Grandes fazendas manterão o espinafre na mesa

Daniel Akst

A recente epidemia de E. coli no espinafre, seguida pela retirada preventiva do mercado de parte do alface, deu um novo ímpeto a um par de boas idéias.

Os críticos das técnicas modernas de agricultura, que argumentam que
problemas de segurança nos alimentos sempre resultam das práticas de
agronegócio, renovaram os pedidos para um retorno à agricultura familiar. E os críticos de nossos sistema regulador fragmentado renovaram seus pedidos para a criação de uma única agência federal de vigilância para uma supervisão mais agressiva da segurança dos alimentos.

Ambas são boas sugestões. Infelizmente, a história sugere que uma pode
derrubar a outra, especialmente quando todos sabemos que o que realmente precisamos fazer é comer mais espinafre e alface, não menos.

O problema com E. coli pode ser suficiente até mesmo para afastar o Popeye da verdura. Mas comer verduras frescas sempre traz riscos. O Centro para a Ciência de Interesse Público sem fins lucrativos analisou 3.500 surtos de intoxicação alimentar, de 1990 a 2003, e descobriu que produtos agrícolas contaminados foram "responsáveis pelo maior número de doenças de origem
alimentar individuais" -mais do que as causadas por ovos e carne bovina
combinadas.

Como acidentes aéreos que assustam as pessoas e as levam às estradas -que são mais perigosas do que voar- o susto envolvendo verduras pode levar as pessoas a fazerem algo mais perigoso do que comer verduras frescas, que é não comê-las. Antes de trocar a salada por um Egg McMuffin, tenha em mente que o risco de comer vegetais contaminados empalidece em comparação ao risco de não comer vegetais suficientes -um fato manifestado no problema da obesidade e nos males ligados ao peso.

É onde entra o agronegócio. Pequenas fazendas familiares são maravilhosas (meu espinafre vem delas, na estação), mas se você espera produtos baratos e seguros o ano todo, então alguma produção agrícola industrial estará em seu futuro.

Onde moro, os agricultores cultivam principalmente neve no inverno. Eu não anseio por um retorno às prateleiras de produtos agrícolas do inverno da minha juventude, que exibiam principalmente batatas, nabos e bolas de tênis rosadas rotuladas como "tomates". A necessidade de produtos de locais distantes exige produtores maiores que possam atender a demanda de muitos clientes longínquos. Assim como a necessidade de preços baixos, que são essenciais para que as pessoas comam espinafre em vez de, digamos, uma massa frita.

A regulamentação também promove grandeza. Sustos envolvendo alimentos são uma presença constante na história americana e seguem um padrão familiar. A morte de inocentes é seguida por pedidos de regulamentação, que geralmente sofrem resistência mas freqüentemente são aceitos pelos grandes produtores, após o qual ocorre uma consolidação de produtores menores que não podem arcar com o fardo.

Em seu livro "Revolution at the Table: the Transformation of the American Diet" (Revolução à Mesa: a Transformação da Dieta Americana), Harvey Levenstein narra como a ascensão das regulamentações de segurança para alimentos -sem contar o aumento da exigência pela população de alimentos mais seguros- promoveu a grandeza no setor de alimentos de 1880 a 1930, uma tendência que já estava sendo promovida pelas novas tecnologias e pelos modos de financiamento.

No final do século 19, a adoção das leis locais de pasteurização levaram a uma rápida consolidação no setor de leite e derivados. "Em Detroit, havia 158 empresas de leite quando a lei de pasteurização foi aprovada", escreve Levenstein. "Em três meses o número caiu para 68." A indústria se consolidaria ainda mais.

Em uma entrevista por telefone de sua casa em Hamilton, Ontario, onde é
professor emérito de história da Universidade McMaster, Levenstein notou que grandes empresas de carne enlatada eram contrárias à Lei de Alimentos Puros e Drogas, de 1906, até que H.J. Heinz, o fundador da empresa de alimentos que leva seu nome, as persuadiu a apoiarem a medida. Heinz percebeu que a lei tornaria a vida mais difícil para empresas pequenas, que freqüentemente usavam ingredientes de baixa qualidade, e que a aprovação dos alimentos pelo governo poderia ser uma grande ferramenta de marketing.

Em seus primórdios, a pasteurização, atualmente considerada uma tecnologia que salva vidas, era controversa; os oponentes argumentavam que ela comprometia o valor nutritivo do leite. Argumentos semelhantes são feitos atualmente contra uma tecnologia alimentar que salva vidas -a irradiação- que é impedida há anos pelo temor de qualquer coisa que soe nuclear demais.

Algum dia alimentos irradiados serão comuns e milhares de vidas serão salvas por causa deles. Algum dia eu também espero que carnes saborosas sejam cultivadas em tanques em vez de retiradas das carcaças de animais mortos. Tais desenvolvimentos serão humanos, amigos do planeta -e trazidos para você por grandes empresas do agronegócio, com sorte com um grande governo mantendo um olhar vigilante. George El Khouri Andolfato

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