10 de setembro de 2001: o último dia comum dos Estados Unidos

Jessie Milligan
do Fort Worth Star-Telegram

"Se algo acontecer a você, Al, o que farei com todas essa coisa no porão?", pergunta ao seu marido Loretta Filipov, 64.

Alexander Filipov, um engenheiro de 70 anos, alto e magro, com elegantes cabelos grisalhos, entende o recado. O porão está cheio de equipamentos elétricos que pertencem a uma companhia para a qual Filipov presta serviços de consultoria. Ele e a mulher empacotam o equipamento e ligam para a United Parcel Service para que a empresa leve o material.

Al consulta a sua agenda para se certificar do dia e do horário do seu próximo trabalho de consultoria, na Califórnia. A companhia para a qual ele está trabalhando o colocou em um vôo da Delta que envolve a troca de aviões.

E o pior, devido ao horário do vôo, ele só voltará no final da sexta-feira, dia do seu 44º aniversário de casamento. O casal pretende não apenas comemorar a data, mas também tirar férias de três semanas no Havaí. Ele muda a sua reserva para o vôo 11 da American, que parte de manhã.

Enquanto Al modifica os seus planos de viagem, Loretta decide ir até a Priscilla's Candy Shop, em Concord, a arborizada cidade histórica próxima a Lexington, na qual as primeiras batalhas da Revolução Americana foram travadas. O casal mora aqui há quase quatro décadas. Loretta escolhe cartões para mandar a parentes que fazem aniversário em setembro e outubro.

Os membros da família moram relativamente próximos uns dos outros. Al e Loretta dirigiram até a Pensilvânia na semana passada para assistirem ao funeral de um tio. Al conversou com todos os parentes. Ele não deixou de tocar ou abraçar uma pessoa sequer.

Na viagem de 480 quilômetros de volta para casa, Al disse a ela. "É melhor conversarmos. Tenho que ficar acordado".

Al e Loretta falaram sobre a vida que passaram juntos.

Eles se conheceram quando Al, um engenheiro que trabalhava com uma equipe de vôo no Ártico, retornou aos Estados Unidos e machucou o calcanhar no trabalho. Ele entrou mancando no consultório de um cirurgião ortopédico, no qual Loretta trabalhava. Os dois se casaram alguns meses depois.

Naquela noite, no carro, Al diz a Loretta, "Se algum dia algo acontecer comigo, lembre-se de que aquela câmera é valiosa".

Mais tarde ela descobrirá que a câmera não vale tanto assim, mas esse fato não terá importância. Loretta se lembrará da conversa durante esses 480 quilômetros sobre os seus quase 44 anos de casamento e ficará grata por cada pequeno momento em cada quilômetro de valor inestimável.

Pela manhã, o Aeroporto Logan está fervilhando com viajantes a negócio. Os saltos dos sapatos estalam no piso. As correias transportadoras de bagagem chacoalham. Os jornais nas bancas desse aeroporto pelo qual passam 20 milhões de passageiros por ano descrevem como turistas ficaram presos nas Bermudas devido às chuvas provocadas pelo furacão Erin.

A tempestade parece se dirigir para a Nova Inglaterra.

As malas se abrem no aeroporto. De dentro delas saem laptops.

Boston gosta de ser conhecida como "uma economia baseada no conhecimento", um sistema econômico fundamentado no intelecto. Pesquisas feitas em universidades particulares. Tecnologia da Internet, Seguros. Gerenciamento de capital.

Os grandes atores nestas áreas passam as suas vidas nas duas costas do país, viajando pela nação para participarem de reuniões importantes e fazerem trabalhos de consultoria. Eles não são funcionários comuns. São os comandantes que impulsionam os negócios norte-americanos para frente.

O Grupo Monitor emprega vários gênios dos negócios, mas Waleed Iskandar, 34, se destaca, mesmo entre os outros astros do ramo.

Poucos são aqueles que se equiparam ao dinamismo de Waleed. Ele é um jovem robusto, cujas realizações pessoais incluem uma viagem de dois meses pelas florestas tropicais da América do Sul, um período de estudos junto a monges na Índia, uma jornada de bicicleta de São Francisco até o sul da Califórnia e um safári na África.

Desde que chegou aos Estados Unidos em 1984, vindo da sua nativa Beirute, esse católico libanês se graduou em Stanford e Harvard, e ingressou no The Monitor Group, tendo trabalhado nas operações o grupo no Oriente Médio e na Coréia, além de ter criado o escritório da empresa em Istambul.

Ele gosta de patinação, ioga e esqui aquático. É difícil que alguém acompanhe o seu ritmo, mas Nicolette Cavaleros, gerente de marketing do Monitor Group, está a ponto de fazer exatamente isso.

Os dois pretendem fazer uma viagem a pé pelo trecho paquistanês da Estrada da Seda, a antiga rota comercial que vai da China ao mar Mediterrâneo. Os dois vão se casar no próximo verão.

Neste dia, Waleed se apressa para chegar ao trabalho. Ele dirige os programa digitais na Europa da companhia de Cambridge. O casal, que mora em Londres, está em Boston a negócios, estando hospedado na casa do irmão de Waleed, Sany Iskandar.

Waleed não vê a hora de chegar à Califórnia para ver os pais. Nicolette suplica a ele que não se apresse tanto, que embarque em um vôo que parta mais tarde. Ela está impossibilitada de partir até a quinta-feira à tarde, e quer viajar com ele. Mas Waleed não abre mão de embarcar no vôo 11 para Los Angeles, pela manhã.

O ritmo de vida é de uma velocidade tão estonteante quanto o ritmo dos negócios para jovens talentosos e brilhantes como Waleed e o técnico de Boston Danny Lewin.

Danny adora velocidade. Ele tem duas motocicletas, e adora esquiar em montanhas bem inclinadas.

Tudo na sua vida é rápido. Aos 31 anos, ele já ganhou e perdeu bilhões de dólares.

Nascido em Denver e criado em Jerusalém, Danny é veterano de uma unidade de elite das Forças de Defesa de Israel, onde recebeu treinamento para combater terroristas.

De volta aos Estados Unidos, Danny freqüentou o repositório de gênios conhecido como Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). A sua tese de mestrado desenvolveu uma forma de aumentar a velocidade do tráfego na Internet ao permitir que os websites enviem e recebam dados por meio de servidores múltiplos. Ele se associou a um professor do MIT para criar a Akamai Technologies, uma companhia cujo nome significa "esperto" na língua nativa havaiana.

Danny ganhou bilhões de dólares quando a Akamai colocou as suas ações no mercado em 1999. A seguir, na primavera daquele ano, ele fez parte do "Clube de Perdedores de Bilhões de Dólares" da revista "Fortune", ficando entre os 20 nomes proeminentes do setor de tecnologia que mais tiveram prejuízos quando as ações do setor desmoronaram. Danny viu US$ 2,3 bilhões da sua riqueza evaporarem.

Os seus pais estão na cidade, tendo vindo de Jerusalém para visitar Danny, a sua mulher, Anne Lewin, 33, e os dois filhos pequenos do casal. Um amigo de infância dirá mais tarde que os pais de Danny desejava que ele voltasse para Israel a fim de levar uma vida judaica mais plena. Já a sua mãe não apóia completamente a idéia. Danny ainda está se dando bem nos Estados Unidos - o seu patrimônio ainda vale US$ 25 milhões. Amanhã, ele voará na primeira classe do vôo 11 para participar de reuniões na Costa Oeste.

No mesmo vôo estará um astronauta, Chuck Jones.

Jones, 48, era um oficial da Força Aérea escalado para ir ao espaço na missão de agosto de 1987 do ônibus espacial, mas o lançamento foi cancelado depois que o Challenger, levando a professora primária Christa McAuliffe, explodiu em 1986.

Jones se formou no MIT em engenharia aeronáutica e astronáutica, e a seguir ingressou no setor privado em Massachusetts, onde trabalha e produtos de ponta a fim de modernizar a atividade militar. O seu negócio exige que ele atue nas duas costas do país, e nesta semana ele embarcará no vôo 11 para participar de reuniões na Califórnia.

Boston não é uma terra de celebridades. Os indivíduos famosos que vão para a Nova Inglaterra, fazem a mudança discretamente. Esse é o sentido da mudança.

Portanto, não é por acaso que uma das mulheres que mais conhecem gente famosa no mundo está em um retiro na sua cabana em Cape Cod. O "Women's Wear Daily" anuncia o boato de que Berinthia "Berry" Berenson Perkins, 53, uma loura charmosa e sardenta, está trabalhando em um livro sobre o seu falecido marido, o astro do filme "Psicose", Anthony Perkins.

Berry é a filha, criada na Europa, de uma condessa que morava em Paris e de um diplomata norte-americano. Ela tinha uma amizade estreita com o lendário Andy Warhol, e é amiga do estilista Roy Halston e da editora da "Vogue", Diana Vreeland, que a introduziu no universo da fotografia de moda.

Atualmente, Berry passa parte do ano na praia Treasure Beach, na Jamaica, gerenciando um bar com o seu novo namorado, Albert Parchment. Durante o resto do ano, ela visita a família na Europa, fica em Cape Cod ou vê os filhos, o ator Osgood "Oz" Perkins, 27, ("Legalmente Loura"), e o roqueiro alternativo Elvis Perkins, 25, em Los Angeles. Ela voará para Los Angeles amanhã para assistir à apresentação do filho.

Berry concluiu a tarefa de fornecer à editora Phaidon Press fotos de Halston para um livro sobre desenho de moda, que deverá ser publicado em outubro de 2001. Anos mais tarde, o suposto livro sobre Perkins não apareceu.

Os amigos dizem que Berry é um anjo.

Cape Cod é provavelmente o local mais distante para alguém que deseja se esconder do escrutínio de Hollywood. Esse é um dos aspectos positivos do lugar para David Angell, 54, e a sua mulher, Lynn Angell, 52. O casal está construindo uma casa em Cape Cod, um lugar no qual eles pretendem morar permanentemente, enquanto David controla a sua empresa de produção cinematográfica à distância.

Davi ganhou o seu primeiro Emmy ao escrever um episódio para a série de TV "Cheers", e a seguir foi co-fundador da Grub Street Productions, a companhia que produziu "Wings" e "Frasier". Vinte e quatro Emmys depois, David, nativo de Providence, no Estado de Rhode Island, está pronto para concretizar o seu velho sonho de retornar à Nova Inglaterra. Os Angell passaram o dia com o irmão de David, o reverendo Kenneth A. Angell, bispo da Diocese Católica de Burlington, em Vermont. Eles levaram o bispo até o aeroporto para que este voltasse a Burlington após um casamento de parente no final de semana.

Parecem faltar apenas seis dias para os Emmys deste ano. "Frasier" foi indicado para duas premiações, e os Angell seguirão para Los Angeles para assistirem ao show.

E o espetáculo do Emmy não é o único atrativo em Los Angeles. O segundo espetáculo do Grammy Latino anual está marcado para amanhã à noite. O evento foi transferido da Arena da American Airlines, em Miami, para Los Angeles, depois que cubanos anti-Castro prometeram perturbar as cerimônias para protestar contra a inclusão de atores nacionais cubanos.

Sonia Mercedes Morales Puopolo, 58, que morava na Floria, e que agora é uma comerciante de obras de arte em Boston, decidiu assistir ao show em Los Angeles.

Sonia, nascida em Porto Rico e ex-bailarina, se casou com Dominic Puopolo, 58, co-fundador da American Medical Response, um fornecedor de serviços de ambulância de âmbito nacional. Eles estão casados há 38 anos.

Ela acaba de terminar a sua temporada de verão sendo anfitriã de uma festa de aniversário para um amigo, na sua casa de verão em Nantucket. Ainda é muito cedo partir para a temporada de inverno em Miami.

Fotógrafos e escritores, além de pessoas como Sonia, são parte da estrutura que move a cultura do entretenimento. E também as pessoas que atuam por trás dos bastidores.

Daniel Lee, 34, carpinteiro que trabalha na confecção de palcos para a banda Backstreet Boys, tem uma preocupação mais premente. Não se trata de estar cansado de ouvir "I Want It That Way". O que acontece é que ele está deixando o itinerário canadense da turnê, e viaja hoje de Montreal para Boston. A sua mulher, Kellie, deverá dar à luz, por cesariana, na quinta-feira, em Los Angeles, e Daniel deseja estar em casa para a chegada da criança.

Os críticos da televisão estão prevendo quais serão os vencedores dos prêmios Emmy na barbearia Stan's Salon for Men, em Newton, Massachusetts.

Edward Kaplan, 57, trabalha cortando cabelo na barbearia. Ele está feliz por saber que a sua única filha, Robin, 33, está adquirindo força suficiente para sair em uma viagem de negócios amanhã pela TJX Companies.

Robin tem 1,67 m de altura, e está de volta ao seu peso normal de 44,5 quilos. As pessoas acham que ela é dançarina, corredora ou modelo. Mas ela não é nada disso. Robin sempre foi magra. Ela sofre da doença de Crohn, que provoca inflamação no trato digestivo.

Um ataque da doença no início do ano fez com que ela ficasse internada no hospital por vários meses. O seu peso caiu para 39 quilos, e os seus pais acreditaram que ela não sobreviveria.

"Ela sentiu tanta dor. Não sei como ela suportou toda aquela dor. Robin andava como uma mulher de 98 anos", conta a sua mãe, Francine Kaplan, 58.

Mas, com o apoio da família, dos amigos e do patrão, Robin lutou contra a adversidade, como sempre fez.

Ela manifestou uma força de vontade notável desde a infância, quando foi a última a aprender a andar de bicicleta. Robin simplesmente ficou tentando, tentando, até que finalmente conseguiu.

"Ela sempre lutou", conta a mãe.

Ela se formou com brilho na Escola de Segundo Grau Framingham North, e a seguir se graduou na Faculdade Estadual de Worcester, em 1990. Atualmente ela é uma especialista em equipamentos da TJ Maxx, e fará a sua primeira viagem a negócios desde a sua hospitalização.

Edward consulta o seu caderno de anotações. Ele percebe que Richard Ross, 58, de Newton, cliente há 20 anos, tem um encontro marcado para quando retornar da sua viagem a negócios na Califórnia. Richard fundou um grupo de consultoria especializado em relações com funcionários. Amanhã, ele estará no mesmo vôo de Robin.

Durante 15 anos, Richard foi técnico de beisebol, basquete ou futebol, dependendo de que esporte os três filhos estavam praticando em determinado período. Ele também apóia bastante a mulher, Judi Rotenberg, 57, que é artista.

No seu cavalete em casa há um quadro que ela começou a pintar no verão. Ele faz parte de uma série de florais com inscrições de versos do Cântico dos Cânticos de Salomão. No quadro há o seguinte verso: "Põe-me como um selo sobre teu coração,como um selo sobre teu braço! Porque é forte o amor como a morte".

As coincidências ocorrem até nos mais comuns dos dias. Encontros inesperados. Pequenas surpresas. Coisas que são facilmente desprezadas, e sobre as quais só se reflete quando as conseqüências se revelam.

Então, nós nos perguntamos: "Isso estava destinado a acontecer?".

Este é o caso com a comissária de bordo do vôo da American Airlines, Betty Ong, 45, solteira, esguia, residente em Boston, e que é conhecida por aqueles que a amam como Bee.

A vida é agitada para esta mulher que cresceu como filha de imigrantes chineses e donos de uma mercearia na vibrante Chinatown de São Francisco.
Ela tem trabalhado em vôos extras de forma que possa passar a semana que vem de licença com as suas duas irmãs. Nesta tarde, ela descansa.

Somente por meio de uma série de pequenos acidentes ela foi capaz de visitar a família da última vez.

Os seus pais, Harry Ong, 81, e Yee-gum, 75, estavam andando rapidamente por um corredor para embarcar em um ônibus em São Francisco. Nenhum dos dois dirige. Harry e Yee-gum se chocaram, e Yee-gum caiu, machucando o joelho.

Harry e Yee-gum foram para o hospital, e enquanto aguardavam em frente ao saguão de entrada, tiveram uma reunião inesperada.

Betty, que voa freqüentemente para a área, estava em São Francisco por um curto período. Um amigo dela a chamou para jantar. O amigo dirigiu pela cidade por um caminho pelo qual ela geralmente não passa.

Eles passaram em frente ao hospital, onde Betty ficou surpresa ao ver Harry e Yee-gum aguardando do lado de fora.

Em vez de jantar com o amigo, Betty decidiu passar horas falando com os pais enquanto eles aguardavam na sala de emergência.

Isso foi na semana passada.

Então, durante o final de semana, ela mandou um e-mail para o irmão, Harry Ong Jr., a fim de lembrá-lo de consertar a pia dos pais.

Amanhã, ela voará novamente.

Mais tarde, a família Ong se assombrará com a coincidência de uma visita não planejada, e o irmão de Betty lamentará o problema no seu computador que fez com que perdesse a última mensagem de e-mail, aquela sobre a pia. Danilo Fonseca

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