.
A psicóloga Wachs aconselha os espectadores a escolher muito, evitando programas e temas que causam tensão. "Precisamos exercer mais nossas opções", ela disse. "Não precisamos ser manipulados. Como você quer que seja o roteiro?" Se a violência o assusta ou deprime, não assista. "Se um reality show é muito parecido com a sua vida, por que assisti-lo?"
Thompson disse que a TV não vai recuperar a inocência perdida, mas existe espaço para o escapismo utópico à moda antiga, se as redes fossem mais abertas para adotá-lo.
Mas a TV-realidade - com ou sem roteiro - parece estar aí para ficar. "O gênio escapou da garrafa", disse Fischoff. "Estamos constantemente segurando a respiração, esperando que alguma coisa decente aconteça, e nunca acontece." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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