Problemas de saúde crônicos afligem crianças que sobrevivem ao câncer, mostra estudo

Susan Phinney
do Seattle Post-Intelligencer

Crianças com câncer têm 80% de chance de sobrevivência, mas é provável que sofram mais tarde com doença cardiovascular, disfunção renal, um novo câncer e outras condições.

De acordo com pesquisa publicada na semana passada pelo New England Journal of Medicine, 75% dos sobreviventes tratados entre 1970 e 1986 tiveram que enfrentar problemas de saúde crônicos.

Debra Friedman, oncologista pediátrica associada ao Fred Hutchinson Cancer Research Center e ao Children's Hospital e Regional Medical Center, foi co-autora do estudo.

Friedman e dois estatísticos do Fred Hutch, Toana Kawashima e Wendy Leisenring, analisaram dados de cerca de 400 pacientes atendidos pelo Children's entre 1970 e 1986. Na época do tratamento, os pacientes tinham entre 1 e 21 anos de idade.

Quando Friedman começou a estudar seus dados em 2004, eles tinham entre 18 e 48 anos. A equipe de Seattle fazia parte de um projeto maior, o Estudo de Sobreviventes de Câncer na Infância, que unia dados de 27 instituições e 10.397 sobreviventes do câncer nos EUA.

"Sobreviventes" não quer dizer que todos no estudo ainda estão vivos.
Significam que viveram ao menos cinco anos após o diagnóstico.

Os irmãos dos pacientes de câncer foram usados como grupo de controle.
"Queríamos comparar a incidência, a prevalência e alguns resultados adversos com a população que não tinha sofrido tratamento de câncer", disse Friedman.

Seria possível usar a população geral como controle, mas irmãos compartilhavam características físicas, culturais e econômicas.

"Achávamos que era importante ter algum tipo de grupo de controle, para que pudéssemos comparar os resultados com pessoas da mesma idade que não tinham sido tratadas de câncer", disse ela. Irmãos de idade próxima aos pacientes de câncer foram escolhidos.

Friedman disse que ficou surpresa com a magnitude das condições crônicas que o estudo revelou. Sobreviventes de câncer têm 54 vezes mais chance de passar por uma grande cirurgia de substituição de articulação que seus irmãos, 15 vezes mais de ter ataque cardíaco congestivo ou outro neoplasma maligno. Suas chances de sofrer de doença coronariana ou severa disfunção cognitiva foram 10 vezes maiores.

Os sobreviventes tiveram maior incidência de acidentes cerebrovasculares, perda de audição, insuficiência ovariana e cegueira.

Por que tratamentos de câncer levariam à cegueira? Friedman disse que, em grande parte, por causa de dois tipos de terapia -cirurgia ou radiação. A incidência de cegueira "é mais alta em pacientes com câncer no cérebro."

Os sobreviventes de tumores cerebrais ou ósseos foram os que apresentaram pior condição de saúde após o câncer. Friedman disse que algumas das doenças que sofriam estavam relacionadas com o câncer e seus tratamentos.

Crianças tratadas com radiação para tumores cerebrais tiveram mais distúrbios cognitivos. Insuficiência cardíaca ou doença coronariana foram mais comuns em pacientes que tratados com radiação no peito ou com a droga antraciclina.

"Como resultado, nossas terapias para esses cânceres na infância começaram a mudar. Estamos tentando usar menos radiação no cérebro e em caso de doença de Hodgkin. Reduzimos as doses de antraciclinas em nossos protocolos para ajudar a evitar problemas cardíacos de longo prazo. E fizemos isso sem sacrificar a cura", disse Friedman.

E os novos tratamentos que estão sendo usados atualmente vão resultar em menos doenças crônicas no futuro?

"Esse é o nosso objetivo", disse ela. "Acho que é importante reconhecer que, quando a terapia de câncer termina, a pesquisa não. Precisamos de estudos constantes para entender melhor as complicações de longo prazo em pacientes de câncer e precisamos de programas dedicados aos sobreviventes para conduzirem essas pesquisas e fornecerem o atendimento clínico apropriado para esses pacientes. Muitas dessas complicações de longo prazo são passíveis de detecção e tratamento desde cedo."

Friedman espera que o relatório seja alvo de muita atenção. Há 10 milhões de sobreviventes de câncer nos EUA e os médicos e clínicas talvez não estejam conscientes dos riscos de complicações.

"Tem grande importância para a saúde pública", disse Friedman. Deborah Weinberg

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