Reversão de resultado positivo em exame de doping é rara, mas aceita

John Meyer
The Denver Post

Quando Marion Jones obteve resultado positivo no teste para detecção da droga EPO para aumento de desempenho no Campeonato de Atletismo dos EUA em junho, parecia que os detetives de antidoping finalmente tinham as provas contra ela, depois de anos de boatos.

Agora a velocista controversa, que venceu cinco medalhas nas Olimpíadas de Sydney, foi exonerada, e a credibilidade do exame de EPO está em questão, porque a amostra B, de reserva, contradisse o resultado positivo da amostra A em um fato extremamente raro.

"Estamos interessados em qualquer caso em que A e B não se confirmam, tanto da perspectiva de tentar melhorar o exame, se houver uma falha técnica, e para compreender como as diferenças surgiram", disse o diretor da Agência Anti-Doping Mundial (Wada) Dick Pound.

Dos mais de 500 mil exames de doping conduzidos por 33 laboratórios certificados pela Wada em torno do mundo nos últimos três anos, quase 9.300 deram resultado positivo. Entre duas a quatro vezes por ano, as amostras B contradizem esses resultados, de acordo com estatísticas da Wada.

"No campo da biologia e da ciência laboratorial, essa é uma estatística incrivelmente boa. Se for uma situação de muita visibilidade, chama a atenção", disse Gary Wadler, especialista de fama internacional em antidoping.

Apesar de recusarem-se a falar do caso de Jones diretamente, especialistas antidoping dizem que há várias explicações possíveis para a amostra de reserva não dar o mesmo resultado que a original, apesar de a urina ser colhida ao mesmo tempo e dividida em duas garrafas. A amostra B só é analisada se a amostra A der resultado positivo, e é usada para proteger os atletas em casos de resultados positivos falsos.

A amostra A pode dar falso positivo, mas é igualmente provável que a amostra B dê falso negativo.

Uma segunda possibilidade é que a amostra A seja positiva no limite, e a B dê resultado negativo, apesar dos resultados serem quase idênticos.

"Qualquer exame, quando você se aproxima do limite de detecção -quando tem tão pouco material que é difícil de ver -pode dar positivo em uma tentativa e negativo em outra", disse Larry Bowers, diretor de recursos técnicos e de informação da Agência Antidoping dos EUA.

"Se (o resultado) estiver bem no limite, se torna uma proposição difícil. Isso se deve à variabilidade normal dos exames", disse Bowers.

Por exemplo, disse Wadler, se o açúcar no sangue de um paciente for testado cinco vezes seguidas, ele não terá o mesmo resultado cinco vezes. O mesmo acontece para o EPO e outras drogas para aumento de desempenho.

"Eu teria resultados próximos, porém não seriam precisos", disse Wadler. "Se você está no limite, você pode obter esse tipo de coisa."

Outra possibilidade é que a substância proibida pode ter se degradado na amostra B durante o teste da amostra A. Agências antidoping tentam correr o segundo teste logo após um resultado positivo, mas o atleta ou um representante e outras partes interessadas têm o direito legal de estarem presentes quando o segundo teste é feito. Reunir todo mundo pode levar tempo.

"Alguns compostos degradam-se rapidamente, outros não", disse Bowers. "Um bom exemplo de composto que desaparece relativamente rápido é o da maconha. Se você quisesse fazer uma mudança no resultado do teste para abaixo do limite, uma forma seria aumentar o tempo entre os testes A e B. O composto simplesmente desaparece da urina."

O advogado de Jones, Howard Jacobs, disse que não conseguia explicar a discrepância porque não tinha visto os documentos dos exames.

"Pelo que ouvi dizer, parece que o A era questionável como positivo", disse Jacobs. "Não surpreende que o B volte negativo neste caso."

Jacobs disse que há problemas com o exame de EPO porque os critérios para análise dos resultados -a interpretação dos dados moleculares de uma imagem digital chamada eletroferograma- são "muito subjetivos".

Jacobs questionou isso em um caso de 2004 envolvendo a corredora de distância Eddy Hellebuyck, mas a Corte de Arbitragem para Esportes- árbitro final de discordâncias de doping- rejeitou o argumento. Hellebuyck foi suspensa, e a corte alegou que "a validade do procedimento de teste foi assunto de uma série de estudos publicados em revistas cientificas".

O teste de EPO foi usado pela primeira vez nas Olimpíadas de Sydney. Três esquiadores cross-country perderam as medalhas nas Olimpíadas de Salt Lake, em 2002, depois de seus resultados positivos.

"Cientistas de todo o mundo confirmaram a confiabilidade do teste de EPO na urina", disse Travis Tygart, consultor geral da Agência Antidoping dos EUA. "O teste também foi vigorosamente questionado por alguns dos principais advogados de defesa, mas se sustentou na Corte de Arbitração para o Esporte."

Bernard Lagat, corredor de longa distância, teve resultado positivo para a presença de EPO na urina em 2003. No entanto, o teste da amostra reserva deu resultado negativo. Lagat processou a Wada e a federação internacional na justiça alemã, pedindo 500.000 euros de compensação e uma injunção contra o teste. A corte decidiu contra ele na semana passada.

O EPO é um hormônio que ocorre naturalmente e regula a produção de células sangüíneas. A administração de EPO sintético promove a resistência da pessoa aumentando a razão de células vermelhas no sangue, que carregam oxigênio.

Alguns se perguntam por que uma velocista como Jones ia querer aumentar sua capacidade aeróbica. Mas Kelli White, corredora que caiu em desgraça, disse que o EPO aumentou muito seu tempo de recuperação durante o treinamento. Ela assumiu a culpa em 2004 por usar várias substâncias ilegais, incluindo EPO, no escândalo de Balco. Ela venceu 100 e 200 metros em campeonatos mundiais em 2003, quando Jones ausentou-se para ter um filho.

Jones repetidamente insistiu que nunca usou drogas para desempenho, apesar de seu nome também aparecer no caso de Balco.

"Ela foi consistente neste caso, dizendo que nunca tinha tomado EPO", disse Jacobs. "Acho que em certo ponto, as pessoas têm que aceitar isso e parar de molestá-la."

Até Pound, que fala muito e lançou suspeita sobre Jones e o ciclista Lance Armstrong, disse que era apropriado limpar o nome de Jones.

"É melhor deixar alguns que podem ser culpados livres do que sancionar alguém que não deveria ser sancionado", disse ele.

Outros se preocupam com o dano que o caso pode ter causado na credibilidade do sistema antidoping. Wadler disse que tem certeza que certos atletas relutam mais em enganar os fiscais desde a formação das agências antidoping americana e global em 2000.

"Não podemos permitir que o enorme progresso dos últimos seis anos seja minado por sensacionalismo", disse Wadler. "Há coisas demais em jogo." Deborah Weinberg

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