Aos 76, Ornette Coleman lança CD ousado, um de seus melhores

Chris Vaughn
do Fort Worth Star-Telegram

De todas as feras do jazz dos anos 50 e 60 - período em que a criatividade dos músicos americanos chegou ao auge, embora infelizmente obscurecidos pelos cabeludos ingleses e os hinos da paz dos hippies - Ornette Coleman é um dos poucos ainda vivos.

Seus pulmões devem estar rosados como sempre, como pode confirmar qualquer um que o viu em show nos últimos anos. Aos 76, o músico nascido em Fort Worth (Texas) não tem nada de uma casca trêmula que tenta preservar seu considerável legado. O tempo não diminuiu sua curiosidade intelectual, sua criatividade prolífica ou seu aventureirismo musical.

"Cada vez mais percebo que a música é mais uma idéia que um arranjo", diz Coleman por telefone de sua casa em Manhattan. "A maior parte da música é arranjo. No meu caso, os rapazes que tocam comigo tocam onde eles escutam, em vez de me acompanhar aonde eu vou."

Seu novo disco comprova que sua visão continua ousada, e embora Coleman tenha deixado há muito tempo de chocar os críticos e provocar brigas violentas, sua música não é menos ambiciosa do que era 40 anos atrás, quando ele explodiu o formato do jazz.

"Sound Grammar" [Gramática do som], lançado este mês por seu próprio selo do mesmo nome, é o primeiro disco de Coleman em dez anos e simplesmente o 56º desde 1958.

O CD é resultado de uma jornada musical em que ele embarcou há três anos com seu filho, Denardo Coleman, na bateria, e dois baixistas: Greg Cohen, um jazzista que dedilha, e Tony Falanga, um musicista de formação clássica que toca com arco.

A banda merece grande parte do crédito por "Sound Grammar", gravado ao vivo em Ludwigshafen, Alemanha, em outubro de 2005. Coleman tinha gravado um pouco em seu estúdio em Nova York nos três anos precedentes, mas a banda realmente gostou dos números que tocou na Itália e na Alemanha.

"Tínhamos feito o mesmo repertório na Itália, e ele ficou mais forte", diz Coleman. "Quando tocamos na Alemanha todo mundo achou que queria lançar aquele."

Coleman sempre pareceu melhor em seus momentos mais despojados, como em "The Shape of Jazz to Come", os dois volumes de "Live at the Golden Circle in Stockholm" e "Love Call", disco que fez com seu amigo de Fort Worth Dewey Redman.

O som ricamente expressivo do sax alto de Coleman, tão vocal em seu fraseado e tom, e o toque de blues em seu som (ainda se pode escutar Fort Worth nele depois de tantos anos) sempre se misturaram melhor à simplicidade rítmica de uma bateria, um baixo e não muito mais.

É por isso que "Sound Grammar" é um de seus melhores trabalhos em muitos anos, uma idéia tipicamente complexa de Coleman executada com maravilhosa simplicidade.

A segunda faixa, "Sleep Talking", é a canção mais lindamente queixosa que Coleman compôs em muito tempo. Com um ritmo sensual e as melodias emotivas e repetidas do músico, parece uma história de Raymond Chandler.
"O que eu pretendia com a melodia era: quando você sonha, ouve música?", ele diz.

De modo atípico, ele reprisou algumas velhas canções, como "Turnaround", de "Tomorrow Is the Question!", e "Song X", do álbum de mesmo título em colaboração com Pat Metheny.

O sax de Coleman, e, ocasionalmente, seus passeios em trompete e violino, obviamente dominam cada canção, com seu fraseado distinto, as rápidas mudanças de tom e improvisação inconvencional dando aos outros músicos o gancho melódico de que precisam para trabalhar.

Cohen, um baixista dotado, oferece à música de Coleman sua espinha dorsal. O baterista Denardo Coleman, que toca com seu pai desde que era criança, está intuitivamente com o som do pai, entrando e saindo da linha de frente com um toque rítmico preciso. Esses três já formariam um trio formidável.

Mas é Falanga quem torna o conjunto musicalmente ousado e no entanto mais acessível melodicamente do que seus discos mais recentes. Ele contribui com uma subcorrente de som evocativo que se move com o sax de Ornette Coleman - e ocasionalmente contra ele. Em "Once Only", a execução de Coleman é principalmente ensolarada e ascendente, enquanto o baixo de Falanga aprofunda a peça, ensombrecendo-a Filho de um cozinheiro e uma costureira de Fort Worth, nascido nos primeiros tempos da Depressão, Coleman fez renome nos bares da cidade nos anos 40 e início dos 50. Ninguém conseguia imitar Charlie Parker melhor que ele.

O jazz era "o" negócio do momento, e o líder local que todos procuravam era Red Connor. Em poucos anos Fort Worth produziu um número incomum de notáveis - Redman, Bobby Simmons, "King" Curtis Ousley, Prince Lasha, Julius Hemphill, Charles Moffett.

Ornette Coleman tornou-se o maior, é claro, explodindo no cenário de Nova York no final dos anos 50 com suas próprias composições (quase todos os outros improvisavam em cima de "standards") e um som curioso que evitava as mudanças de acorde melódicas e previsíveis.

Ele escreve uma melodia para cada canção, então pede que os demais músicos toquem suas próprias melodias, criando um som harmônico mais complexo em que ninguém é o "líder" e ninguém é "acompanhamento". Ele chamou isso de "harmolodics", mas hoje seu termo preferido é "gramática do som". É tanto uma filosofia quanto uma técnica, e somente músicos hábeis e especialmente dotados podem ser criativos numa canção permeada da visão de Coleman.

"Eles podem ir para onde quiserem", ele diz. "Eu não lhes digo aonde devem ir. É como a química do som."

Em conseqüência disso, sua música sempre exigiu do ouvinte. Não é para cair na pista de dança ou namorar. Também não é o "free jazz" totalmente atonal e discordante.

"A liberdade total não significa tocar fora do tom ou tocar uma nota que não é o que você quer fazer com a peça", ele diz.

Vários anos atrás pediram a Coleman para citar a melhor canção que ele escreveu, e provavelmente esperava-se que respondesse "Lonely Woman" ou "Congeniality". Mas ele disse que ainda não tinha composto sua peça preferida. Os que tocam com ele sempre têm de aprender novas músicas.

"Eu componho para inspirar os rapazes que tocam comigo", ele disse. "Sinto como se estivesse trapaceando os músicos, usando sua energia para ganhar dinheiro, se eu não lhes der música nova. Quero que eles tenham seus direitos humanos."

Coleman raramnte volta a Fort Worth. Não toca em sua cidade natal desde que abriu o hoje fechado Caravan of Dreams na Sundance Square em 1983. Antes disso não tinha tocado na cidade desde 1966.

Mas suas conversas são salpicadas de lembranças de um cenário local há muito desaparecido (o colégio I.M. Terrell, a loja Leonards, o Jim Hotel e o clube China Doll), e todos em Nova York sabem que ele é um texano pelo modo como enfatiza "Fort" e não "Worth".

Perguntado sobre quando voltará para tocar em Cowtown, Coleman responde que não conhece mais ninguém com quem conversar a respeito. "Mas gostaria de tocar lá amanhã", diz. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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