Um político urbano boliviano que tenta fazer uma ponte entre dois mundos

Simon Romero
Em La Paz, Bolívia

À primeira vista, Álvaro García Linera parece um vice-presidente improvável para a Bolívia no momento.

O embaixador do país em Washington é um editor de revista com rabo-de-cavalo. O ministro das Relações Exteriores, um índio aimará, fala sobre os benefícios de saúde da folha de coca. A ministra da Justiça é uma ex-empregada doméstica.

Rompendo abruptamente com a tradição, um dos feitos de maior orgulho do presidente Evo Morales foi buscar os principais membros de seu governo fora da elite europeizada do país.

García Linera é um produto de tal elite: um matemático polido e ex-professor universitário que cita casualmente Hegel. Mas ele se tornou rapidamente a pessoa mais poderosa no governo fora o próprio presidente, e mais importante, o que García Linera descreve como um "intermediário cultural" em um país precariamente dividido.

Folha Imagem/Jorge Araújo 
Linera é um matemático polido e ex-professor universitário que cita casualmente Hegel

Seu papel tem sido agir como ponte entre um governo que está promovendo maiores direitos para a maioria indígena excluída da política por séculos e aqueles aqui que estão alarmados com a transformação radical pela qual a Bolívia pode estar passando.

"Eu estou aqui para ajudar e servir ao primeiro presidente indígena da Bolívia", disse García Linera, 43 anos, em uma entrevista em uma sala de reuniões ornamentada no palácio presidencial. "É uma oportunidade para fazer história, da mesma forma que se fez história na África do Sul há uma década e meia."

Analistas disseram que ele tem exercido seu cargo com autoridade cheneyana, especialmente durante as viagens de Morales ao exterior. Ele viaja com freqüência pelo país, tentando acalmar a tensão criada pelos crescentes protestos e bloqueios de estrada promovidos pelos simpatizantes do governo e seus adversários.

As emissoras de televisão e os jornais cobrem cada aparição do vice-presidente, disputando entrevistas com o "PI" -presidente interino- como ele é chamado quando Morales está ausente. Mesmo quando Morales está na Bolívia, presidente e vice-presidente freqüentemente aparecem juntos em eventos, se dirigindo às platéias lado a lado.

Eles são um estudo de contrastes. Morales, um ex-pastor de lhamas e plantador de coca, é orador feroz e popular que é conhecido por usar suéteres informais ou o traje tradicional aimará mesmo em eventos oficiais.

García Linera, por outro lado, parece em cada centímetro com um homem cujos ancestrais fizeram parte da classe colonial dominante e que estiveram envolvidos há dois séculos na luta pela independência contra a Espanha.

Em público, ele veste blazers de caimento impecável, freqüentemente parecendo deslocado nos encontros de autoridades que falam aimará e quéchua vestindo ponchos coloridos. Alto e magro, ele se sobressai ao lado do atarracado Morales e outros membros do governo.

Ele não fala fluentemente nem aimará nem quéchua, apesar de ter dito que aprendeu a ler um pouco de ambas as línguas na escola com padres holandeses, na academia agostiniana na cidade de Cochabamba, a leste de La Paz. A gramática aimará, na descrição de García Linera, possui uma "lógica kantiana".

Apesar destas diferenças, ou por causa delas, o presidente tornou García Linera a face de seu governo, revelando parte da própria astúcia política de Morales ao colocar à frente o professor universitário burguês enquanto promove o intenso esforço para tirar a população indígena da miséria.

Morales tornou García Linera o principal interlocutor do governo com os Estados Unidos, o enviando para Washington para fazer lobby pela renovação das preferências comerciais para os exportadores bolivianos enquanto Morales prossegue em seus esforços para descriminalizar a produção de folha de coca.

Os comentaristas aqui às vezes descrevem García Linera como o tradutor do presidente, apontando para os esforços do vice-presidente para explicar os pronunciamentos às vezes confusos do governo. García Linera rejeita o rótulo de condescendente, se descrevendo como um mediador de idéias.

"Nós estamos testemunhando uma luta de poder entre uma elite entrincheirada e uma elite emergente", disse García Linera, usando novamente a África do Sul como comparação. "Aqui nós temos o mecanismo do apartheid mas não as leis que o acompanham. Atualizar nossa psicologia é um problema que temos há séculos."

Vindo de uma adolescência privilegiada em Cochabamba, a história pessoal de García Linera é sua própria jornada transformadora e revela um lado que parece menos fora de sintonia com o presidente ao qual serve.

Após partir para estudar matemática na Universidade Autônoma Nacional do México, ele se tornou um dos líderes na Bolívia do Exército Guerrilheiro Tupac Katari, um pequeno grupo rebelde esquerdista, durante o início dos anos 90. O grupo tirou seu nome e inspiração de um indígena aimará que promoveu um cerco a La Paz nos anos 1780.

Ele via a ação guerrilheira como uma forma de mudar a estrutura de poder da Bolívia. As autoridades o capturaram em 1992, o mantendo preso por cinco anos.

Foi durante este tempo que García Linera passou por um despertar intelectual e espiritual, ele disse, o preparando para a política tradicional. Ele disse que mergulhou no estudo de textos históricos do período colonial da Bolívia e leu "O Capital", de Marx, "letra por letra, palavra por palavra".

"O governo tinha a opção de me matar, mas não o fez", ele disse. "Um dos oficiais da prisão agora é um capitão na minha guarda pessoal. Eu bebi das águas do confronto e emergi como um homem de diálogo."

Alguns bolivianos, particularmente aqueles nas províncias onde o sentimento separatista é forte, não confiam muito na reputação de García Linera como uma influência mediadora. Ele chocou muitas pessoas em agosto, durante um discurso perante grupos indígenas, na comemoração ao levante contra os planos para exportar gás boliviano para a América do Norte, os convocando para defender o governo Morales com seus punhos e rifles.

Apesar de García Linera aparentemente ter sido disciplinado depois, sua imagem mediadora foi alterada. Sua insistência, juntamente com Morales, para que a assembléia convocada para reescrever a Constituição seja autorizada a tomar decisões por maioria simples em vez de dois terços dos votos aumentou ainda mais a preocupação da pequena classe alta boliviana.

"Álvaro não é bem um co-presidente, mas é algo próximo", disse Gonzalo Chávez, um economista e analista político da Universidade Católica, em La Paz. "Ele tem duas ou três faces. Um dia ele é um negociador, no dia seguinte ele é um radical extremista."

E qual é a verdadeira face de García Linera? Cidadãos deste país de 9 milhões de habitantes, freqüentemente estorvado por instabilidade política, ainda estão tentando responder a tal pergunta.

Alguns especulam que García Linera, que é solteiro, pode estar contatando comunidades diferentes para testar as águas para sua própria ascensão à presidência algum dia. Os vice-presidentes na Bolívia freqüentemente se vêem em tal situação quando protestos ganham força suficiente para derrubar seu superior.

Ao ser perguntado se tal possibilidade é algo que contemplou, García Linera respondeu que sua única atenção é assegurar a continuidade do governo, de forma que "nossas ações possam ser estudadas com reflexão e admiração daqui 20 anos".

"Eu quero apenas voltar aos meus livros", ele disse. "Este palácio, estes ambiente -eu sou indiferente a eles." George El Khouri Andolfato

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