Jovens japoneses fogem para Nova York para se encontrar

Heridan Prasso
Em Nova York

Na praça de alimentação do Terminal 8 do Aeroporto Internacional Kennedy, em meio a um café da manhã com Coca-Cola e talharim chinês, Miho Mimura segurou a mão do seu novo namorado americano e as lágrimas começaram e escorrer. "Estou triste, eu não quero voltar ao Japão", ela disse.

Ela parecia cansada, seu aspecto agravado pelas fortes luzes fluorescentes. Era a manhã seguinte de seu 23º aniversário e ela e o namorado passaram a madrugada comemorando.

Hiroko Masuike/The New York Times 
Asako Shimada (à dir.), japonesa de Yokohama, participa de aula de hip-hop na Broadway


"Hoje, eu espero chorar, então sem maquiagem", disse Mimura em seu inglês imperfeito, esfregando os olhos. A emoção era compreensível. Seus três meses em Nova York a mudaram para sempre.

Mimura chegou com o coração partido, após se separar de um namorado japonês. Para pagar pela passagem, ela arrumou um segundo emprego em um bar em Tóquio, complementando seu salário de US$ 10 por hora como balconista de uma loja de roupas.

Ela veio para Nova York para curar suas feridas. Ela veio para dançar,
particularmente os passos de hip-hop que praticava no Japão. E veio para Nova York, como milhares de outros jovens japoneses, para se encontrar.

No East Village, em qualquer noite de fim de semana, uma multidão destes japoneses lotam os restaurantes conhecidos como "izakaya" que surgiram na Saint Marks Place e arredores, em um enclave às vezes chamado de Little Tokyo. Com lanternas de papel vermelhas e uma grande cacofonia, os restaurantes servem pratos como sashimi de fígado e bolas de arroz, nas mesas de expatriados conhecidos no Japão como "freeters" (uma combinação de "free", ou livre, e a palavra alemã para trabalhador, "arbeiter"), ou "Neets" ("Not in Education, Employment or Training", ou não está estudando, trabalhando ou estagiando).

Como uma versão japonesa de "slackers" (pessoas que fogem das obrigações), tais jovens são freqüentemente menosprezados em casa como egoístas por vaguearem por empregos de meio expediente ou tentarem desenvolver talento em artes - fotografia, música, pintura, dança - em vez de contribuírem para a sociedade ingressando em uma corporação ou se casando e tendo filhos. A pressão pode ser intensa.

Muitos fogem para Nova York, permanecendo entre três meses e três anos. "Em Nova York eles sentem que não sofrem pressão, que Nova York lhes dá liberdade", disse o dono nascido no Japão do Sunrise Mart, um mercado japonês em Little Tokyo.

O afluxo já ocorre há pelo menos uma década, mas diferente de meados dos anos 90, quando freeters homens e mulheres vinham em números iguais, agora ocorre uma onda em grande parte feminina - resultado da recuperação econômica do Japão, que tornou ligeiramente mais fácil para os homens jovens encontrarem empregos corporativos após a formatura.

Algumas das jovens são financiadas pelos pais. Outras dizem que trabalham como garçonetes, mesmo não tendo permissão para trabalho, em restaurantes japoneses em Nova York, onde pouco inglês é necessário, ou ganham dinheiro pousando nuas em aulas de desenho em estúdios de arte de Chelsea.

"Há três meses, eu pedi aos meus pais que mandassem dinheiro e eles
disseram: 'Esta é a última vez!'" disse Misaki Ishihara, 23 anos, uma
artista de maquiagem aspirante da região central do Japão, perto de Kobe, que está em Nova York há dois anos. "Meus pais são muito conservadores, eles não acreditam que estou aqui sozinha. Eles querem que eu me case com um homem japonês, um homem estabelecido, tenha alguns filhos e more na mesma casa com eles. Eu nem consigo acreditar que sou daquela família. Eu sou tão diferente!"

A estadia de Ishihara em Nova York incluiu aulas de surfe em Jersey Shore, aulas de inglês e obtenção de credenciais para sua carreira. "Eu quero voltar ao Japão em algum momento, mas agora ainda não é a hora", ela disse. Apesar de seu dinheiro cada vez mais curto, seus passatempos favoritos, ela disse, são compras, freqüentar os clubes da moda em Lower East Side e ir a festas.

Peter Pachter, que dirige o American Language Communication Center no Hotel Pennsylvania, na 7ª Avenida, perto da Penn Station, viu o número de seus estudantes japoneses aumentar 14%, para cerca de 500, nos últimos dois anos.

Há a sensação de que desabrocham aqui; de que finalmente têm a chance de se expressarem", ele disse.

Vários freeters japoneses se tornaram exemplos em Tóquio ao encontrar
sucesso em Nova York; suas histórias chegam ao país por meio do programa semanal de rádio "Bom Dia Nova York", que é transmitido "ao vivo da Grande Maçã" para 12 milhões de japoneses de um estúdio na 5ª Avenida, e do "D. Kaori Show", que são ouvidos por todo o Japão.

Kaori, a apresentadora, começou a trabalhar como DJ no restaurante Match, no SoHo, em meados dos anos 90. Após ser descoberta por Funkmaster Flex da rádio Hot 97 de Nova York, ela começou a trabalhar em festas de celebridades. Isto lhe valeu um contrato de gravação para um CD remix no Japão - e agora oito.

"Era muito difícil no Japão ter confiança para dizer: 'Eu posso ser o que quero ser, eu posso fazer o que quero fazer'", disse Kaori, atualmente com mais de 30 anos, com sua voz doce. "Nova York é muito livre. Eu pensei: 'Se quero fazer isto, eu posso fazer isto. No Japão você tem que seguir as regras."

Nas livrarias de Tóquio, guias como "Se Encontre em Nova York" e "O Livro dos Sonhos 'Eu Amo Nova York'" alimentam as fantasias daqueles que querem seguir os passos de Kaori. Em uma indicação de que o fenômeno realmente decolou, há até mesmo um título contrário, "Mesmo Se Você Morar em Nova York, Você Não Será Feliz".

Nova York conta atualmente com o maior número de japoneses vivendo em uma cidade fora do Japão: 59.295, segundo dados do ano passado do Ministério das Relações Exteriores do Japão. Mas as Miho Mimuras não aparecem em tais estatísticas. Como a maioria dos 475 mil japoneses que pousaram nos aeroportos Kennedy e Newark no ano passado, ela era oficialmente uma turista. Em seus 90 dias nos Estados Unidos, ela tirou mais de 850 fotos - "meu souvenir de memória!" - da Estátua da Liberdade, dos Picassos no Metropolitan Museum of Art quando os guardas não estavam olhando, do Harlem, do Radio City Music Hall e de todos os outros lugares da lista de visitas obrigatórias de uma garota japonesa.

Ela tinha um restaurante favorito no East Village. Ela se maravilhava com as camisetas de US$ 5 na H&M. "Muito barato!" ela exclamava. Ela parava diante das vitrines imitando os manequins. Ela tinha aulas quase toda noite, principalmente no Broadway Dance Center, na Rua 57 Oeste, um estúdio altamente tomado por jovens japonesas. Ela assistiu ao "Stomp" porque o elenco de 13 pessoas inclui uma japonesa que, como Mimura, veio a Nova York para perseguir seu sonho de ser dançarina.

Em sua primeira noite de sábado na cidade, em março passado, em um lounge japonês clandestino funcionando sem licença para vender bebida alcoólica no centro, Mimura pediu um drinque mais apropriado à garota que ainda era do que a mulher que aspirava ser: leite e rum Malibu. Ela marcou um encontro com um estudante de sua primeira aula de hip-hop, que atendia pelo apelido de Smiles, e um amigo dele. Antes de chegarem, Mimura confidenciou: "Eu quero um namorado americano".

Ela passou aquelas primeiras semanas lutando para aprender a se virar na cidade. Ela tinha dificuldade para andar de metrô ou encontrar acesso à Internet. Por um mês, ela dormiu no sofá do apartamento no Brooklyn de sua melhor amiga de infância, uma estudante de design no LaGuardia Community College. As duas mulheres passavam horas conversando.

Mimura escreveu em seu diário sobre o ex-namorado e por que ele a deixou. Em uma entrada, que permitiu que o repórter lesse com a ajuda de um tradutor, ela confidenciou que era carente e insegura quando estava com o namorado. Seis meses após a separação, ainda era difícil deixar o assunto para trás. Ela lhe telefonava de Nova York e conversavam sobre o motivo do romance deles ter acabado. "Eu ainda preciso dele", disse Mimura.

Certa noite, Mimura foi ao clube Sin Sin no East Village, em uma festa
mensal chamada "Soulgasm", onde um dançarino conhecido, Henry Link, da Elite Force Crew (que já dançou para Michael Jackson e Mariah Carey),
freqüentemente aparece. A festa é muito popular entre as mulheres japonesas interessadas na cultura hip-hop.

Link apareceu por volta da 1 hora da manhã, vestindo camiseta e calça de malha, e logo um círculo se formou à sua volta enquanto ele dançava.
Desafiantes entravam alternadamente no círculo de batalha, usando seus
próprios movimentos de dança, com a reação da multidão medindo seu sucesso.

Mimura vibrava de expectativa. No Japão, ela nunca teria tentado algo assim, mas quando surgiu uma abertura, ela entregou sua cerveja para uma pessoa ao lado e se lançou no círculo. Link se afastou em admiração e os espectadores aprovaram e aplaudiram.

"No Sin Sin eu não estava nervosa, não estava pensando a respeito", ela
disse posteriormente. "Eu me senti realmente feliz -com todos incentivando. Eu me senti muito bem!"

Um dançarino do Bronx chamado Mark permaneceu à beira do círculo assistindo os movimentos impressionantes de Mimura. Ele a acompanhou até o metrô após o fechamento do clube, às 4 da manhã. Ela o considerou muito gentil, ela disse posteriormente, e aceitou jantar e ir ao cinema com ele na noite de sábado seguinte.

Mas Mark chegou duas horas atrasado, e quando Mimura pediu uma explicação, ele falou com ela tão rapidamente que ela não entendeu. Foi uma noite travada, atrapalhada por dificuldades de comunicação e mágoas. Mas, mesmo assim, Mimura quis vê-lo na semana seguinte, no House Dance Conference, outro evento mensal de clube.

Mas quando o fez o interesse inicial tinha desaparecido. Smiles, seu
primeiro amigo americano, também estava lá. Um estudante de design gráfico de 22 anos na Universidade Municipal de Nova Jersey, ele gosta de camisetas que exibem seus bíceps. No clube, ele buscou assegurar o bem-estar de Mimura, cuidando para que tivesse um bom lugar à beira da pista de desafio, para assistir toda a ação.

Lentamente Mimura foi ganhando confiança para morar em Nova York,
descobrindo uma força interior. Ela se inscreveu em um concurso nacional de dança em Boston, no qual chegou às semifinais. Seu novo namorado, Smiles, lhe desejou "Ganbatte!", uma combinação de "Good luck" (boa sorte) e "Acabe com eles" em japonês.

Mas ela não venceu. Ela atribuiu a derrota a muita técnica e falta de
emoção. Ela disse que precisa se deixar tomar pela liberdade de Nova York e pela postura de pôr tudo para fora dos americanos enquanto estiver dançando. "Os dançarinos japoneses copiam, não criam", ela disse, "e eu sou mais como uma dançarina japonesa típica". Ela resolveu ser mais americana.

Pouco antes do retorno programado para casa, em um jantar em Saint Marks Place, Mimura declarou que Nova York a mudou. "Eu não era forte quando cheguei aqui", ela disse. "No Japão, eu dependia das pessoas, mas em Nova York eu não tinha ninguém. Eu tive que contar comigo mesma, então me tornei mais forte. No Japão, eu sou um pouco tímida. Mas em Nova York, as pessoas têm liberdade e esta liberdade é muito boa para mim."

Ela disse que quando voltar para casa ela perseguirá seu sonho de se tornar dançarina. Ela tinha uma promoção prometida caso voltasse ao seu emprego na loja de roupas em Tóquio, mas Mimura resolveu arrumar um emprego menos exigente para ter tempo para dançar. De fato, desde que voltou ao Japão em junho, ela manteve tal promessa e está trabalhando em uma loja de celulares e participando de concursos de dança -três até o momento.

Era uma manhã agradável de verão quando ela chegou ao Kennedy para seu vôo de volta para casa. Ela comprou uma segunda mala para todas suas compras -30 pares de meias Tommy Hilfiger para os amigos; uma estátua de cristal para a mãe de seu ex-namorado; um urso de pelúcia para a avó; jóias para sua mãe e irmã; e para ela, sapatos de dança e pilhas de roupas novas.

Smiles estava com ela. A certa altura nos dias anteriores, ficou claro que ele tinha se tornado seu namorado. Ele ajudou a carregar suas malas até o balcão de check-in. Eles seguiram para a praça de alimentação.

Alternadamente chorando e encontrando motivos para rir, Mimura pegou sua câmera.

Ela queria lembrar daquele momento. George El Khouri Andolfato

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